Por Marcelo Rossoni
A política tem uma crueldade que frequentemente escapa aos seus personagens mais experientes: enquanto o político pode decidir esperar, o eleitor não espera. Ele cresce, muda, envelhece, forma suas próprias convicções e, principalmente, novas gerações chegam às urnas.
Projetemos o cenário para 2030.
Um político que tenha disputado sua última eleição em 2014 e decida retornar às urnas em 2030 terá permanecido 16 anos sem disputar uma eleição. Para quem acompanha a política há mais de cinco décadas, talvez esse período pareça apenas um intervalo numa longa biografia. Para milhões de eleitores, porém, será praticamente uma vida inteira.
O jovem que tiver 22 anos em 2030 nasceu em 2008. Quando esse político disputou sua última eleição, em 2014, ele tinha apenas 6 anos.
Não era eleitor. Não acompanhava debates. Não conhecia programas de governo. Não avaliava alianças partidárias. Não sabia distinguir direita, esquerda, centro ou qualquer uma das inúmeras acomodações que a política brasileira inventa entre esses pontos.
Mais importante: não construiu memória eleitoral daquele político.
Façamos a conta avançar um pouco. Quem tiver 25 anos em 2030 tinha apenas 9 anos em 2014. Quem estiver com 30 tinha 14. Até uma parcela dos eleitores que estarão entrando na maturidade em 2030 terá pouca ou nenhuma lembrança política própria da última campanha daquele candidato.
É nesse ponto que aparece uma diferença fundamental: ter história política não significa necessariamente possuir presença eleitoral.
Durante os 16 anos de afastamento das urnas, esse político pode ter cuidado de seus negócios particulares, dirigido empresas, participado de conselhos, aproximado-se de grupos empresariais, estabelecido relações com setores conservadores, frequentado seminários, concedido entrevistas e circulado confortavelmente entre pessoas influentes.
Tudo legítimo.
Mas tudo deixa marcas.
O político pode abandonar temporariamente a urna, mas sua biografia pública não entra em férias.
Enquanto ele estava distante das campanhas, uma geração inteira começou a votar. Outros personagens ocuparam prefeituras, governos, Assembleias Legislativas, Câmara e Senado. Novas lideranças apareceram. As redes sociais transformaram desconhecidos em celebridades políticas e reduziram antigos protagonistas a nomes familiares apenas para determinadas faixas etárias.
O espaço eleitoral que alguém deixa vazio não permanece reservado com uma pequena placa dizendo: "volto em 2030".
Alguém ocupa.
Esse é o problema de imaginar que capital político funciona como dinheiro depositado numa aplicação financeira. Não funciona. Votos não ficam guardados esperando o proprietário retornar.
Um ex-governador, ex-senador ou ex-prefeito pode continuar sendo muito conhecido em 2030. Mas conhecimento de nome não é sinônimo de intenção de voto. E talvez a pergunta mais importante de uma pesquisa eleitoral nem seja "você conhece?", mas "você conhece de onde?"
Para um eleitor mais velho, poderá ser o governador de determinada época. Para outro, será lembrado por uma obra ou por uma disputa histórica. Para o jovem de 22 anos, entretanto, poderá ser simplesmente um senhor cujo nome aparece eventualmente nos jornais e que seus pais dizem ter sido importante na política.
Esse "ter sido" pode ser eleitoralmente devastador.
Porque uma campanha não se vence apenas contando ao eleitor o que alguém fez há 16 ou 20 anos atrás. É necessário convencê-lo de que aquele personagem pertence ao seu presente e pode representar seu futuro.
E o eleitor de 2030 será diferente daquele de 2014.
Terá crescido sob redes sociais, vídeos curtos, comunicação instantânea e uma quantidade brutal de informação. Terá atravessado crises políticas, transformações econômicas e mudanças culturais que moldaram outra percepção de mundo. Muitos dos códigos políticos que funcionavam em 2014 poderão parecer peças de museu.
Existe ainda outra dificuldade.
Durante 16 anos fora das urnas, as escolhas particulares daquele político também poderão ser submetidas ao julgamento eleitoral. Empresas que dirigiu, negócios dos quais participou, grupos dos quais se aproximou, posições que defendeu e companhias políticas que escolheu passarão pelo microscópio de adversários, jornalistas e redes sociais.
Quem retorna não traz apenas o currículo do antigo homem público.
Traz também a bagagem acumulada durante sua ausência.
Por isso, uma candidatura em 2030 depois de uma última disputa em 2014 não pode ser analisada simplesmente como o retorno de um veterano. Para determinada parcela do eleitorado, será quase o lançamento de um candidato novo — com uma curiosa diferença: um candidato novo carregando uma biografia antiga.
Essa talvez seja a grande armadilha.
O político olha para trás e enxerga seu legado. O eleitor de 22 anos olha para trás e não encontra memória alguma.
Um recorda realizações. O outro estava aprendendo a ler.
Um acredita que está voltando. Para o outro, ele está chegando.
E eleições são decididas pelo eleitor que existe no dia da votação, não pelo eleitor que existia quando determinado político resolveu deixar as urnas.
Em 2030, portanto, 16 anos não serão apenas 16 anos.
Para milhões de brasileiros, será uma geração inteira.
Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas