Sexta-feira, 16 de Outubro de 2026 | 19h19m
Vitória News — Um jornal de verdade
Torre de Papel
Círculo do Poder

Entre o petrolão e a rachadinha mora a Semiótica

16/10/2026 10:39
Entre o petrolão e a rachadinha mora a Semiótica

Por Marcelo Rossoni

A política brasileira é um lugar fascinante. Não apenas pelos personagens que desfilam diariamente pelos noticiários, mas pela extraordinária capacidade que alguns setores possuem de transformar palavras em instrumentos de guerra. Afinal, antes de condenar alguém na praça pública, é preciso escolher cuidadosamente o rótulo.

E rótulos importam.

Antes de avançarmos, vale uma breve explicação. A semiótica é a disciplina que estuda os signos, os símbolos e os processos de construção de significado. Em outras palavras, procura compreender como palavras, imagens, gestos e símbolos influenciam a forma como interpretamos a realidade. Não por acaso, a semiótica integra a grade curricular dos cursos de Jornalismo, Publicidade, Propaganda, Relações Públicas e outras áreas da Comunicação. Seu objeto de estudo é justamente a maneira como a linguagem molda percepções, desperta emoções e influencia comportamentos.

Quando o escândalo envolve o Partido dos Trabalhadores (PT), de Luiz Inácio Lula da Silva, a criatividade lexical costuma trabalhar em turno integral. Surgem nomes robustos, musculosos, quase cinematográficos. Tivemos o Mensalão. Depois veio o Petrolão. O sufixo “ão” entra em cena como um halterofilista sem camisa: tudo parece gigantesco, monumental, aterrador. Não basta ser um esquema. Tem de ser um esquemão.

Já quando o noticiário se volta para personagens ligados ao atual Partido Liberal (PL), de Jair Bolsonaro, frequentemente aparece uma palavra curiosamente mais delicada: rachadinha.

A própria sonoridade parece saída de uma conversa de padaria. Algo pequeno, quase doméstico. Um probleminha. Uma coisinha. Um deslizezinho.

A semiótica explica que as palavras nunca são inocentes. Elas carregam significados explícitos e implícitos. O cérebro humano não recebe apenas a informação; recebe também a embalagem. E a embalagem influencia a percepção do produto.

Imagine se a lógica fosse invertida.

Talvez os jornais estampassem manchetes sobre o “Rachadão”. Ou quem sabe o “Super Rachadão”. O leitor imediatamente perceberia outra gravidade na narrativa.

Da mesma forma, poderíamos imaginar o “Mensalinho”. O “Petrolinho”. Difícil não sorrir diante da hipótese. O escândalo continuaria sendo o mesmo, mas a sensação produzida pelas palavras seria completamente diferente.

E é justamente aí que mora o poder da linguagem.

O curioso é que a semiótica não atua apenas na construção dos nomes. Ela também influencia a memória coletiva.

Quando alguém menciona o Mensalão, a lembrança é imediata. O país assistiu a investigações, julgamentos, condenações e prisões de personagens que ocupavam posições relevantes na política nacional. Nomes como José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e Marcos Valério passaram anos estampando manchetes, telejornais e capas de revistas.

O mesmo ocorreu com a Operação Lava Jato e com aquilo que ficou popularmente conhecido como Petrolão. Executivos de empreiteiras, dirigentes da Petrobras, operadores financeiros, parlamentares e lideranças partidárias foram investigados, processados, presos ou condenados ao longo de um dos mais extensos ciclos de apuração da história recente do país.

Já a rachadinha percorreu um caminho diferente. Houve investigações, denúncias, quebras de sigilo, operações policiais e intenso debate político. Mas a própria expressão parece incapaz de produzir o mesmo impacto emocional. O diminutivo suaviza. Amortece. Reduz a sensação de grandeza que a palavra transmite ao público.

É como se a língua portuguesa estivesse sussurrando no ouvido do leitor: “não parece algo tão grande assim”.

E aqui a semiótica volta a entrar em cena.

O problema não está necessariamente no valor envolvido, na conduta investigada ou na quantidade de pessoas atingidas. O ponto está na moldura narrativa que cerca cada episódio.

Afinal, ninguém precisou explicar ao brasileiro que o Mensalão era algo grande. A própria palavra já fazia esse trabalho. O Petrolão então nem se fala. O nome parecia ter sido criado para transmitir uma ideia de magnitude antes mesmo da leitura da primeira linha da reportagem.

Enquanto isso, a rachadinha permaneceu aprisionada ao universo dos diminutivos. Quase uma parente linguística do cafezinho, da lembrancinha, da conversinha e da saidinha.

A pergunta que a semiótica nos convida a fazer é simples: se os nomes fossem invertidos, a percepção pública também seria diferente?

Se durante anos os jornais falassem em “Esquemão dos Gabinetes”, “Rachadão Nacional” ou “Megarrachadura dos Recursos Públicos”, a reação popular seria exatamente a mesma?

Talvez nunca saibamos.

Mas sabemos que a linguagem não é neutra. Nunca foi.

A imprensa costuma afirmar, com razão, que os fatos são sagrados. Mas os fatos raramente chegam ao leitor nus e crus. Eles chegam vestidos. E quem escolhe a roupa da notícia exerce influência sobre a forma como ela será recebida.

Isso não significa afirmar a existência de uma conspiração organizada, de uma sala secreta onde editores decidam favorecer este ou aquele grupo político. A realidade costuma ser menos dramática e mais banal. Muitas vezes os termos surgem espontaneamente, ganham tração nas redes sociais, são repetidos por comentaristas, reproduzidos por políticos e acabam incorporados ao vocabulário nacional.

Mas, uma vez incorporados, passam a exercer vida própria.

Eis a grande lição da semiótica: o poder nem sempre está no fato. Frequentemente está na narrativa que envolve o fato.

Por isso, talvez a pergunta mais relevante não seja se a imprensa favorece este ou aquele partido. A questão talvez seja mais profunda: quem escolhe os nomes pelos quais a história será lembrada?

Porque os políticos passam. Governos passam. Partidos passam.

Mas os apelidos permanecem.

E, não raro, um simples sufixo consegue produzir efeitos mais duradouros na memória coletiva do que milhares de páginas de inquéritos, processos, laudos, recursos e sentenças.

No Brasil das narrativas permanentes, a disputa pelo poder começa muito antes das urnas, dos tribunais e das investigações.

Ela começa nas palavras.

E quem domina as palavras quase sempre larga alguns passos à frente na corrida pela opinião pública.

Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de empresas


Compartilhe este post