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Um escândalo se esconde criando outro maior

31/05/2026 08:14
Um escândalo se esconde criando outro maior

Por Marcelo Rossoni

Diz uma velha lenda da política — e das redações também — que nenhum escândalo é tão grande que não possa ser escondido por outro maior.

Não se sabe quem inventou a fórmula. Talvez algum governante em apuros. Talvez algum assessor de imprensa desesperado. Talvez um marqueteiro experiente. Ou talvez apenas alguém que observou atentamente o comportamento humano e concluiu que a atenção pública tem prazo de validade menor que iogurte em promoção.

Os americanos conhecem bem esse fenômeno.

Em março de 1968, soldados dos Estados Unidos entraram na aldeia vietnamita de Mỹ Lai e deixaram para trás um dos capítulos mais vergonhosos da Guerra do Vietnã. Centenas de civis morreram massacrados. Mulheres, idosos e crianças. O episódio — que poderia ser classificado como um ato de terrorismo — foi tão constrangedor para o governo americano que permaneceu oculto durante quase vinte meses.

Mas quando a história finalmente veio à tona, em novembro de 1969, a opinião pública já estava hipnotizada por outro horror.

O caso Charles Manson.

Os mais jovens talvez nem reconheçam o nome. Houve um tempo, porém, em que Charles Manson ocupava as manchetes americanas com a mesma intensidade que certos políticos, celebridades, pastores evangélicos e influenciadores ocupam hoje as redes sociais. Líder de uma seita delirante, convenceu seguidores a cometer assassinatos brutais, entre eles o da atriz Sharon Tate, esposa do cineasta Roman Polanski.

A imprensa mergulhou de cabeça naquela história.

Era compreensível. Charles Manson vendia jornais. Produzia audiência. Despertava fascínio e repulsa ao mesmo tempo. Sob o ponto de vista jornalístico, era muito mais fácil transformar aquele pesadelo em manchete diária do que explicar uma guerra distante travada numa selva do outro lado do planeta.

Em 1971, o simbolismo atingiu seu ponto máximo. Enquanto Manson era condenado pelos assassinatos que chocaram a Califórnia, o tenente William Calley era considerado culpado pelo massacre de Mỹ Lai.

Os dois casos disputavam espaço nos jornais.

De um lado, a barbárie privada.

Do outro, a barbárie praticada sob o manto do Estado.

Um escândalo competia com outro escândalo.

Passaram-se mais de cinquenta anos e continuo convencido de que esse mecanismo permanece em pleno funcionamento.

Mudaram os personagens.

Mudaram os jornais.

Mudaram as tecnologias.

A natureza humana, contudo, continua surpreendentemente parecida.

Nos últimos tempos, parte do debate político brasileiro vinha sendo ocupada por discussões envolvendo o Banco Master, seu controlador, Daniel Vorcaro e, entre outras tramoias, o financiamento do filme Dark Horse, um projeto cinematográfico produzido para enaltecer a figura do ex-presidente e atual presidiário Jair Messias Bolsonaro (PL), que despertou intensa curiosidade nos meios políticos e jornalísticos.

Não era exatamente um tema confortável.

Falava-se que o valor previsto para a operação seria de R$134 milhões. Porém, segundo informações divulgadas pela imprensa, Daniel Vorcaro teria repassado apenas cerca de R$61 milhões. O senador Flávio Bolsonaro (PL), segundo o audio vazado e divulgado amplamente pela imprensa, cobrou de Daniel Vorcaro o restante da promessa, porém sem qualquer êxito.

Falava-se em financiamentos.

Falava-se em relações de influência.

E o dinheiro costuma produzir um efeito curioso. Quanto mais perto se chega dos números, mais rapidamente desaparecem os discursos grandiosos e surgem perguntas concretas.

Foi então que outro assunto passou a dominar o noticiário.

Um tema carregado de emoção.

Capaz de mobilizar medos e produzir manchetes instantâneas. Em poucas horas, a atenção pública parecia ter mudado de endereço.

De repente, o debate deixou de girar em torno de contratos, financiamentos e cifras.

O foco passou a ser segurança, geopolítica e criminalidade organizada.

E poucos assuntos conseguem capturar a imaginação popular com tanta rapidez quanto aqueles que envolvem ameaças, violência e riscos à ordem pública.

Nesse contexto, ganhou enorme repercussão a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as facções Comando Vermelho e PCC como organizações terroristas, medida que contou com forte apoio político de setores ligados à direita.

O senador Flávio Bolsonaro (PL) foi aos Estados Unidos e participou de encontros e articulações em defesa dessa classificação junto ao presidente estadunidense Donald Trump. A mensagem era simples: as facções criminosas brasileiras deixaram de ser apenas um problema policial e deveriam ser tratadas como uma ameaça de caráter internacional.

A repercussão foi imediata.

Em poucas horas, rádios, emissoras de televisão, jornais, portais de notícias e redes sociais passaram a concentrar suas atenções no novo tema.

O debate sobre o financiamento do filme Dark Horse perdeu espaço.

As discussões sobre cifras, contratos e transferências financeiras deixaram de ocupar o centro do palco.

O foco passou a ser segurança pública, geopolítica e criminalidade organizada.

Talvez porque esses assuntos mexam com algo muito básico.

O medo.

Não afirmo possuir provas de qualquer coordenação oculta. Não sou adepto de teorias conspiratórias. A vida real costuma ser muito mais desorganizada do que imaginam aqueles que enxergam conspirações em cada esquina.

Mas aprendi, depois de décadas observando a política e o noticiário, que coincidências excessivamente convenientes costumam merecer, no mínimo, alguma reflexão.

Enquanto os holofotes se voltaram para os novos temas, outros assuntos desapareceram silenciosamente do centro do palco.

Acontece com frequência.

Aliás, não apenas no Brasil.

Governos, partidos, corporações e grupos de interesse aprenderam há muito tempo que o medo é uma das ferramentas mais eficientes para direcionar a atenção pública.

E aqui surge uma pergunta que talvez incomode.

Estamos diante de problemas reais ou de narrativas ampliadas até assumirem proporções quase míticas?

Antes que algum leitor mais apressado se irrite, convém esclarecer: a criminalidade existe. Produz vítimas, gera prejuízos e alimenta violência. Não há discussão séria a respeito disso.

O que merece debate é outra questão.

A dimensão quase lendária que certos fenômenos adquirem quando passam pelo filtro da política, da propaganda e da cobertura midiática.

Em determinados discursos, parece que existem forças capazes de controlar presídios, bairros, fronteiras, mercados e praticamente qualquer aspecto da vida nacional.

Enquanto isso, reportagens sobre supostos impérios bilionários frequentemente mostram imóveis modestos, ruas comuns, construções sem qualquer sinal de luxo extraordinário e patrimônios que nem sempre combinam com a grandiosidade das narrativas.

Mas a televisão sempre soube trabalhar com enquadramentos.

Dependendo do ângulo da câmera, uma piscina comum vira um resort.

Dependendo da narração, um sobrado mal-acabado transforma-se numa fortaleza.

É o marketing do medo.

E o medo, como qualquer produto de alta demanda, possui enorme valor político, econômico e eleitoral.

No fim das contas, a velha lenda continua respirando.

Não porque exista uma sala secreta onde poderosos se reúnam para decidir o que será manchete na manhã seguinte. A vida real costuma ser muito menos cinematográfica do que isso.

Mas porque a dinâmica da atenção pública funciona dessa maneira. Sempre funcionou.

Quando um tema desperta medo, indignação ou fascínio, ele tende a empurrar outros assuntos para a lateral do palco.

Nem sempre sobrevivem os temas mais importantes.

Muitas vezes sobrevivem apenas os mais ruidosos.

Aconteceu durante guerras.

Aconteceu durante crises políticas.

Aconteceu durante escândalos financeiros.

E provavelmente continuará acontecendo enquanto houver jornais, televisão, redes sociais e seres humanos sujeitos às mesmas emoções de sempre.

Talvez por isso a pergunta mais importante não seja aquela estampada na manchete principal.

Talvez a pergunta realmente importante seja outra:

O que deixou de ser notícia enquanto todos estavam olhando para cá?

Nem sempre a resposta é confortável.

Mas quase sempre vale a pena procurá-la.


Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas.


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