Por Marcelo Rossoni
A crise da Apex Partners conseguiu uma façanha que talvez nem seus mais criativos executivos tivessem previsto: deixou as salas de reunião, atravessou o mercado financeiro e chegou com força à campanha eleitoral capixaba.
Agora há de tudo. Um lado acusa, o outro se explica; quem se explica aproveita para atacar e quem ataca responde exibindo novos documentos. Atas de reuniões são publicadas nas redes sociais, certidões da Junta Comercial aparecem como troféus e alterações societárias ganharam uma popularidade que jamais imaginaram possuir.
O debate já desembarcou na Assembleia Legislativa, onde há deputados tentando colocar a crise no colo de Renato Casagrande e Ricardo Ferraço e outros empenhados em fazer exatamente o movimento contrário. Se não houvesse investidores, credores e muito dinheiro no meio dessa confusão, seria possível acompanhar o espetáculo com um balde de pipoca.
Até vereador de Vitória resolveu entrar em cena. Com a bandeira nacional sobre os ombros e a indignação devidamente preparada para as câmeras, foi para a frente do prédio da Apex discursar. A imagem é quase uma síntese deste momento: uma crise empresarial complexa, envolvendo fundos, participações societárias, mercado de capitais, governança e decisões financeiras, transformada em cenário para pronunciamento político.
A porta de uma empresa privada virou palanque, a bandeira entrou como figurino e as redes sociais cuidaram do restante. No ritmo em que as coisas caminham, falta apenas instalar um carro de som diante do edifício e organizar a escala dos oradores.
O interessante, por enquanto, é observar como a crise da Apex produziu uma espécie de campeonato de indignação, no qual cada participante procura uma posição diante das câmeras e um adversário a quem entregar a conta.
A história da Apex começou de maneira muito diferente. Durante anos, a empresa foi apresentada como uma das grandes histórias de sucesso do mercado financeiro capixaba. Jovens empresários, muitos deles pertencentes a famílias conhecidas e economicamente bem-sucedidas do Espírito Santo, reuniram capital, experiência, relacionamentos e ambição para construir algo maior.
Traduzindo para uma linguagem menos cerimoniosa, os riquinhos capixabas juntaram seus cofrinhos e descobriram que, somados, formavam um cofre bastante respeitável. A fórmula funcionou e, durante algum tempo, funcionou muito bem. A empresa cresceu, ganhou prestígio, estruturou operações, administrou recursos, adquiriu participações e passou a frequentar ambientes empresariais muito maiores do que aquele confortável círculo regional onde quase todo mundo conhece todo mundo.
Em algum momento, porém, a brincadeira ficou mais sofisticada. Vieram operações e investimentos que exigem muito mais do que bons relacionamentos, sobrenomes conhecidos e apresentações impecáveis. Bolsa de Valores não é lugar para principiantes. É ambiente para quem conhece risco, possui disciplina, tem estômago para suportar perdas e, principalmente, entende que o mercado não se curva à vontade dos seus participantes.
Uma ação pode valer dez hoje, seis amanhã e talvez volte a doze algum dia — ou nunca mais. O mercado possui uma característica especialmente democrática nesses momentos: não reconhece pedigree, amizade familiar nem influência política. Quando a cotação cai, sobrenome tradicional não convence o pregão a reconsiderar por educação.
É justamente nesse ponto que deveria estar concentrada a investigação. Quem tomou as decisões que agora estão sendo questionadas? Quem analisou os riscos? Quem autorizou as operações? Quem tinha poder para impedir? Quais eram os mecanismos de controle? Os conselhos receberam todas as informações necessárias? Houve alertas e, se houve, foram ignorados? Quem conhecia a real situação financeira da companhia e desde quando?
Essas perguntas podem produzir respostas incômodas e eventualmente identificar responsáveis. Descobrir quem é filho, irmão, amigo, sócio ou antigo colaborador de quem é tarefa infinitamente mais fácil, sobretudo num Estado relativamente pequeno como o Espírito Santo. O problema é que isso não explica necessariamente quem tomou as decisões que conduziram a empresa até a crise.
É nesse ambiente que aparecem Victor Casagrande e Pedro Ferraço. Seus vínculos societários com a Apex são informações relevantes e devem ser publicados. Ninguém deveria escondê-los, muito menos o jornalismo. Victor e Pedro são adultos, profissionais e devem responder pelos atos que eventualmente tenham praticado dentro da empresa, exatamente como qualquer executivo, administrador, conselheiro ou acionista.
Se participaram das operações hoje questionadas, apresentem-se os documentos. Se votaram ou aprovaram determinada decisão, mostrem-se as atas. Se tinham conhecimento de inconsistências e se omitiram, investigue-se. Se exerceram influência sobre operações que contribuíram para a crise, demonstre-se.
O problema começa quando se pula essa etapa trabalhosa e se chega diretamente aos pais.
