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Uma farra em Brasília

15/05/2025 00:01
Uma farra em Brasília
Por  Marcelo Rossoni Em um momento em que a população brasileira enfrenta crises econômicas, cortes em áreas sociais e crescente descrença na política, a Câmara dos Deputados decidiu autorizar o aumento de suas próprias cadeiras: de 513 para 531 parlamentares. O projeto, aprovado por 270 votos favoráveis, 207 contrários e uma abstenção, segue agora para análise do Senado Federal. A justificativa oficial para a mudança é a atualização do número de representantes com base nos dados do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo IBGE. A proposta visa redistribuir as vagas segundo o crescimento populacional dos estados, especialmente no Norte e Centro-Oeste. No entanto, por trás da roupagem técnica, o projeto escancara uma prática antiga no Congresso Nacional: legislar em causa própria, ampliando o poder político e a estrutura de cargos, verbas e influência às custas do contribuinte. A sessão que aprovou o projeto foi marcada por tumulto e críticas acaloradas da oposição e até de parte da base governista. Parlamentares apontaram o descompasso entre o que se discute em Brasília e o que realmente importa para o povo. Enquanto escolas sofrem com falta de estrutura, hospitais convivem com escassez de insumos e o desemprego ainda assombra milhões de brasileiros, a elite política parece mais preocupada em garantir novos espaços de poder. O impacto financeiro da medida não é desprezível. Cada novo deputado representa um custo milionário anual, considerando salários, assessores, verbas de gabinete, auxílio-moradia, passagens aéreas e outras benesses. Ao todo, o aumento pode significar mais de R$200 milhões por legislatura, em um país que amarga déficit fiscal e tenta aprovar uma reforma tributária para arrecadar mais. Além disso, o debate revela um problema estrutural da democracia representativa brasileira: a falta de conexão entre representantes e representados. O aumento de cadeiras não resolve a crise de representatividade — pelo contrário, pode agravá-la, criando mais postos de poder sem garantir maior qualidade ou proximidade da atuação parlamentar com os cidadãos. A medida também desperta suspeitas sobre acordos políticos em ano pré-eleitoral. Com a criação de novas vagas, aumentam as chances de os partidos garantirem mais cadeiras via federações e coligações, especialmente nas regiões em que o Bolsonarismo e o Centrão têm forte penetração. Trata-se, portanto, de um reposicionamento estratégico do tabuleiro político, não de um gesto técnico neutro. Agora, caberá ao Senado revisar a proposta. Se os senadores seguirem o mesmo roteiro da Câmara, o projeto pode ser aprovado rapidamente, sem o devido debate público. Por isso, cresce a pressão sobre a sociedade civil e os veículos de comunicação independentes para que pautem o tema com transparência e senso crítico. Em tempos de descrença e polarização, aumentar o número de deputados soa como um deboche institucional. A população espera mais saúde, educação, segurança e emprego — não mais políticos. A aprovação do projeto é um retrato fiel de uma Brasília que parece cada vez mais distante da realidade do povo.   Marcelo Rossoni é jornalista  
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