Por Marcelo Rossoni
Lula ganhou a eleição. A Faria Lima perdeu o sono. Na segunda-feira, 26 de outubro, o Ibovespa caiu 13,88%, o dólar subiu 8,21% e a Bolsa precisou interromper os negócios por meia hora. O mecanismo se chama circuit breaker. É uma espécie de freio de emergência para quando o mercado entra em pânico e começa a vender tudo o que encontra pela frente.
O curioso é que não apareceu nenhuma novidade econômica capaz de explicar, sozinha, tamanho desespero. O Brasil não havia quebrado durante a madrugada. Não houve confisco, moratória ou anúncio de calote. O que aconteceu foi a derrota de Flávio Bolsonaro e a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Uma possibilidade perfeitamente prevista na Constituição, mas que parte do mercado parece considerar uma afronta pessoal.
A Faria Lima tem dessas coisas. Quando gosta de um candidato, encontra razões para acreditar no futuro. Quando não gosta, qualquer nuvem no horizonte vira prenúncio de tempestade. E, naturalmente, aparecem os especialistas, geralmente muito bem remunerados, para explicar que o problema não é político. É técnico. Sempre técnico.
Não estou sugerindo que todos os investidores sejam especuladores inescrupulosos. Há empresas sérias, fundos que administram a poupança de milhões de pessoas e profissionais que trabalham com responsabilidade. Mas existe também uma fauna bastante conhecida naquele ambiente. Gente que ganha fortunas comprando no susto, vendendo no boato e apostando na desgraça alheia. Alguns enxergam uma oportunidade de lucro até no anúncio de um desastre.
E há os abutres. Esses não precisam esperar o cadáver esfriar.
O mais divertido, se não fosse tão sério, é observar a facilidade com que o mercado muda de humor conforme a identidade do ocupante do Palácio do Planalto.
Tenho a impressão de que, se Lula soltar um peido, haverá imediatamente um economista disposto a avaliar suas consequências sobre a estabilidade financeira do país.
Tudo dependerá do odor.
Se o peido for discreto, talvez o mercado interprete como sinal de prudência fiscal. Se vier mais forte, surgirá a preocupação com uma possível expansão dos gases presidenciais, capaz de pressionar a inflação e comprometer as expectativas para o próximo trimestre.
Se o vento levar o cheiro até a Faria Lima, o dólar poderá subir. Os juros futuros acompanharão o movimento. Alguma corretora divulgará um relatório reservado aos clientes mais importantes, advertindo que o ambiente econômico se deteriorou.
Se, por alguma dessas misteriosas razões da natureza, o peido de Lula apresentar uma fragrância agradável aos investidores, a Bolsa poderá subir. Nesse caso, os mesmos analistas descobrirão sinais positivos de responsabilidade fiscal e confiança na condução da economia.
O problema, portanto, não estaria no peido. Estaria no nariz de quem o cheira.
A brincadeira é grosseira? Talvez. Mas não encontro maneira muito mais delicada de descrever certas manifestações de histeria financeira.
Resolvi procurar algumas datas. Não fui muito longe.
Em 28 de março de 2023, o Brasil alcançou a marca de 700 mil mortos pela Covid-19. Setecentas mil pessoas. Famílias destruídas, filhos sem pais, pais sem filhos, hospitais lotados, despedidas que nunca aconteceram.
Naquele dia, o Ibovespa subiu 1,52%.
Não estou dizendo que a Bolsa subiu porque brasileiros morreram. Evidentemente, não. Os preços das ações respondem a inúmeros fatores econômicos. O que me interessa é outra coisa: naquele dia, a tragédia nacional não impediu um pregão de valorização.
Voltemos a 2021, quando Jair Bolsonaro ainda governava o país.
As imagens de brasileiros fazendo fila para conseguir ossos de boi percorriam jornais e televisões. Era gente procurando restos de carne para colocar alguma coisa na panela. Em 29 de setembro daquele ano, quando o drama da fome já ocupava o noticiário, o Ibovespa fechou em alta de 0,89%.
Repito: alta.
Não se tratava de alguma extravagância gastronômica. Ninguém estava na fila do osso porque havia descoberto uma receita francesa de sopa. Eram famílias sem dinheiro para comprar carne. Algumas, sem dinheiro sequer para o gás de cozinha.
Os ossos, portanto, também entram na conta política de Bolsonaro.
A fome brasileira não nasceu em seu governo, e seria leviano atribuir a uma única pessoa todas as suas causas. Mas aquele quadro de miséria ocorreu durante sua administração. O governo tinha responsabilidades sobre a política econômica, o emprego, a renda e a proteção social. Não pode ser retirado da fotografia simplesmente porque a lembrança se tornou desagradável.
Aliás, há uma diferença extraordinária entre os dois cenários. Quando o brasileiro procurava ossos, a preocupação predominante dos analistas era com juros, inflação, câmbio e perspectivas de crescimento. Agora, diante da vitória eleitoral de Lula, uma parcela do mercado parece ter descoberto que a própria existência do país depende da satisfação de seus investidores.
É um patriotismo curioso. Começa no bolso e termina no extrato bancário.
Sei perfeitamente que a Bolsa de Valores não é uma instituição de assistência social. Também não espero que um operador interrompa suas negociações para lamentar cada notícia triste. Seria uma ingenuidade incompatível com meus anos de jornalismo.
O que incomoda é a pretensão de transformar as reações do mercado numa espécie de julgamento superior da política brasileira. Como se os investidores tivessem recebido, além do direito de comprar e vender ações, uma autorização especial para corrigir a vontade popular.
Ora, o eleitor não compra ações quando entra na cabine de votação. Escolhe um presidente. E o resultado dessa escolha não precisa receber o selo de aprovação de um banco de investimentos.
Lula venceu a eleição. Isso não o torna imune a críticas nem garante que fará um bom governo. Terá de responder por suas decisões, pelo orçamento, pelos gastos públicos e pelos resultados econômicos. Como qualquer presidente.
Mas Flávio Bolsonaro perdeu. E não cabe à Bolsa funcionar como uma terceira instância eleitoral, inconformada com a decisão das urnas.
Também seria bom que os comentaristas econômicos abandonassem o hábito de atribuir ao chamado mercado uma personalidade única, quase divina. O mercado pensa, o mercado exige, o mercado teme, o mercado aprova. Daqui a pouco estará frequentando consultório médico para tratar uma crise de ansiedade.
Mercado não é gente. É um conjunto de interesses, muitas vezes contraditórios, disputando dinheiro.
Há quem compre quando outros vendem. Há quem ganhe com a alta do dólar e quem perca. Há quem aposte na queda de determinada empresa e comemore o prejuízo dos acionistas. E há, evidentemente, quem se preocupe de verdade com os fundamentos da economia.
Misturar tudo isso e apresentar o resultado como a opinião respeitável de uma entidade chamada mercado é uma conveniência jornalística que merece ser examinada.
O Brasil possui mais de duzentos milhões de habitantes. A maioria não sabe o que é um contrato futuro de dólar e não tem a menor obrigação de saber. Mas conhece muito bem o preço do arroz, do feijão, do aluguel e do transporte. Sabe quanto custa uma consulta médica quando o atendimento público demora. E sabe, sobretudo, o tamanho do salário no fim do mês.
Essas pessoas também fazem parte da economia. Na verdade, são elas que sustentam boa parte dela.
O Brasil não pode ser medido exclusivamente pelas telas dos operadores da B3, assim como a qualidade de um governo não pode ser determinada pelo entusiasmo de meia dúzia de administradores de grandes fortunas.
De minha parte, continuarei olhando com desconfiança para certas manifestações de pânico financeiro. Principalmente quando coincidem, com uma pontualidade quase britânica, com derrotas eleitorais dos candidatos autores de cartas golpistas preferidos da Faria Lima.
E espero, sinceramente, que Lula cuide da alimentação dos mais pobres, dos descamisados, como diria meu saudoso amigo Laerce Bernardes Machado.
Não por alguma preocupação especial com o funcionamento de seu intestino, assunto que pertence à intimidade do presidente.
É que, nesse ambiente de tamanha sensibilidade política, um simples peido presidencial pode acabar provocando uma reunião extraordinária do Banco Central.
E ainda haverá quem peça ao governo um programa de contenção de gases para salvar a Bolsa.
Marcelo Rossoni é jornalista, escritor, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas