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Três homens em conflito 

11/08/2025 00:03
Três homens em conflito 
*Por Marcelo RossoniNa clássica obra de Sergio Leone, Três Homens em Conflito (1966), três pistoleiros — o Bom, o Mau e o Feio — percorrem um Velho Oeste devastado pela Guerra Civil Americana em busca de um tesouro enterrado em um cemitério. Compondo uma trindade amoral, cada um representa um aspecto da natureza humana: a frieza calculista, a esperteza oportunista e a aparente virtude que esconde seus próprios interesses. Avançam por entre cadáveres, traições e promessas quebradas, guiados não pela honra, mas pela ambição.Corte para o Espírito Santo, ano de 2025. Três homens — Ricardo Ferraço, Arnaldinho Borgo e Lorenzo Pazolini — também disputam um "tesouro": o governo do Estado. E embora não estejam em um western spaghetti, tampouco o cenário é menos árido. Como no filme, a guerra já começou muito antes do duelo final. A disputa se dá em cidades até então esquecidas, alianças oportunistas e promessas enterradas, que agora são desenterradas como se fossem pepitas de ouro.O “Bom” — Ferraço, com sua postura sóbria e discurso técnico, representa o homem da razão, da experiência, da institucionalidade. Como Clint Eastwood, fala pouco, age com cálculo e se move como quem já conhece os atalhos do deserto. Não saca a pistola à toa, mas é letal quando decide agir. Trabalha nos bastidores, longe dos holofotes, cultivando alianças silenciosas com os donos dos mapas — prefeitos, empresários e líderes de partido.O “Mau” — Arnaldinho , por sua vez, é o mais imprevisível. Como o personagem de Eli Wallach, ele transita entre a malandragem e o carisma, usando a esperteza como principal arma. Se Pazolini tem guias e Ferraço tem currículo, Arnaldinho tem faro — e sabe como se infiltrar nos redutos eleitorais com cafezinho no balcão, fotos espontâneas e discurso de "homem comum que faz a máquina funcionar". É o outsider urbano que quer se passar por caipira, vestindo camisa quadriculada em Mimoso do Sul e prometendo internet rural em Ibatiba. Pode parecer desajeitado, mas é exatamente disso que tira vantagem.O “Feio” — Pazolini, ex-delegado da Polícia Civil, prefeito de Vitória, político de atitudes republicanas, não veste preto como Lee Van Cleef, mas carrega consigo dois guias experientes: Evair de Melo e Erick Musso, que conhecem cada viela da política do Espírito Santo, aposta na eficiência da máquina, na segurança pública como bandeira e na imagem de gestor implacável. Sua caravana pelo interior lembra as cenas longas de Leone: lentas, meticulosas, tensas. E a trilha sonora, nesse caso, é a retórica afiada, vendendo soluções para o campo como se falasse da orla da Praia do Canto.No filme, os três pistoleiros acabam frente a frente no cemitério, onde o ouro está enterrado sob um túmulo marcado apenas por um nome. No Espírito Santo, o duelo também se encaminha para um embate final. Só que aqui, o "ouro" não está sob a terra, mas sob a faixa de governador: visibilidade nacional, poder de articulação e, claro, a caneta que distribui cargos, etc...Como no western de Leone, nenhum dos personagens é inocente. Não há mocinho. Apenas estilos distintos de ambição. E todos sabem que, no fim das contas, o eleitorado — esse campo minado de esperança e ceticismo — é quem vai escolher quem leva o ouro, quem leva chumbo e quem cava o próprio buraco.

  *Marcelo Rossoni é jornalista  

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