Presidente argentino questionou a integridade da votação e fez críticas a Lula; governo brasileiro classificou declarações como ingerência externa inaceitável
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil divulgou, nesta terça-feira (20), uma nota de repúdio às declarações do presidente da Argentina, Javier Milei, que questionou a integridade do processo eleitoral brasileiro e fez novos ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição.
A manifestação ocorreu a cinco dias do segundo turno presidencial, marcado para domingo, 25 de outubro, quando Lula disputará a Presidência da República com Flávio Bolsonaro (PL).
Para o Itamaraty, as declarações do presidente argentino representam uma tentativa de interferência externa no processo democrático brasileiro, especialmente por envolverem críticas ao Poder Judiciário e ao sistema eletrônico de votação.
O episódio amplia a tensão diplomática entre Brasil e Argentina, países que mantêm relações comerciais estratégicas e integram o Mercosul.
Milei insinua fraude e provoca reação do governo brasileiro
A controvérsia começou após publicações de Javier Milei na rede social X.
O presidente argentino compartilhou um trecho de entrevista concedida por Lula ao SBT, na noite de segunda-feira (19), e escreveu que esperava que o último recurso da campanha adversária não incluísse roubar a eleição.
A mensagem foi interpretada pelo governo brasileiro como uma insinuação de possível fraude no segundo turno.
Milei também compartilhou imagens do debate realizado entre Lula e Flávio Bolsonaro no domingo (18), acompanhadas de críticas ao presidente brasileiro, a quem chamou de autoritário.
O presidente argentino mantém proximidade política com a família Bolsonaro e já havia protagonizado outros episódios de confronto verbal com Lula.
Itamaraty classifica declarações como ingerência externa
Na resposta oficial, o Ministério das Relações Exteriores condenou as manifestações do chefe de Estado argentino.
"As ofensas de hoje do Presidente da República Argentina ao Brasil, desta vez dirigidas ao Poder Judiciário e ao sistema de voto eletrônico, constituem nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro", afirmou o Itamaraty.
A pasta também acusou Milei de reproduzir alegações associadas aos responsáveis pela tentativa de ruptura institucional no Brasil após as eleições de 2022.
Segundo o governo brasileiro, declarações desse tipo são incompatíveis com a responsabilidade diplomática esperada do presidente de um país com o qual o Brasil mantém relações históricas.
Na nota, o ministério reafirmou sua confiança no sistema eletrônico de votação e destacou a atuação de observadores eleitorais internacionais no acompanhamento do primeiro turno.
O Itamaraty concluiu afirmando que a escolha do próximo presidente deve ocorrer exclusivamente pela manifestação dos eleitores brasileiros nas urnas, sem interferências de governos estrangeiros.
As acusações de possível fraude divulgadas por Milei não vieram acompanhadas, nas informações apresentadas, de provas que sustentassem a suspeita.
Relações diplomáticas estão rebaixadas desde agosto
Os novos ataques ocorrem em meio a uma crise diplomática que já havia provocado o rebaixamento das relações entre Brasil e Argentina.
Desde agosto de 2026, os dois países deixaram de manter embaixadores em suas respectivas capitais. A representação brasileira em Buenos Aires passou a ser conduzida por um encarregado de negócios.
A decisão ocorreu após uma sequência de declarações ofensivas de Milei contra Lula e autoridades brasileiras.
Em 26 de julho, o embaixador brasileiro Julio Bitelli foi convocado a retornar a Brasília depois que o presidente argentino atacou Lula durante uma convenção do Partido Liberal (PL), que confirmou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Na ocasião, Milei também criticou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que atuou como relator do julgamento que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
O governo brasileiro considerou que as manifestações ultrapassaram os limites do debate político e representaram desrespeito incompatível com as relações diplomáticas entre os dois países.
Brasil e Argentina mantêm forte integração comercial
Apesar dos desentendimentos entre seus presidentes, Brasil e Argentina permanecem economicamente interligados.
O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina, com participação relevante nas exportações e importações do país vizinho.
A integração é especialmente importante para os setores automotivo e industrial, que possuem cadeias produtivas distribuídas entre os dois países.
Brasil e Argentina também são membros fundadores do Mercosul, bloco econômico que estabelece compromissos comerciais e mecanismos de cooperação regional.
O rebaixamento diplomático não significa rompimento das relações comerciais ou suspensão automática dos acordos existentes.
Eleições brasileiras motivam novo confronto
A manifestação do Itamaraty representa mais um episódio da deterioração do relacionamento político entre Lula e Milei.
As declarações do presidente argentino ocorreram na reta final da campanha presidencial brasileira, em um momento de intensificação dos debates sobre o funcionamento das instituições e a segurança do processo eleitoral.
O governo brasileiro rejeitou as insinuações de fraude e afirmou que a definição do resultado caberá exclusivamente aos eleitores.
Até o momento, as publicações de Milei não apresentaram evidências que sustentem a suspeita de manipulação da votação.
O segundo turno está marcado para domingo, 25 de outubro, e a Justiça Eleitoral será responsável pela organização da votação, apuração dos votos e divulgação dos resultados oficiais.