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Trabalhar menos, produzir mais, é uma curiosa característica das economias mais ricas

16/03/2026 07:36
Trabalhar menos, produzir mais, é uma curiosa característica das economias mais ricas

Por Marcelo Rossoni

Existe uma crença relativamente comum em países em desenvolvimento segundo a qual o progresso econômico seria consequência direta do número de horas trabalhadas. Em outras palavras, quanto mais tempo as pessoas passam no emprego, maior seria a riqueza produzida pela sociedade.

A ideia parece lógica à primeira vista. Mas basta observar o funcionamento das economias mais prósperas do planeta para perceber que a realidade segue outro caminho.

Nas nações com maior renda e produtividade, a jornada semanal de trabalho costuma ficar abaixo de 40 horas — em alguns casos, de forma bastante significativa.

A França é um exemplo clássico. O país estabeleceu há mais de vinte anos a jornada legal de 35 horas semanais. Mesmo assim, a economia francesa permanece entre as maiores da Europa. O salário médio mensal no país gira em torno de €3.300,00 algo próximo de R$18 mil em valores convertidos. A carga tributária francesa situa-se perto de 45% do Produto Interno Bruto.

Na Alemanha, principal potência industrial do continente europeu, a jornada média costuma variar entre 34 e 36 horas semanais. O trabalhador alemão recebe, em média, cerca de €4.200,00 por mês, equivalente a aproximadamente R$23 mil. A carga tributária no país gira em torno de 38% do PIB.

A Holanda, hoje identificada oficialmente como Países Baixos,  apresenta um dos modelos mais equilibrados entre vida profissional e vida pessoal. A jornada média de trabalho situa-se entre 32 e 36 horas semanais. Ainda assim, a renda média mensal ultrapassa €3.800,00 o que corresponde a algo próximo de R$21 mil. A carga tributária holandesa está na faixa de 39% do PIB.

Nos países nórdicos o padrão se repete.

Na Dinamarca, a jornada semanal média gira em torno de 37 horas, enquanto a renda mensal média alcança aproximadamente €5.000,00 cerca de R$27 mil. A carga tributária total chega a aproximadamente 46% da economia nacional.

A Suécia mantém jornada semelhante, entre 36 e 37 horas semanais, com renda média mensal próxima de €4.400,00 cerca de R$24 mil. A carga tributária situa-se ao redor de 42% do PIB.

Já a Noruega, uma das economias mais ricas do planeta, registra jornada média de aproximadamente 37,5 horas semanais. O salário médio mensal ultrapassa €5.500,00 equivalente a algo em torno de R$30 mil, enquanto a carga tributária gira perto de 44% do PIB.

Esses números revelam um padrão bastante claro. As economias mais avançadas não dependem de jornadas extensas para gerar riqueza. O fator decisivo é a produtividade do trabalho — a capacidade de produzir mais valor em menos tempo.

Enquanto isso, no Brasil, a jornada legal de trabalho permanece em 44 horas semanais, uma das mais altas entre economias relevantes.

Curiosamente, quando muitos brasileiros decidem tentar a vida no exterior, acabam escolhendo Portugal como destino. Economistas frequentemente classificam Portugal como parte da periferia econômica da Europa — expressão utilizada para identificar países com menor renda média e menor dinamismo econômico dentro do continente.

A escolha dos brasileiros, na maioria das vezes, não é econômica, mas linguística.

Sem dominar inglês, alemão ou francês, milhares de brasileiros encontram em Portugal a porta de entrada mais acessível para a Europa. O problema é que os salários portugueses estão entre os mais baixos da Europa Ocidental.

A jornada legal de trabalho em Portugal é de 40 horas semanais e o rendimento médio mensal gira em torno de €1.300,00 algo próximo de R$7 mil em valores convertidos.

Assim, enquanto países como Alemanha, Holanda ou Dinamarca combinam jornadas menores e remunerações muito mais elevadas, boa parte dos trabalhadores imigrantes acaba concentrada justamente em uma das economias de renda mais modesta da Europa Ocidental.

Talvez exista aqui uma pequena lição econômica.

Nas sociedades mais prósperas do planeta, a riqueza não surge do simples prolongamento da jornada de trabalho. Ela nasce da capacidade de produzir mais valor em cada hora dedicada ao trabalho.

Trabalha-se menos.

Produz-se mais.

E, no processo, sobra algo que muitas economias ainda tentam conquistar: tempo para viver. 


Marcelo Rossoni é jornalista



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