Renato Casagrande e Ricardo Ferraço são homens públicos e não possuem salvo-conduto contra investigação. Se surgir qualquer documento demonstrando que utilizaram suas posições para beneficiar a Apex, facilitar negócios, abrir portas indevidas ou interferir em decisões relacionadas à empresa, que sejam investigados até a última página e que a notícia seja publicada com todas as letras.
Mas, enquanto isso não existir, transformá-los em personagens centrais do escândalo simplesmente porque seus filhos possuem vínculos com a companhia significa trocar investigação por genealogia. Paternidade não constitui sociedade empresarial, sobrenome não equivale a assinatura em contrato e responsabilidade financeira, pelo menos até onde chegaram os conhecimentos da genética, não é transmitida por herança familiar.
A comparação com outro personagem ajuda a demonstrar como esse método pode produzir conclusões convenientes. Arilton Teixeira, economista-chefe da Apex Partners, é irmão de Aridelmo Teixeira, fundador da Fucape Business School, uma das mais conceituadas escolas de negócios do país. Existe ainda um vínculo empresarial relevante entre os dois ambientes: a Apex adquiriu uma participação societária na Fucape, uma grife do ensino executivo criada por Aridelmo Teixeira.
Trata-se de uma operação legítima, pública e perfeitamente compatível com a dinâmica do mercado. Não há qualquer irregularidade conhecida nem no negócio, nem no parentesco entre ambos. O registro é importante apenas porque ajuda a demonstrar o risco de se transformar relações familiares e empresariais em atalhos para conclusões políticas.
Se adotarmos a mesma lógica utilizada por alguns adversários de Casagrande e Ferraço, a narrativa poderia ser construída da seguinte forma: Arilton está na Apex; Arilton é irmão de Aridelmo; Aridelmo fundou a Fucape, que teve uma participação adquirida pela própria Apex; Aridelmo também exerceu papel relevante na administração de Lorenzo Pazolini. A partir daí, bastaria ignorar a ausência de provas e concluir que o prefeito de Vitória deveria dar explicações sobre a crise financeira da gestora.
Evidentemente, seria uma conclusão tão cômoda quanto absurda.
Não há razão para fazer isso. Seria injusto colocar Pazolini no mesmo cesto apenas porque alguém ligado à sua administração possui um irmão profissionalmente vinculado à Apex. E se essa lógica é inadequada para atingir Pazolini, também não deveria servir para atingir Casagrande ou Ferraço.
Jornalismo não pode trocar investigação por genealogia. A política, especialmente em período eleitoral, costuma enxergar vantagens nesse tipo de exercício. Mas a função da imprensa é justamente a oposta: separar fatos de insinuações, documentos de versões e provas de narrativas.
O Espírito Santo possui um ambiente empresarial relativamente pequeno. Empresários convivem com políticos, executivos circulam entre empresas, sociedades surgem e se desfazem, famílias tradicionais mantêm relações há décadas. Em algum momento, quase todos acabam aparecendo na mesma fotografia.
Se parentesco, amizade ou proximidade profissional passarem a ser critérios suficientes para estabelecer culpa, bastará desenhar uma árvore genealógica para transformar metade da elite econômica e política capixaba em suspeita. Talvez falte parede na Assembleia Legislativa para pendurar o gráfico.
A auditoria e as investigações em curso provavelmente produzirão respostas mais sólidas do que os discursos inflamados das redes sociais. Elas poderão indicar quem tomou decisões, quem autorizou operações, quem conhecia os riscos e quem eventualmente se beneficiou delas. Quando isso acontecer, será legítimo apontar responsabilidades, independentemente do sobrenome, do cargo ou da influência política de cada envolvido.
Até lá, convém lembrar uma verdade simples: a Apex tem problemas suficientemente grandes para dispensar personagens fabricados. Há investidores preocupados com seus recursos, credores aguardando respostas e uma empresa obrigada a explicar como saiu da condição de símbolo do mercado financeiro capixaba para protagonista de uma das maiores crises empresariais recentes do Estado.
Saber quem é pai, filho, irmão, amigo ou ex-colaborador de quem pode render manchetes, vídeos, discursos e curtidas. A pergunta que realmente interessa continua sendo outra: quem tomou as decisões que levaram a Apex até aqui?
Quando essa resposta surgir amparada por documentos, teremos fatos. E fatos, diferentemente dos discursos eleitorais, não votam, não fazem campanha e não escolhem sobrenomes. Apenas revelam responsabilidades.
Até lá, certidões podem virar troféus, parentescos podem alimentar discursos e fotografias podem ser usadas como prova daquilo que nunca provaram. Mas uma crise financeira séria não se resolve com árvores genealógicas. O que investidores, credores e a sociedade esperam não é uma lista de parentes, mas uma relação objetiva de responsáveis.
Porque, no fim das contas, sobrenomes podem render manchetes. Já os fatos, esses continuam tendo o saudável hábito de falar por si mesmos.
Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas.