Por Marcelo Rossoni
Era sábado, 24 de outubro de 2026, véspera do segundo turno das eleições para presidente da República e governador do Espírito Santo. Um amigo jornalista me encaminhou, pelo WhatsApp, o vídeo do discurso pronunciado por Luiz Inácio Lula da Silva em 7 de abril de 2018, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, poucas horas antes de se entregar para cumprir a ordem de prisão expedida pela 13ª Vara Federal de Curitiba.
O amigo conhece uma velha mania minha. Há muitos anos, coleciono vídeos, documentos, fotografias, páginas de Diários Oficiais, recortes de jornais e toda espécie de registro que, por alguma razão, considero capaz de contar um pedaço da história. O acervo já ocupa alguns terabytes de um HD externo e continua crescendo, sem qualquer sinal de moderação.
Nesse aspecto, guardadas as devidas proporções, lembro meu amigo Uda Bresciane, colecionador incansável de milhares de lápis, canetas, flâmulas e outros objetos. Cada um preserva o passado à sua maneira. Ele guarda objetos; eu, documentos e imagens.
Talvez um dia esse arquivo sirva de referência para algum pesquisador interessado em compreender acontecimentos, personagens e bastidores de uma época. Por enquanto, considero prudente mantê-lo longe da curiosidade pública. Sua abertura indiscriminada poderia provocar duas consequências bastante previsíveis: pânico generalizado e uma enxurrada de processos. Melhor deixar a História amadurecer um pouco.
Foi provavelmente por conhecer essa minha mania que o amigo resolveu me enviar o vídeo.
Imaginei que assistiria a mais um registro histórico daqueles dias turbulentos da política brasileira. Estava enganado. Ao terminar a gravação, tive a sensação de que acabara de rever algo muito maior do que um discurso político. Ali estava uma das mais impressionantes demonstrações de oratória da vida pública brasileira contemporânea.
Ao longo da vida, ouvi grandes oradores e acompanhei gravações de outros tantos que marcaram a História. Leonel Brizola talvez tenha sido o mais extraordinário entre os brasileiros. Falava sem depender de teleprompter, desenvolvia raciocínios complexos de improviso, dominava a plateia e transformava cada discurso em um verdadeiro comício de ideias. Ulysses Guimarães emocionava pela autoridade moral. Winston Churchill mobilizou uma nação durante a Segunda Guerra Mundial. Martin Luther King Jr. deu voz ao sonho da igualdade. Nelson Mandela fez do perdão um instrumento político.
Cada um encontrou seu próprio caminho para chegar às pessoas.
Lula também encontrou o seu.
Nunca foi um acadêmico. Sua educação formal foi interrompida ainda no ensino fundamental, quando precisou trocar a escola pelo trabalho para ajudar no sustento da família. Não frequentou uma universidade. Aprendeu muito do que sabe nas oficinas mecânicas, no chão das fábricas, nas assembleias sindicais e no convívio diário com trabalhadores.
Talvez venha daí uma de suas maiores qualidades como comunicador: a capacidade de explicar questões políticas complexas usando palavras simples, exemplos cotidianos e histórias nas quais milhões de brasileiros conseguem reconhecer a própria vida.
Naquele 7 de abril de 2018, a ordem de prisão já havia sido expedida. A Polícia Federal aguardava o cumprimento da decisão judicial, enquanto milhares de pessoas permaneciam nas imediações do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo.
O ambiente era de tensão, revolta e incerteza.
A multidão gritava:
"Não se entrega! Não se entrega!"
Esperava-se um gesto de desafio. Qualquer palavra mais exaltada poderia incendiar ainda mais os ânimos.
Lula, porém, escolheu outro caminho.
Pediu serenidade.
Disse que cumpriria a decisão judicial.
E, ao anunciar que se entregaria, retirou dos adversários políticos a possibilidade de transformar aquele momento em um confronto físico, com imagens que certamente percorreriam o mundo.
Foi uma escolha política, mas também uma demonstração de inteligência retórica.
Em lugar de colocar a prisão no centro de tudo, Lula fez dela o pano de fundo de uma narrativa muito mais ampla. Falou do que acreditava ter realizado ao longo de seus governos e do significado dessas conquistas para a população mais pobre.
Lembrou os jovens que chegaram às universidades, as famílias que passaram a comprar carne com maior frequência, os trabalhadores que viajaram de avião pela primeira vez, adquiriram um automóvel ou conseguiram financiar a casa própria.
Não precisou recorrer a gráficos, apresentações de PowerPoint ou extensas tabelas de indicadores econômicos.
Contou histórias.
E histórias têm uma força que os números, sozinhos, dificilmente alcançam. As pessoas podem esquecer percentuais, mas costumam guardar na memória aquilo que conseguem relacionar com a própria experiência.
Em determinado momento, Lula afirmou que, se havia cometido o crime de permitir que negros chegassem às universidades, que pobres comessem carne, viajassem de avião e conquistassem melhores condições de vida, continuaria sendo criminoso.
A construção era poderosa.
Ele se apropriava da acusação para lhe atribuir outro significado. O que seus adversários apresentavam como motivo de condenação passava a ser descrito, diante daquela multidão, como motivo de orgulho.
Mas o discurso ainda reservaria seu momento mais marcante.
Lula afirmou que suas ideias já estavam espalhadas e que ninguém conseguiria aprisioná-las. Pouco depois, pronunciou as palavras que se tornariam a síntese daquele dia:
"Eu sou uma ideia. Uma ideia misturada com a ideia de vocês."
Foi uma frase curta, mas carregada de significado.
Naquele instante, Lula deixou de falar apenas de si.
Falou de permanência.
E talvez esteja justamente aí a maior qualidade daquele pronunciamento.
Um homem pode ser preso, derrotado nas urnas, afastado do poder e até esquecido. Uma ideia, quando encontra abrigo na consciência das pessoas, pode continuar circulando muito depois de seu criador deixar a cena.
Lula parecia compreender isso com absoluta clareza.
Ao se apresentar como uma ideia, deslocava a atenção de sua figura individual para algo que, segundo sua própria narrativa, já não lhe pertencia inteiramente. Era como se dissesse à multidão que sua trajetória pessoal poderia sofrer uma interrupção, mas aquilo que representava continuaria vivo.
Não é uma construção retórica comum.
Exige sensibilidade para perceber o ambiente, domínio da linguagem e, sobretudo, uma compreensão quase intuitiva do estado emocional de quem está ouvindo.
Enquanto milhares de pessoas pediam que não se entregasse, Lula percebeu que poderia transformar a própria entrega em uma demonstração de resistência.
Não precisava permanecer dentro do sindicato para continuar politicamente presente.
Bastava sair dali deixando uma mensagem que sobrevivesse à prisão.
É o tipo de percepção que distingue os grandes oradores.
Brizola recorria à indignação.
Churchill despertava coragem.
Martin Luther King Jr. mobilizava a esperança.
Mandela apontava o caminho da reconciliação.
Lula escolheu a ideia.
Assisti à gravação esperando encontrar um dirigente político diante de uma despedida difícil.
Encontrei um homem preocupado com a maneira pela qual aquele momento seria lembrado.
Não sei se o discurso convenceu algum de seus adversários. Sinceramente, duvido. Discursos políticos raramente modificam convicções profundamente enraizadas. Mas compreendi por que aquelas palavras emocionaram tanta gente e por que, passados oito anos, ainda conservam força.
Se a prisão foi justa para uns e injusta para outros, essa é uma discussão que pertence também à Justiça e à análise dos processos.
O discurso, entretanto, já pertence à História.
Foi ao rever aquelas imagens que minha admiração pela capacidade de comunicação de Lula cresceu. Não porque eu tenha passado a concordar integralmente com suas decisões políticas, mas porque reconheci nele uma qualidade que sempre considerei indispensável aos grandes líderes: saber usar a palavra para alcançar as pessoas.
Há políticos que governam bem e discursam mal. Outros falam muito e realizam pouco. Existem ainda aqueles que, em circunstâncias excepcionais, conseguem transformar uma fala em algo que permanece na memória coletiva.
Naquele sábado de abril, antes de deixar o Sindicato dos Metalúrgicos e seguir para Curitiba, Lula não estava apenas encerrando um capítulo de sua vida.
Deixava uma ideia caminhando por conta própria.
Anos se passaram.
E a política brasileira, com sua conhecida capacidade de surpreender até os observadores mais experientes, acrescentaria àquela história um desfecho que poucos poderiam imaginar em 2018.
No domingo, 25 de outubro de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, venceu mais uma eleição presidencial. Derrotou Flávio Bolsonaro, do PL, e conquistou nas urnas o direito de exercer seu quarto mandato como presidente da República.
Quatro vitórias presidenciais.
É um feito que merece ser examinado para além das simpatias e antipatias partidárias.
Afinal, estamos falando do menino pobre que deixou o interior de Pernambuco, do torneiro mecânico que perdeu um dedo em um acidente de trabalho, do sindicalista que enfrentou a ditadura, do presidente que conheceu a prisão e do político que tantos adversários consideraram definitivamente afastado da vida pública.
Pois esse mesmo homem voltou a vencer uma eleição presidencial.
E não foi a primeira vez que contrariou os prognósticos sobre o fim de sua carreira.
Isso não significa colocar Lula acima de críticas ou ignorar os erros cometidos ao longo de seus governos. Tampouco significa concordar com todas as suas escolhas, alianças e posições políticas.
A democracia não permite esse tipo de reverência incondicional. Pelo contrário. Exige fiscalização, oposição, imprensa livre e o direito permanente de discordar.
Mas discordar de um político não nos obriga a ignorar a importância histórica de sua trajetória.
E a de Lula, gostem ou não seus adversários, tornou-se uma das mais singulares da política brasileira.
Enquanto o país reelegia Lula, os capixabas também tomavam uma decisão importante sobre o próprio futuro.
Lorenzo Pazolini, do Republicanos, ex-prefeito de Vitória, venceu a eleição para governador do Espírito Santo.
Os dois resultados, observados em conjunto, dizem muito sobre a complexidade do eleitor brasileiro.
No plano nacional, prevaleceu um dos maiores representantes da esquerda latino-americana. No Espírito Santo, venceu um político identificado com o campo conservador e apoiado por forças que trabalharam, durante a campanha presidencial, pela derrota de Lula.
À primeira vista, alguém poderia enxergar uma contradição.
Não vejo assim.
O eleitor não é obrigado a seguir uma cartilha ideológica nem a reproduzir, no estado, a mesma escolha que faz para a Presidência da República. Suas decisões passam por experiências pessoais, avaliações de governo, expectativas, afinidades e, muitas vezes, decepções acumuladas.
O voto também carrega uma parcela de pragmatismo que os dirigentes partidários nem sempre conseguem compreender.
Lula terá mais quatro anos para demonstrar que sua reconhecida capacidade de comunicação continua acompanhada da capacidade de governar e produzir resultados. Pazolini, por sua vez, terá a responsabilidade de transformar o prestígio conquistado nas urnas em benefícios concretos para todo o Espírito Santo, e não apenas para os setores que o apoiaram.
São políticos de campos diferentes, com trajetórias distintas e desafios próprios.
Mas ambos receberam dos eleitores algo fundamental para o exercício do poder: legitimidade democrática.
Há, contudo, um detalhe dessa eleição que me chamou particularmente a atenção.
Durante a campanha presidencial, Flávio Bolsonaro anunciou que, se fosse eleito, subiria a rampa do Palácio do Planalto acompanhado do pai, Jair Bolsonaro, que lhe colocaria a faixa presidencial.
A cena foi apresentada como um reencontro simbólico da família Bolsonaro com o poder.
Havia, naquela promessa, uma evidente intenção política. Não se tratava apenas de uma cerimônia de posse. Era a imagem de uma continuidade familiar, preparada para marcar o início de um novo governo.
Pois bem.
A cena não acontecerá.
Com a vitória de Lula, Flávio Bolsonaro não subirá a rampa do Planalto para receber a faixa presidencial das mãos do pai. Jair Bolsonaro tampouco protagonizará a cerimônia que o filho anunciou tantas vezes durante a campanha.
A política tem dessas coisas.
Seus personagens imaginam desfechos, organizam solenidades, ensaiam discursos e, por vezes, passam a tratar como inevitável aquilo que ainda depende da vontade de milhões de eleitores.
As urnas costumam ser pouco sensíveis a roteiros previamente escritos.
E foi justamente essa imprevisibilidade da política que me fez voltar ao vídeo recebido pelo WhatsApp na véspera da eleição.
Em abril de 2018, diante de uma multidão que implorava para que não se entregasse, Lula anunciou que cumpriria a ordem de prisão. Seus adversários acreditavam assistir ao encerramento de uma carreira política. Muitos estavam convencidos de que ele jamais teria condições de disputar novamente a Presidência da República.
O tempo mostrou que aquela certeza era precipitada.
Lula recuperou a liberdade, voltou a disputar eleições, retornou ao Palácio do Planalto e, agora, conquistou sua quarta vitória presidencial.
Confesso que achei difícil não estabelecer uma ligação entre aquele discurso e o resultado das urnas.
Não porque acredite que uma fala, por mais brilhante que seja, consiga determinar sozinha o destino político de alguém. Eleições dependem de inúmeros fatores: economia, alianças, conjunturas, acertos, erros e milhões de decisões individuais.
Mas porque o pronunciamento de 2018 revelou uma característica que ajuda a compreender a sobrevivência política de Lula: sua capacidade de transformar situações aparentemente desfavoráveis em oportunidades para reafirmar sua liderança.
Naquele sábado, cercado pela tensão e pela expectativa da prisão, ele não tinha como prever o que aconteceria nos anos seguintes.
Não sabia quanto tempo permaneceria preso. Não sabia como sua situação jurídica evoluiria. Muito menos se voltaria a disputar uma eleição presidencial.
O futuro era uma incógnita.
O que estava ao seu alcance, naquele momento, era a maneira como deixaria o sindicato e aquilo que diria às pessoas que o acompanhavam.
E foi nisso que concentrou sua força.
O Brasil conhece bem os políticos que confundem o exercício temporário do poder com uma espécie de direito adquirido. Alguns se comportam como se uma vitória eleitoral lhes garantisse lugar permanente na História. Outros, diante de uma derrota, parecem incapazes de aceitar que o poder mudou de mãos.
É uma ilusão antiga, repetida por personagens de diferentes partidos e ideologias.
Mandatos começam e terminam. Governos são substituídos. Presidentes sobem e descem rampas. Faixas presidenciais mudam de ombro. Adversários comemoram vitórias que, algum tempo depois, podem dar lugar a derrotas.
A democracia vive justamente dessa possibilidade de mudança.
O poder não pertence para sempre a ninguém.
Talvez por isso algumas palavras resistam melhor ao tempo do que muitos governos.
Ao rever o discurso de Lula, percebi que sua força não estava apenas na emoção daquele 7 de abril. Estava, sobretudo, na possibilidade de ser lembrado em circunstâncias muito diferentes daquelas em que foi pronunciado.
Oito anos depois, diante do resultado das urnas, a metáfora da ideia que não pode ser aprisionada adquiriu um significado ainda mais expressivo.
Não sei como os historiadores avaliarão Lula daqui a cinquenta ou cem anos. Certamente encontrarão razões para reconhecer seus méritos e examinar criticamente seus erros, suas decisões e as consequências de seus governos.
É assim que a História deve ser escrita, sem absolvições automáticas nem condenações determinadas apenas pelas paixões políticas de cada época.
Mas haverá um fato impossível de ignorar.
O homem que deixou o Sindicato dos Metalúrgicos sob custódia da Polícia Federal voltou à Presidência da República e conquistou, em 2026, um quarto mandato.
Penso novamente naquela tarde de abril.
Os adversários de Lula conseguiram vê-lo preso. Alguns imaginaram que ali terminava sua trajetória política.
Não terminou.
O homem foi preso.
A ideia permaneceu em liberdade.
E, oito anos depois, venceu mais uma.
Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade, graduado em Administração de empresas e escritor.