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A estrela vermelha não veio com controle remoto

06/10/2026 08:43
A estrela vermelha não veio com controle remoto

Por Marcelo Rossoni

No Espírito Santo, o eleitor mostrou que o voto não acompanha necessariamente a embalagem partidária. Luiz Inácio Lula da Silva recebeu 850.028 votos, enquanto Helder Salomão, candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) ao governo estadual, alcançou 323.483. A diferença foi de 526.545 votos. A estrela aparecia nas duas candidaturas, mas não conseguiu fazer o eleitor apertar o mesmo número em todas as etapas.

Helder obteve uma votação equivalente a 38,06% da registrada por Lula. É uma distância considerável para quem imagina que o prestígio presidencial possa ser despachado aos candidatos estaduais como encomenda, com endereço certo e entrega garantida. Na política, o remetente pode ser poderoso. O destinatário continua dependendo do eleitor.

Seria correto chamar essa diferença de “votos não petistas”? Não. A apuração informa quantos votos cada candidato recebeu, mas não identifica a filiação de quem votou. Entre os eleitores de Lula pode haver petistas, simpatizantes e pessoas que jamais frequentaram uma reunião partidária. Também pode haver petista que tenha escolhido outro governador. A urna não exige atestado de coerência.

O apoio recebido pelo presidente não se reproduziu, na mesma dimensão, na candidatura de Helder. Entretanto, os totais não revelam como cada cidadão combinou suas escolhas. O sigilo do voto, felizmente, protege o eleitor até da curiosidade dos companheiros.

Na disputa para a Câmara dos Deputados, os sete candidatos do PT somaram 281.732 votos nominais, dados diretamente aos seus nomes. Foram 41.751 a menos que Helder, equivalentes a 87,09% da votação do candidato ao governo. Jack Rocha e João Coser conquistaram mandatos.

Além dos votos nos candidatos, existe o voto de legenda, dado ao partido. Nas eleições para deputado federal, deputado estadual e vereador, o eleitor pode digitar apenas os dois números da sigla — no caso do PT, 13 — e confirmar. Esses votos entram no cálculo das cadeiras que o partido ou a federação poderá conquistar.

Acrescentados os 16.699 votos de legenda, o total petista na eleição federal chegou a 298.431, ainda 25.052 abaixo de Helder. A conta considera somente o PT, sem os demais partidos da federação. Mesmo reunindo candidatos e legenda, a votação ficou abaixo da obtida pelo companheiro que disputava o Palácio Anchieta.

Para a Assembleia Legislativa, os 22 candidatos petistas reuniram 172.179 votos nominais, equivalentes a 53,23% da votação de Helder. A diferença chegou a 151.304 votos. Karla Coser, Açucena e Julio da Fetaes foram eleitos. Com os 23.079 votos de legenda, o total estadual alcançou 195.258, permanecendo 128.225 abaixo do candidato ao governo.

Essas diferenças, por si só, não explicam as razões das escolhas. Para compreendê-las, seria necessário investigar as campanhas, as alianças, o apoio efetivo às candidaturas e as preferências locais. Transformar os totais em prova de infidelidade seria exigir dos números uma confissão que eles não podem dar.

O eleitor pode admirar Lula e escolher outro governador. Pode votar em Helder e preferir um deputado de outra legenda. Pode construir uma combinação capaz de provocar uma pequena crise de identidade em qualquer reunião partidária. É uma liberdade celebrada antes da eleição e examinada com menos entusiasmo depois dela.

Os resultados mostram que popularidade pessoal não equivale a fidelidade partidária automática. O voto recebido por Lula não se transforma em patrimônio disponível aos demais candidatos. Cada um precisa convencer o eleitor. A estrela ajuda a identificar o caminho, mas não veio com controle remoto.

Uma estrela e várias correntes

O Partido dos Trabalhadores reúne tendências e campos políticos que disputam os rumos da legenda, sua política de alianças e a composição das direções. Essa organização é reconhecida pelo próprio partido, que assegura aos filiados o direito de constituir correntes internas. A unidade partidária, portanto, convive com diferentes projetos e estratégias.

A Construindo um Novo Brasil (CNB) é a força majoritária nacional. No Processo de Eleição Direta (PED) de 2025, sua chapa conquistou 51% dos votos válidos destinados às chapas nacionais, mantendo a predominância na composição da direção.

O PED é o sistema pelo qual os filiados aptos a participar escolhem diretamente os presidentes e a composição das direções municipais, estaduais e nacional do PT. O eleitor filiado vota no candidato à presidência e em uma chapa para o respectivo diretório. A votação das chapas determina, proporcionalmente, a participação dos grupos na direção partidária.

A Articulação de Esquerda (AE) defende uma estratégia democrático-popular e socialista, com um partido enraizado na classe trabalhadora, nos movimentos sociais e na mobilização popular. Sua orientação questiona posições consideradas moderadas dentro da legenda.

A Democracia Socialista (DS), fundada em 1979, participou da construção do PT e defende um socialismo democrático, feminista, antirracista e ecossocialista — perspectiva que associa a transformação social à preservação ambiental. A corrente também atua no movimento sindical, estudantil e em organizações populares.

A Resistência Socialista também participa da organização nacional petista. No PED de 2025, apresentou uma chapa que colocou o enfrentamento à desigualdade e a defesa da democracia no centro de sua identificação política.

O Diálogo e Ação Petista (DAP) se define como um agrupamento organizado em grupos de base. Defende a reaproximação do PT com trabalhadores e movimentos populares e critica políticas de conciliação que, em sua avaliação, limitam as mudanças estruturais.

Nesse cenário nacional também aparecem o Movimento PT, identificado na disputa de 2025 pela chapa Somos Todos PT em Movimento, e o Campo Popular. Ambos participaram da eleição para a direção nacional, ao lado de outras articulações, como Muda PT e A Força da Militância.

Tendências, campos e chapas eleitorais não são sinônimos: uma chapa pode reunir diferentes grupos e militantes independentes. Por isso, as oito chapas que disputaram o PED de 2025 não devem ser tomadas como uma lista completa das tendências existentes. O mapa interno comporta alianças e rearranjos — sob a mesma estrela, nem todos apontam a bússola para a mesma direção.

É nesse terreno que cabe uma pergunta discreta: as diferentes prioridades internas também se traduziram em diferentes graus de empenho nas campanhas? A hipótese merece apuração, mas não encontra resposta apenas nos totais das urnas. Para avançar, seria preciso observar como cada grupo mobilizou suas bases e apoiou as candidaturas. A pluralidade pode enriquecer o debate; saber se todas as vozes deram o mesmo volume à campanha é outra questão.

Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em contabilidade e graduado em Administração de Empresas

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