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A Influência do Jazz

08/10/2026 09:22
A Influência do Jazz

Por Marcelo Rossoni

Em 1961, Carlinhos Lyra compôs “Influência do Jazz”, uma inquietação bem-humorada sobre o samba que, ao incorporar maneiras estrangeiras, parecia perder o próprio balanço. A ironia tinha requinte: a música também dialogava com os ritmos que criticava. Lyra conhecia aquela mistura por dentro. Era um dos criadores da bossa nova e, com Vinicius de Moraes, compôs clássicos como “Você e Eu”, “Coisa Mais Linda” e “Minha Namorada”.

A bossa nova foi uma contribuição brasileira ao mundo, e não simplesmente um samba deturpado. Mas a preocupação do compositor serve à política: até onde a influência estrangeira amplia possibilidades e a partir de quando passa a escolher o compasso, o repertório e o dono da festa?

Quando interesses estratégicos estão em jogo, Washington dispõe de instrumentos que vão da negociação à força militar. O Iraque continua sendo uma advertência. A invasão de 2003 foi justificada, entre outros argumentos, pela existência de armas de destruição em massa. Os estoques alegados para sustentar a guerra não foram encontrados. A certeza apresentada ao mundo não resistiu à investigação posterior.

Vieram a destruição, a ocupação e os contratos de reconstrução, inclusive para grandes empresas americanas. Houve dinheiro do petróleo iraquiano e bilhões do orçamento dos Estados Unidos. Permanece o desconforto de uma engrenagem em que a guerra abre caminho para negócios de reconstrução, enquanto o país atingido suporta as consequências.

O petróleo também se tornou instrumento de influência financeira. Conforme divulgado pela imprensa, as receitas petrolíferas iraquianas depositadas no Federal Reserve de Nova York, o banco central americano, dão a Washington poder de pressão sobre Bagdá. A presença estrangeira pode continuar operando muito depois de os tanques desaparecerem da fotografia.

Na Venezuela, a sequência ganhou contornos ainda mais explícitos. Às sanções econômicas e financeiras seguiu-se a intervenção militar. Em 3 de janeiro de 2026, forças americanas capturaram Nicolás Maduro e sua mulher em Caracas e os levaram para Nova York. A defesa do venezuelano classificou a ação como sequestro militar. Sob a presidência interina de Delcy Rodríguez, acordos ampliaram a influência americana sobre campos petrolíferos do país.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, Washington passou a supervisionar as exportações de petróleo venezuelano e a controlar operações de venda, com repasses de receitas ao governo interino. O país continuou formalmente soberano — epa! —, mas sua principal fonte de riqueza passou a conviver com uma tutela externa bastante concreta.

É sob essa luz que o Brasil precisa examinar o interesse americano por suas terras raras, elementos importantes para a indústria tecnológica. Em maio, depois de encontrar Donald Trump, Flávio Bolsonaro prometeu, caso eleito, parcerias estratégicas de longo prazo nesse setor. Falou em investimentos protegidos e reindustrialização compartilhada. Eduardo Bolsonaro também defendeu negociações comerciais e mencionou terras raras e manganês entre os interesses dos dois países.

Negociar exige esclarecer o que ficará no Brasil: processamento industrial, tecnologia, empregos, receitas e responsabilidade ambiental. Apresentar nossas riquezas como solução para a dependência americana da China pode render aplausos no exterior. Ao eleitor brasileiro, cabe perguntar qual será a solução para a dependência do próprio Brasil.

A velha imagem do quintal de Washington reaparece aí. Pelo tamanho e pelos recursos, o Brasil ocupa lugar de destaque nessa vizinhança imaginária. O perigo aumenta quando o pretendente a governar a casa se entusiasma em oferecer facilidades ao visitante antes de explicar as condições aos moradores.

A influência, porém, também pode alcançar as instituições. Documentos divulgados pela imprensa apontam a destinação de US$ 1 milhão pelo Departamento de Estado americano a um programa de apoio a grupos que contestam o Supremo Tribunal Federal. A Advocacia-Geral da União pediu investigação. Os destinatários e o alcance efetivo dessas ações precisam ser identificados.

Nem toda influência precisa de porta-aviões, bombas e tropas. Às vezes, uma promessa de apoio, um contrato sedutor ou uma verba apresentada como generosidade abre as portas desejadas. Há quem confunda a gorjeta com reconhecimento internacional. Carlinhos Lyra temia que o samba perdesse o balanço. O Brasil precisa cuidar para não perder a chave da casa.

Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em contabilidade e graduado em Administração de Empresas

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