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TCU entra na avenida e questiona uso de verba da Embratur por escola de samba

06/02/2026 07:49
TCU entra na avenida e questiona uso de verba da Embratur por escola de samba

Por Marcelo Rossoni

Um documento elaborado por um grupo de técnicos do Tribunal de Contas da União (TCU) lançou uma controvérsia que rapidamente extrapolou os limites da técnica e passou a ocupar o terreno da disputa política. O texto questiona o uso, pela escola de samba Acadêmicos de Niterói, de recursos repassados pela Embratur à liga responsável pelo desfile das escolas do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro. O valor total, R$12 milhões, foi distribuído igualmente entre as 12 agremiações, R$1 milhão para cada uma, sob a justificativa formal de promoção do turismo internacional.

O raciocínio técnico que embasa o questionamento é conhecido: ao chegar às escolas de samba, o recurso público deixaria de cumprir finalidade turística e passaria a financiar atividades privadas típicas do desfile, caracterizando possível desvio de finalidade. Isoladamente, o argumento não é absurdo. Recursos públicos exigem finalidade definida, controle e prestação de contas. O problema surge quando esse enquadramento ignora elementos centrais da própria realidade que pretende fiscalizar.

Não houve repasse direto à escola de samba, mas à entidade organizadora do evento, que posteriormente rateou os valores entre os participantes. Do ponto de vista jurídico-administrativo, essa distinção é relevante. Se o Estado financia um grande evento cultural com impacto turístico, a execução necessariamente passa por agentes privados. O Carnaval carioca funciona assim há décadas, com aportes recorrentes de recursos públicos municipais, estaduais e federais, sempre sob as mesmas justificativas: cultura, economia criativa, geração de empregos temporários e visibilidade internacional do país.

A fragilidade, reconhecida inclusive nos bastidores do próprio governo, está menos na execução artística e mais no desenho institucional adotado pela Embratur. Faltaram cláusulas objetivas de contrapartida, métricas de exposição internacional, indicadores claros de retorno turístico e instrumentos mais precisos de monitoramento. Trata-se de um problema de política pública mal formatada, não de desvio evidente na ponta.

Ao deslocar o foco para uma escola específica, o tecnicismo escolhe um alvo conveniente. É mais simples apontar o dedo para quem desfila do que revisitar o modelo de financiamento cultural do Estado brasileiro. O risco é transformar controle em espetáculo e fragilizar a própria credibilidade da fiscalização.

Nos bastidores, a leitura é direta. Integrantes do governo admitem, reservadamente, que o debate ganhou tração quando o conteúdo do enredo veio à tona. Parlamentares de oposição passaram a tratar o samba como se fosse peça de propaganda oficial, ignorando deliberadamente que o Carnaval sempre foi atravessado por política, memória histórica e disputa simbólica, inclusive quando financiado por governos de orientação ideológica distinta.

Dentro do próprio TCU há divergências. Técnicos mais experientes reconhecem que o tema é híbrido, sensível e historicamente tolerado. Outros defendem a necessidade de impor limites mais rígidos. O problema surge quando esse rigor aparece de forma seletiva, reagindo menos à planilha e mais ao conteúdo que ela ajudou a viabilizar.

A letra do samba Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil não deixa margem para interpretações condescendentes. Ao perguntar “quanto custa a fome, quanto importa a vida” e afirmar que “nosso sobrenome é Brasil da Silva”, o enredo assume lado, classe e narrativa social. A trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva é contada sem eufemismos, da pobreza em Garanhuns à projeção internacional, passando pela migração, pela luta sindical e pelo exercício do poder. As referências a Zuzu Angel, Henfil, Vladimir Herzog e Rubens Paiva não são ornamentos culturais: são escolhas políticas conscientes.

Nada disso é novidade. O samba sempre falou de fome, desigualdade, autoritarismo, exclusão e poder. O Estado brasileiro sempre soube disso ao financiar a festa. Exigir neutralidade agora é exigir algo que nunca existiu. A surpresa seletiva revela menos zelo jurídico e mais desconforto ideológico.

Num país em que a maioria da população é analfabeta funcional, a confusão entre leitura e interpretação tornou-se instrumento político recorrente. O samba não desvirtua a finalidade do recurso; ele explicita a natureza do Carnaval como espaço de disputa simbólica. Quando o controle ignora essa evidência, deixa de aperfeiçoar a política pública e passa a flertar com censura indireta, ainda que travestida de linguagem técnica.

Fiscalizar é necessário. Reescrever a história cultural do país a partir de um incômodo momentâneo não é. O problema revelado por esse episódio não está no desfile nem na letra do samba. Está na dificuldade institucional de lidar com o fato de que cultura, quando viva, incomoda.

Se o Lula Quatro vem aí ou não, isso não será decidido por nota técnica, parecer preliminar ou indignação seletiva. Em democracia, quem arbitra esse jogo é o eleitor. E o apito final está marcado: 4 de outubro.


Marcelo Rossoni é jornalista


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