Flávio Bolsonaro é investigado no STF por sua atuação na captação de recursos de Daniel Vorcaro, enquanto outra frente da Polícia Federal rastreia emendas de R$ 5,65 milhões destinadas por cinco parlamentares a entidades ligadas à produtora do filme
Por Marcelo Rossoni
O Dark Horse ainda não chegou às telas, mas nos bastidores já produziu material suficiente para um roteiro que talvez Hollywood tivesse dificuldade de imaginar. Tem banqueiro, senador, deputados, milhões de dólares, emendas parlamentares, organizações não governamentais, empresas atravessando o caminho do dinheiro, Polícia Federal e dois ministros do Supremo Tribunal Federal. Para um filme que nasceu contando a história de Jair Bolsonaro, o elenco fora das câmeras ficou consideravelmente maior do que o anunciado.
E o cavalo resolveu correr.
Sexta-feira (11), veio a público uma informação que muda de patamar a situação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O ministro André Mendonça, terrivelmente evangélico, do Supremo Tribunal Federal, autorizou ainda em julho a abertura de inquérito contra o senador para investigar suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas aos repasses feitos pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para financiar Dark Horse. A abertura da investigação havia sido solicitada pela Polícia Federal e recebeu o aval da Procuradoria-Geral da República.
Portanto, Mendonça não decidiu agora investigar Flávio. A decisão já existia. O que aconteceu nesta sexta-feira foi a revelação pública do seu conteúdo e, com ela, a confirmação inequívoca de que o senador figura formalmente como investigado.
Caberá à Polícia Federal reunir provas e ao Ministério Público avaliar posteriormente se existem elementos para acusação. Mas também não significa apenas citado, testemunha ou personagem lateral. Existe um inquérito autorizado pelo Supremo para investigar hipóteses criminais envolvendo o senador.
O problema político talvez esteja menos na existência do inquérito do que na memória das palavras.
E, nesse caso, a memória tem material de sobra.
Levantamento realizado pelo site de checagem Aos Fatos encontrou pelo menos 12 ocasiões, desde novembro de 2025, em que Flávio Bolsonaro procurou afastar publicamente a si próprio e sua família do caso envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master. Não foram 12 frases rigorosamente iguais dizendo “não conheço Vorcaro”. Foram manifestações diferentes, mas apontando na mesma direção: sustentar que os Bolsonaro não tinham relação com aquele escândalo.
Em 16 de março, por exemplo, depois de seu nome aparecer entre os contatos encontrados no celular de Vorcaro, Flávio Bolsonaro afirmou nunca ter mantido contato com o banqueiro. Em outras oportunidades, classificou como falsa a tentativa de associar Bolsonaro e a direita ao Banco Master. Em 1º de maio, chegou a afirmar que “a gente não tem relação nenhuma com esses criminosos”.
A negativa mais difícil de acomodar ao que surgiria depois aconteceu em 13 de maio.
Questionado diretamente sobre o financiamento de Dark Horse por Daniel Vorcaro, Flávio classificou a informação como mentira. Repetiu a negativa.
Horas depois, a história já era outra.
Com áudios, mensagens e documentos publicados, Flávio Bolsonaro reconheceu que conhecia Daniel Vorcaro e que havia procurado o banqueiro em busca de recursos privados para financiar o filme sobre o pai.
A confidencialidade envolvendo o projeto foi apresentada posteriormente como uma das explicações para as negativas.
Pode explicar o silêncio.
Explicar 12 negativas públicas é tarefa um pouco mais trabalhosa.
Principalmente porque aquilo que apareceu depois não revelou uma relação periférica. Flávio reconheceu sua participação na busca de financiamento, e as conversas mostraram que ele próprio acompanhava o andamento dos pagamentos.
A negociação previa até US$24 milhões, aproximadamente R$134 milhões na cotação da época. Segundo informações divulgadas posteriormente, Vorcaro teria repassado dezenas de milhões de reais relacionados ao projeto.
E havia algo além da conversa sobre um eventual patrocínio.
Flávio cobrava.
Em setembro de 2025, o senador enviou um áudio a Vorcaro demonstrando preocupação com parcelas atrasadas. Explicou que a produção tinha compromissos, mencionou o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh e alertou para as consequências caso o dinheiro não aparecesse.
Em outubro, voltou à carga. Com as filmagens em andamento, informou ao banqueiro que a produção estava “no limite”. Disse ainda que, se Vorcaro não pudesse cumprir o combinado, procuraria urgentemente outro caminho.
Não parece exatamente a conversa de dois desconhecidos que eventualmente cruzaram cartões de visita num coquetel.
Vorcaro respondeu que cuidaria do assunto. Na mesma sequência, apareceram conversas envolvendo o publicitário Thiago Miranda, que também tratava da liberação das parcelas. Em determinado momento, Vorcaro informou que havia liberado mais uma.
O dinheiro, portanto, deixou de ser personagem abstrato.
Parte dos recursos percorreu uma estrutura financeira nos Estados Unidos, envolvendo o Havengate Development Fund, no Texas. Nesta semana surgiu mais uma peça importante: André Mendonça, o terrivelmente evangélico, homologou a colaboração de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, apontado como responsável por repasses ao fundo americano.
Agora a PF procura reconstruir o percurso do dinheiro: de onde saiu, por quais empresas e fundos passou, quem efetivamente o recebeu e onde terminou.
Flávio sustenta que buscou investimento privado para uma produção privada e nega qualquer ilegalidade. É uma defesa que precisa ser registrada. Caberá à investigação determinar se essa explicação encerra a história ou apenas abre o próximo capítulo.
Só que Dark Horse resolveu não depender de uma única pista.
Enquanto o ministro André Mendonça supervisiona a investigação envolvendo Flávio, Vorcaro e o financiamento, outro inquérito corre no Supremo sob a relatoria do ministro Flávio Dino.
É uma investigação diferente e convém não misturar os cavalos.
Nesta segunda frente aparece dinheiro público.
A Polícia Federal deflagrou, na quinta-feira (10), a Operação Make Up, cumprindo 49 mandados de busca e apreensão. Entre os alvos estão o deputado federal Mário Frias (PL-SP), produtor executivo e roteirista de Dark Horse, e Karina Ferreira da Gama, responsável pela Go Up Entertainment, produtora do filme. A PF investiga suspeitas envolvendo recursos originados de emendas parlamentares.
É nesse pedaço da história que aparecem cinco parlamentares do PL.
Mário Frias (PL-SP) destinou R$2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil.
Carla Zambelli (PL-SP) destinou R$2 milhões à Academia Nacional de Cultura.
Alexandre Ramagem (PL-RJ) indicou R$500 mil para a mesma entidade.
Marcos Pollon (PL-MS) destinou R$1 milhão.
Bia Kicis (PL-DF) indicou outros R$150 mil.
A conta chega a R$5,65 milhões em emendas indicadas por cinco parlamentares a entidades relacionadas a Karina Gama, responsável também pela produtora de Dark Horse.
A conta chega a R$5,65 milhões em emendas indicadas por cinco parlamentares a entidades relacionadas a Karina Gama, responsável também pela produtora de Dark Horse.
Aqui é necessário colocar o freio antes que o cavalo ultrapasse os fatos.
Não está demonstrado que os R$5,65 milhões tenham sido utilizados para financiar o filme. Parte dessas emendas sequer chegou a ser efetivamente repassada. Os parlamentares negam irregularidades e sustentam que os recursos tinham outras finalidades.
É justamente o destino de parte do dinheiro público efetivamente liberado que a PF tenta esclarecer.
No caso das emendas de Mário Frias, a trilha encontrada pelos investigadores chamou atenção. Recursos destinados ao Instituto Conhecer Brasil para projetos sociais passaram por empresas contratadas. A PF identificou posteriormente uma transferência de R$750 mil para a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, realizada por empresa relacionada à cadeia de fornecedores investigada.
Para a Polícia Federal, existem elementos suficientes para investigar se houve um circuito financeiro destinado a fazer dinheiro público chegar à produtora por caminhos indiretos.
Pode haver explicação.
É justamente o que os investigadores querem ouvir.
Porque dinheiro público tem uma característica curiosa: pode trocar de conta, atravessar empresas e percorrer quilômetros, mas continua carregando a obrigação de explicar de onde veio e por que foi gasto.
Mário Frias aparece ainda em outra parte desse quebra-cabeça. A investigação examina suas relações financeiras com a produtora e fornecedores ligados aos projetos financiados pelas emendas. A PF encontrou ainda conexões entre prestadores contratados pelas entidades e pessoas que haviam participado da campanha eleitoral do deputado.
Há, portanto, duas investigações que se aproximam do mesmo filme por caminhos diferentes.
Flávio Bolsonaro é investigado no procedimento sob responsabilidade de André Mendonça, relacionado aos recursos captados junto a Daniel Vorcaro. Ele ainda não é investigado na Operação Make Up, conduzida na outra frente, sob a relatoria de Flávio Dino.
Já a segunda investigação procura saber se recursos públicos destinados por parlamentares a entidades relacionadas a Karina Gama foram desviados de suas finalidades e se algum dinheiro terminou, direta ou indiretamente, na estrutura ligada à produção cinematográfica.
Misturar as duas investigações seria conveniente para uma narrativa política.
Separá-las é obrigação jornalística.
Mas separá-las não significa ignorar que ambas acabam diante da mesma porta: Dark Horse.
Também não significa condenar antecipadamente ninguém. Flávio Bolsonaro, Mário Frias, Karina Gama e os demais citados têm direito à defesa, e investigação não é sentença. As suspeitas precisam ser comprovadas — ou descartadas.
O que já não depende de interpretação é a cronologia.
Primeiro vieram as negativas.
Foram pelo menos 12.
Depois apareceram as mensagens.
Vieram os áudios.
Surgiram as cobranças pelas parcelas atrasadas.
Flávio reconheceu que havia procurado Vorcaro para conseguir dinheiro para o filme.
Apareceram os milhões transferidos.
Depois vieram as emendas parlamentares, as entidades, as empresas intermediárias e a investigação sobre o possível caminho de recursos públicos.
Nesta semana, Mendonça homologou a colaboração de um personagem apontado como responsável por transferências para o fundo americano.
E agora se sabe oficialmente que, desde julho, Flávio Bolsonaro está sob investigação autorizada pelo Supremo por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas ao financiamento de Dark Horse.
A existência do inquérito veio à tona.
Os detalhes da investigação, não.
Ao contrário do que ocorreu em outras frentes do caso Master, o inquérito que alcança Flávio Bolsonaro permanece sob sigilo, sem que tenham sido tornados públicos os detalhes das diligências investigativas em andamento.
No caso Dark Horse, o cavalo já apareceu.
O que acontece dentro da pista continua sob sigilo terrivelmente absoluto.
O filme ainda nem chegou às telas, mas sua história fora delas já reúne um banqueiro, milhões de dólares, cinco parlamentares destinando R$ 5,65 milhões em emendas a entidades relacionadas à produtora, Polícia Federal, CGU, Coaf, dois ministros do Supremo e um senador que passou de pelo menos 12 negativas públicas à condição formal de investigado.
É personagem demais para caber nos créditos finais.
E existe uma ironia que nenhum roteirista precisou inventar.
Dark Horse é uma expressão usada para definir o azarão — aquele cavalo em quem poucos apostam e que, de repente, surpreende durante a corrida.
O filme ainda nem estreou.
Mas, nos tribunais, seu cavalo já deixou a baia.
Agora resta descobrir se, em algum trecho dessa corrida, dinheiro público também ajudou a sustentar o galope.
É exatamente isso que a Polícia Federal procura saber.
Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas