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Um caldeirão ideológico

04/02/2026 14:53
Um caldeirão ideológico

Por Marcelo Rossoni

A história dos partidos políticos brasileiros não é uma linha reta, mas um emaranhado de atalhos, retornos e mudanças de fachada. No Brasil, legendas raramente desaparecem quando envelhecem ou perdem sentido histórico. O caminho mais comum é outro: trocar de nome, ajustar o discurso, reorganizar alianças e reaparecer no cenário político como se a biografia anterior fosse apenas um detalhe técnico, daqueles que não cabem no material de campanha. Trata-se menos de esquecimento e mais de método. O sistema partidário brasileiro aprendeu, ao longo das décadas, que sobreviver é quase sempre mais importante do que permanecer fiel a uma identidade original.

Desde a redemocratização, o país construiu um dos sistemas partidários mais fragmentados do mundo. São dezenas de siglas registradas, muitas delas com pouca expressão eleitoral, mas todas aptas a disputar poder, tempo de televisão e recursos públicos. Algumas nasceram como projetos ideológicos consistentes, ancorados em movimentos sociais, sindicatos ou correntes de pensamento bem definidas. Outras surgiram de dissidências pontuais, rearranjos parlamentares ou simples conveniências eleitorais. Com o tempo, porém, a maioria acabou convergindo para uma mesma lógica: a da adaptação contínua às circunstâncias.

Essa fluidez ideológica não é um acidente institucional. Ela reflete uma cultura política marcada por conciliações frequentes, acordos de bastidores e soluções intermediárias. A política brasileira raramente foi terreno de rupturas duradouras. Mesmo nos momentos de maior tensão, prevaleceu o ajuste. Os partidos internalizaram esse comportamento. Mudaram de orientação sem grandes traumas, atravessaram regimes distintos e passaram a conviver com contradições que, em outros países, seriam suficientes para decretar seu fim.

É nesse pano de fundo que se insere a trajetória das principais legendas brasileiras.

PT (Partido dos Trabalhadores)

Fundado em 1980, o PT nasceu como promessa de ruptura, reunindo sindicatos, movimentos sociais, intelectuais e setores progressistas da Igreja. Apresentava-se como alternativa ética e programática ao sistema político tradicional. Ao chegar ao poder, passou por um processo acelerado de institucionalização, incorporando práticas que antes criticava. Tornou-se, com o tempo, um dos pilares centrais do sistema que prometia transformar — não por desvio ocasional, mas por necessidade política.

PCdoB (Partido Comunista do Brasil)

Criado em 1962, como dissidência do antigo PCB, o PCdoB atravessou a clandestinidade, a ditadura militar e o fim do socialismo soviético. Ajustou-se à democracia representativa sem abdicar do discurso histórico. Hoje, atua como aliado constante da esquerda governista, equilibrando ideologia e pragmatismo com disciplina rara no cenário brasileiro.

PSOL (Partido Socialismo e Liberdade)

Fundado em 2004, após a expulsão de parlamentares do PT contrários às reformas do governo Lula, o PSOL construiu sua identidade na crítica ao pragmatismo da esquerda tradicional. Defende pautas progressistas com rigor retórico e enfrenta o dilema clássico da política brasileira: como crescer sem diluir o discurso que o define.

PDT (Partido Democrático Trabalhista)

Criado em 1979 por Leonel Brizola, o PDT reivindica a herança do trabalhismo de Getúlio Vargas e João Goulart. Manteve o discurso nacional-desenvolvimentista e a defesa do Estado forte, mas perdeu protagonismo nacional ao longo do tempo. Hoje, sustenta-se sobretudo pela força da memória histórica e por lideranças regionais.

Cidadania (ex-PCB / PPS)

Poucos partidos ilustram tão bem a metamorfose política brasileira. Fundado em 1922 como Partido Comunista, virou PPS nos anos 1990 e, mais recentemente, adotou o nome Cidadania. Abandonou o marxismo, aproximou-se da social-democracia e hoje se define como liberal-progressista. A identidade mudou; a vocação para se adaptar permaneceu. Hoje está no Centrão!

MDB (Movimento Democrático Brasileiro)

Criado em 1966, durante a ditadura, como oposição permitida ao regime, o MDB tornou-se especialista em sobrevivência política. Participou de quase todos os governos desde a redemocratização. Não opera por rupturas, mas por capilaridade e previsibilidade. Mais do que disputar o poder, aprendeu a orbitá-lo com eficiência.

PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira)

Fundado em 1988, a partir de uma dissidência do MDB, o PSDB surgiu com discurso social-democrata e liderou reformas liberais nos anos 1990. Durante anos, ocupou o centro do debate político. Hoje, enfrenta uma crise de identidade prolongada, entre a relevância histórica e a dificuldade de se reposicionar.

PSD (Partido Social Democrático)

Fundado em 2011, o PSD surgiu sem grandes ambições doutrinárias. Apostou na força de lideranças regionais e na redução de conflitos ideológicos. Transformou a neutralidade programática em ativo político, num país em que a governabilidade costuma valer mais do que convicções.

PP (Progressistas)

O atual Partido Progressistas (PP) é resultado de uma longa sequência de adaptações que acompanham a própria transição política brasileira. Suas origens remontam à Aliança Renovadora Nacional (Arena), criada em 1965 como partido de sustentação do regime militar. Com o início da abertura política, a Arena foi sucedida pelo Partido Democrático Social (PDS), que buscou dar aparência civil e democrática à antiga base governista. Nos anos seguintes, novas reconfigurações tentaram afastar progressivamente a legenda do passado autoritário: surgiu o Partido Progressista Reformador (PPR), depois o Partido Progressista Brasileiro (PPB), até que a sigla fosse finalmente consolidada como Partido Progressistas.

Ao longo desse percurso, as mudanças de nome funcionaram menos como rupturas programáticas e mais como ajustes simbólicos. Cada nova sigla marcou uma tentativa de reposicionamento, sem que houvesse uma revisão explícita das origens políticas. O fio condutor permaneceu o mesmo: adaptação às circunstâncias, preservação de espaço institucional e proximidade com o poder. Dessa trajetória contínua, o PP emergiu como uma das legendas mais experientes do sistema partidário brasileiro, exemplar na arte de sobreviver às mudanças de regime sem sair de cena.

PL (Partido Liberal)

Criado em 1985, o PL passou décadas como legenda periférica até se tornar o principal abrigo do bolsonarismo. Cresceu rapidamente ao acolher um movimento político de massa, sem precisar construir um projeto ideológico sofisticado. Sua trajetória recente mostra como o contexto pode redefinir partidos da noite para o dia.

União Brasil

Resultado da fusão entre DEM e PSL, em 2021, o União Brasil é produto típico da engenharia eleitoral contemporânea. Reúne correntes diversas sob o mesmo teto, unificadas menos por afinidade ideológica do que pela busca de competitividade.

Republicanos

Fundado em 2005, com forte ligação inicial a setores evangélicos, o Republicanos consolidou-se como força do conservadorismo institucional. Profissionalizou sua atuação e tornou-se ator relevante no Congresso, articulando discurso moral e estratégia política.

PV (Partido Verde)

Criado em 1986, inspirado nos verdes europeus, o PV alternou momentos de protagonismo temático com longos períodos de pragmatismo eleitoral. Tornou-se hábil em alianças, mesmo quando distantes do ecologismo original, demonstrando que até a pauta ambiental aprendia a negociar.

Rede Sustentabilidade (Rede)

Fundada em 2013 por Marina Silva, a Rede surgiu como promessa de renovação ética e política. Apesar do discurso contemporâneo, enfrenta dificuldades crônicas de consolidação eleitoral. É o partido do “quase”: quase novo, quase grande, quase decisivo.

Podemos
Criado em 1995 como PTN e rebatizado em 2017, o Podemos incorporou um discurso de participação cidadã e renovação política. A mudança estética foi mais veloz que a programática. Hoje, atua como legenda de centro pragmático.

Solidariedade

Fundado em 2013 a partir de setores do sindicalismo, especialmente ligados à Força Sindical, o Solidariedade nasceu com discurso trabalhista, mas rapidamente se integrou à lógica do centrão, priorizando a sobrevivência institucional.

Avante
Criado em 1989 como PTdoB e rebatizado em 2017, o Avante é exemplo de legenda funcional, com baixa densidade ideológica e forte atuação regional, voltada à negociação política.

Novo

Fundado em 2011, o Novo apresentou-se como partido liberal e anti política, defendendo Estado mínimo e gestão empresarial. Ao alcançar cargos executivos, descobriu que governar exige negociação — inclusive com aquilo que antes condenava.

No conjunto, o sistema partidário brasileiro revela menos desorganização do que método. Partidos mudam porque podem, sobrevivem porque se adaptam e prosperam porque aprenderam que, neste país, a coerência é um valor respeitável — mas raramente indispensável. A política brasileira, afinal, não costuma recomeçar: ela apenas muda de sigla e segue em frente.


Marcelo Rossoni é jornalista

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