Planos de governo dos presidenciáveis incluem medidas para segurança pública, proteção às mulheres, população LGBTQIA+ e direitos indígenas
Os candidatos à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam propostas distintas para a área de direitos humanos no segundo turno das eleições de 2026, marcado para domingo (25). Enquanto o programa de Lula enfatiza políticas sociais, prevenção da violência e proteção de grupos vulneráveis, o de Flávio prioriza o endurecimento das penas, a ampliação do sistema prisional e o uso de tecnologias de segurança.
As diferenças aparecem nos planos de governo apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e refletem as trajetórias políticas dos candidatos. Lula ganhou projeção nacional durante o movimento sindical, no período final da ditadura militar. Flávio Bolsonaro construiu sua carreira política no Rio de Janeiro e mantém vínculo com as posições defendidas pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A comparação dos programas envolve temas como feminicídio, segurança pública, direitos da população LGBTQIA+, proteção de crianças e adolescentes e políticas destinadas aos povos indígenas.
Segurança pública é um dos principais pontos de divergência
No plano de Flávio Bolsonaro, denominado Para o Brasil Vencer o Atraso, a segurança pública ocupa posição central.
Entre as propostas estão o agravamento das penas para determinados crimes, a restrição à progressão de regime em crimes hediondos e a ampliação da capacidade do sistema penitenciário.
O candidato também propõe criar o Complexo Federal de Segurança Máxima, chamado TREVA, com cinco novas unidades prisionais inspiradas em características do modelo adotado em El Salvador.
O programa prevê ainda a criação de 500 mil vagas no sistema prisional em parceria com os estados e a implementação de um sistema nacional de reconhecimento facial conectado a bancos de dados criminais.
Já o plano de Lula combina medidas de repressão ao crime organizado com iniciativas voltadas à prevenção da violência e ao aprimoramento das instituições.
Entre as propostas estão o fortalecimento dos mecanismos de fiscalização da atividade policial, o incentivo ao uso de câmeras corporais pelos agentes de segurança e a criação de um Ministério da Segurança Pública.
O programa também prevê ações de modernização das penitenciárias, redução da reincidência criminal e cumprimento das metas do Plano Pena Justa, coordenado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Especialista defende análise do histórico dos candidatos
A diretora executiva da organização Conectas Direitos Humanos, Camila Asano, considera importante que os eleitores avaliem não apenas as promessas apresentadas durante a campanha, mas também a atuação anterior dos candidatos em cargos públicos.
Segundo ela, questões como a regulamentação do acesso às armas e as estratégias de combate à criminalidade ajudam a identificar diferenças entre os projetos políticos.
A especialista critica propostas baseadas exclusivamente no agravamento de penas e defende a utilização de informações e estudos para orientar as políticas de segurança.
Ao analisar o programa de Lula, Camila reconhece a presença de medidas preventivas, mas também aponta a necessidade de maior detalhamento.
Entre os exemplos está a proposta de criação de um Ministério da Segurança Pública, cuja implementação, segundo ela, precisa considerar a integração das informações entre os órgãos responsáveis pelo combate ao crime.
Combate ao feminicídio aparece nos dois programas
A proteção das mulheres está presente nas propostas dos dois presidenciáveis, embora com medidas e abordagens diferentes.
Flávio Bolsonaro propõe uma política de tolerância zero ao feminicídio, com monitoramento eletrônico de agressores submetidos a medidas protetivas e regras mais rígidas para o cumprimento de penas.
O candidato também defende a criação de uma plataforma digital que reúna serviços de acolhimento, saúde, orientação jurídica e apoio financeiro às mulheres.
Outra proposta é a unificação de canais de denúncia, como o Ligue 180 e as delegacias virtuais, em um sistema integrado.
O plano de Flávio prevê ainda ampliar o acesso a creches, inclusive por meio de vouchers para atendimento na rede privada quando não houver vagas disponíveis na rede pública.
Lula, por sua vez, propõe fortalecer as políticas de enfrentamento ao feminicídio, ampliar o monitoramento de agressores e capacitar profissionais das forças de segurança.
O programa também destaca medidas para a igualdade salarial entre homens e mulheres e iniciativas destinadas à ampliação da participação feminina no mercado de trabalho.
Direitos LGBTQIA+ e políticas sociais
No campo dos direitos da população LGBTQIA+, o plano de Lula prevê o fortalecimento de políticas públicas contra a discriminação e a promoção do acesso ao trabalho e à segurança.
O documento também aborda o enfrentamento ao racismo, ao capacitismo e a outras formas de desigualdade.
O programa de Flávio Bolsonaro, nos trechos destacados pela reportagem da Agência Brasil, concentra suas propostas de direitos humanos principalmente em segurança pública, proteção às mulheres e assistência às vítimas de crimes.
Os documentos apresentam, portanto, prioridades diferentes, mas a avaliação da abrangência de cada programa exige considerar seu conteúdo integral.
Povos indígenas e comunidades tradicionais
As propostas relacionadas aos povos indígenas e quilombolas também apresentam diferenças.
Lula defende a continuidade das ações de demarcação de terras indígenas e a retirada de ocupantes irregulares desses territórios, além de medidas de proteção às comunidades tradicionais.
O plano também prevê o desenvolvimento de políticas de saúde específicas e a implantação plena da Universidade Indígena, criada em 2026.
Flávio Bolsonaro propõe ampliar a autonomia de comunidades tradicionais para decidir sobre atividades produtivas em seus territórios.
Segundo o programa do candidato, essas iniciativas deverão respeitar as regras ambientais e considerar mecanismos de compensação financeira em situações de restrição de uso das terras.
Camila Asano avalia que o plano de Lula necessita de explicações mais detalhadas sobre como serão realizadas as ações de proteção territorial e de garantia dos direitos indígenas.
Proteção à infância e educação
O programa de Lula prevê ampliar a educação em tempo integral, investir na construção de creches e fortalecer medidas de combate à pobreza infantil e ao trabalho infantil.
O documento também defende a aplicação das regras de proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital.
Já Flávio Bolsonaro propõe medidas relacionadas à segurança e à responsabilização criminal de adolescentes.
Entre elas está a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, além de alterações nas regras de responsabilização de adolescentes a partir dos 14 anos em casos de infrações graves.
A proposta depende de mudanças legislativas e está entre os temas que provocam divergências no debate sobre segurança pública e direitos de crianças e adolescentes.
Segundo turno será neste domingo
A eleição presidencial será decidida no domingo, 25 de outubro, quando os brasileiros voltarão às urnas para escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Os programas apresentados pelos candidatos expõem diferenças nas estratégias de segurança pública, no enfrentamento às desigualdades e na proteção de direitos individuais e coletivos.
As propostas, entretanto, não representam medidas automaticamente implementadas. Parte delas dependerá de aprovação legislativa, disponibilidade de recursos e regulamentação.
A análise dos planos de governo, das experiências anteriores dos candidatos e das condições de execução das propostas oferece elementos para compreender as alternativas em discussão na eleição presidencial.
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