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O ex-camarada de chapéu Panamá

18/09/2026 12:20
O ex-camarada de chapéu Panamá

Por Marcelo Rossoni

Eustáquio Palhares, jornalista das antigas, meu amigo e apresentador de um programa de entrevistas na televisão – Presença –, outro dia me enviou um vídeo curioso. Jornalista experiente tem dessas coisas: às vezes não precisa escrever uma linha, basta encaminhar alguma coisa acompanhada daquele silêncio que, entre profissionais da velha guarda, costuma dizer muito mais do que um editorial inteiro.

No vídeo aparece um certo cidadão que, de algum tempo para cá, incorporou ao figurino um elegante chapéu Panamá. Antes que alguém faça associação precipitada, esclareço: não é Lula. Podem ficar tranquilos. É outro personagem, um ex-camarada que aparentemente descobriu, junto com novas convicções políticas, as virtudes estéticas de uma boa aba sobre a cabeça.

O chapéu, justiça seja feita, lhe cai bem. Dá um ar de personagem de romance latino-americano, desses que atravessam lentamente a praça central imaginando que as pessoas interromperam o café para acompanhar sua passagem. Faltam talvez uma bengala, um charuto apagado e uma cadeira de balanço numa varanda ampla. Mas não devemos exigir demais: transformações políticas já dão trabalho suficiente, e seria crueldade cobrar que a metamorfose estética fosse concluída no mesmo pacote.

Há, porém, uma deliciosa ironia histórica na escolha do acessório. Apesar do nome, o autêntico chapéu Panamá não nasceu no Panamá. É originário do Equador, onde tradicionalmente é tecido com fibras da paja toquilla, uma palmeira típica daquela região, cujas fibras são preparadas e trançadas artesanalmente. O nome veio do caminho percorrido pelo produto: durante muito tempo, aqueles chapéus equatorianos circularam e foram comercializados através do Panamá, e o mundo acabou batizando a mercadoria pelo lugar onde a encontrava, não pelo lugar onde havia nascido.

A confusão ganhou dimensão internacional no início do século XX, especialmente depois que Theodore Roosevelt, então presidente dos Estados Unidos, apareceu usando um desses chapéus durante sua visita às obras do Canal do Panamá, em 1906. As fotografias ajudaram a consagrar um nome que já circulava. Estava concluída uma das mais bem-sucedidas trocas de identidade da história da moda: nascido no Equador, chamado de Panamá e popularizado mundialmente, entre outros, na cabeça de um presidente americano.

Talvez nosso ex-camarada não tenha pensado nisso quando escolheu o figurino, mas dificilmente encontraria um acessório mais adequado para certas metamorfoses políticas. Até o chapéu que leva na cabeça ficou famoso ostentando uma identidade diferente daquela de sua origem. A diferença, evidentemente, é que o Panamá nunca precisou negar que veio do Equador. Quem resolve reformar a própria biografia costuma enfrentar tarefa um pouco mais complicada.

O cinema também emprestou elegância ao acessório. Em Casablanca, clássico de 1942 ambientado na cidade marroquina durante a Segunda Guerra Mundial, Humphrey Bogart eternizou Rick Blaine ao lado da atriz sueca Ingrid Bergman, a inesquecível Ilsa Lund. Bogart ficou associado sobretudo ao fedora, tradicional chapéu de feltro de aba média e copa marcada, e ao sobretudo, enquanto Paul Henreid, como Victor Laszlo, marido de Ilsa e líder da resistência contra o nazismo, aparece com o elegante chapéu claro. O cinema sabe há muito tempo que um chapéu pode ajudar a construir um personagem antes mesmo que ele abra a boca.

Nosso personagem não está em Casablanca, não é Victor Laszlo e Eustáquio não me mandou nenhum clássico de Hollywood. Ainda assim, confesso que, depois de conhecer a história do Panamá, passei a olhar o vídeo com interesse renovado. Há coincidências que um cronista não deve desperdiçar, principalmente quando a realidade demonstra disposição para colaborar com a metáfora.

Existe uma provocação antiga segundo a qual pior do que um comunista é um ex-comunista. Evidentemente, não se trata de teoria científica, muito menos de regra aplicável a todos os que mudaram de posição política. Mas certas frases sobrevivem porque, vez ou outra, aparece alguém disposto a emprestar a própria biografia para demonstrar que talvez exista nelas alguma malícia verdadeira.

O comunista convicto, pelo menos, apresenta a mercadoria na vitrine. Defende suas ideias, carrega suas contradições e responde pelo que acredita. Pode-se concordar ou discordar dele, mas existe certa coerência em assumir a própria posição. Determinados ex-comunistas constituem fenômeno mais interessante: não se contentam em mudar de opinião, direito absolutamente legítimo, e passam a tratar o próprio passado como fotografia comprometedora encontrada no fundo de uma gaveta.

Mudar de ideia não é defeito. Dependendo das circunstâncias, pode até ser demonstração de inteligência, maturidade ou capacidade de reconhecer equívocos. O problema começa quando a conversão política vem acompanhada de amnésia seletiva. Nesse caso, o antigo companheiro não apenas atravessa a rua ideológica; depois de chegar à calçada oposta, vira-se para trás e começa a proclamar, com extraordinária convicção, que jamais esteve do outro lado.

Talvez daí venha a explicação para um fenômeno bastante conhecido: quanto maior o passado, mais alto costuma ser o sermão. Quem passou muitos anos defendendo determinada bandeira parece sentir necessidade de agitá-la com força redobrada na direção contrária, como se o volume da nova pregação pudesse apagar os discursos antigos. É uma espécie de penitência ideológica realizada em praça pública, com a vantagem de que o convertido exerce simultaneamente as funções de pecador, padre e responsável pela própria absolvição.

Nada tenho contra conversões. A história está cheia delas. Segundo o relato do Novo Testamento, Saulo de Tarso perseguia os primeiros cristãos até viver uma experiência de conversão no caminho para Damasco. Depois disso, tornou-se Paulo, o apóstolo, uma das figuras fundamentais para a expansão do cristianismo. O ponto interessante para esta conversa é que Paulo não tentou apagar Saulo de sua história. Ao contrário, sua vida anterior fazia parte da própria narrativa de transformação. Talvez esteja justamente aí uma diferença importante entre assumir que se mudou de convicção e tentar promover uma reforma completa na memória.

Na política brasileira, algumas mudanças ideológicas parecem incluir um serviço completo de reforma. Troca-se o discurso, substituem-se os companheiros, atualiza-se o vocabulário, revisam-se antigas amizades e começa uma cuidadosa restauração da biografia. Se possível, pinta-se também a fachada. E, pelo que pude observar no vídeo enviado pelo meu amigo Eustáquio, em determinadas situações compra-se até um chapéu Panamá para completar a nova arquitetura.

Nosso personagem chegou também a ensaiar uma candidatura por uma legenda situada no vasto território político convencionalmente chamado de Centrão. A aventura eleitoral acabou não avançando. Melhor deixar de lado percentuais que não estão diante dos meus olhos, mas a lembrança que ficou daquele entusiasmo eleitoral comportaria, na linguagem da crônica, uma frota bastante modesta. A Kombi, portanto, pode permanecer na garagem como metáfora, sem necessidade de transformá-la em instituto de pesquisa.

O Panamá, entretanto, continua em cena. Confere uma aparência de serenidade tropical, alguma coisa entre intelectual aposentado, fazendeiro contemplativo e estadista em férias. Sob aquela aba cuidadosamente posicionada, talvez o passado pareça um pouco mais distante. O problema é que a história possui um hábito desagradável: guarda recibos. E, depois da invenção da internet, passou a guardar vídeos, fotografias, discursos e entrevistas que demonstram pouquíssima consideração pelas versões atualizadas de uma biografia.

Foi justamente um vídeo que Eustáquio me enviou. Assisti com atenção e fiquei pensando que o problema nunca esteve em alguém deixar de ser comunista, socialista, liberal, conservador ou qualquer outra coisa terminada em “ista”. Todo cidadão tem o direito de rever suas convicções quantas vezes considerar necessário. A liberdade de pensamento inclui, inclusive, o saudável direito de descobrir que passamos parte da vida defendendo uma enorme bobagem.

O que desperta a ironia é a tentativa de transformar a nova convicção numa espécie de certificado retroativo de pureza ideológica. Não basta reconhecer que mudou; é necessário convencer a plateia de que, misteriosamente, sempre esteve certo, inclusive durante o período em que defendia exatamente o contrário. Nesse momento, deixamos o terreno da conversão política e entramos no sofisticado ramo da restauração de memória.

Memória, entretanto, parece prédio antigo. Pode receber tinta nova, reboco, iluminação moderna e até uma fachada suficientemente elegante para impressionar quem passa pela calçada. Mexer nas fundações é tarefa bem mais complicada, principalmente quando existem testemunhas, documentos e aquele inconveniente arquivo digital que não demonstra qualquer respeito pelas versões mais recentes da história.

Por isso, quando encontro um convertido particularmente inflamado, prefiro não discutir. Determinadas biografias são excelentes debatedoras e dispensam adversários. Basta abrir os arquivos e permitir que o personagem de ontem converse com o personagem de hoje. Dependendo da distância entre os dois, o debate pode ser muito mais divertido do que qualquer comentário que eu pudesse acrescentar.

No caso do personagem apresentado por Eustáquio, confesso que o chapéu Panamá acrescentou charme ao espetáculo. Depois de conhecer melhor sua história, passei até a considerá-lo perfeito para o papel. Um chapéu equatoriano chamado Panamá, consagrado internacionalmente depois de atravessar fronteiras e ganhar outra identidade, pousado sobre a cabeça de um ex-camarada empenhado em apresentar ao mundo sua versão mais recente. Há momentos em que a literatura precisaria fazer enorme esforço para inventar uma coincidência dessas.

Eustáquio Palhares, jornalista experiente, sabe que certos detalhes ajudam a contar uma história. Eu também sei. Por isso não me preocupo muito com o chapéu. Chapéus mudam de cabeça, partidos mudam de aliados, discursos mudam de direção e camaradas também mudam de lado. O passado, porém, tem uma teimosia danada: por mais larga que seja a aba do Panamá, nunca consegue ficar inteiramente debaixo dela.


Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de empresas

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