Por Marcelo Rossoni
A memória costuma ser uma senhora inconveniente. Quando todos parecem confortavelmente instalados no presente, ela abre uma gaveta, retira um documento amarelado e estraga a festa. Em 1964, O Globo, jornal de Roberto Marinho, apoiou editorialmente o golpe militar que derrubou o presidente João Goulart. Não foi apoio clandestino, cochichado nos corredores ou descoberto décadas depois por algum historiador munido de lupa. Foi público, editorial e convicto. Foi publicado no espaço mais nobre do jornal: a primeira página.
Quase meio século depois, em 2013, veio o mea-culpa. O próprio jornal publicou um editorial com um título que dispensava intérpretes: “Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro”. Poucos acreditaram! A história, entretanto, tem dessas travessuras e não costuma pedir licença para confrontar o presente com aquilo que ficou registrado no passado.
Décadas depois daquele Brasil em que importantes jornais apoiaram a deposição de um presidente, dois dos principais jornalistas da TV Globo sentaram-se diante de Luiz Inácio Lula da Silva para uma sabatina que, em vários momentos, adquiriu temperatura de interrogatório. César Tralli e Renata Vasconcellos estavam ali para perguntar e cumpriram a tarefa com disposição: insistiram, interromperam, voltaram aos assuntos incômodos e reservaram uma parcela considerável do precioso tempo da televisão para o terreno onde qualquer político preferiria caminhar de botas.
Investigações, suspeitas de corrupção, personagens próximos ao governo e, sobretudo, questões envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ocuparam espaço relevante na conversa. Nada há de errado em perguntar. Jornalista não é relações-públicas de presidente da República, não recebe salário para oferecer cafezinho, perguntar apenas pelas realizações do governo e agradecer pela presença antes do intervalo comercial.
A questão está na dosagem. Uma entrevista também revela sua natureza pela seleção dos assuntos, pelo tempo destinado a cada um deles, pela maneira como as perguntas são construídas, pelas interrupções e pela insistência. Nesse aspecto, a sabatina deixou a impressão de que havia uma extensa lista de pecados sobre a mesa e apenas 40 minutos disponíveis para conferir quantos deles poderiam ser colocados na conta do entrevistado.
Lula percebeu rapidamente o terreno em que estava pisando e decidiu não desempenhar o papel do candidato sorridente, conciliador e cuidadosamente treinado para atravessar uma entrevista sem produzir uma frase fora do roteiro. Lula não foi o Lulinha Paz e Amor. Lula foi o Lula do Velho Testamento: valente, guerreiro e não deixou barato as provocações. O personagem cuidadosamente polido para a campanha presidencial de 2002 não compareceu ao estúdio; em seu lugar apareceu o Lula das antigas, aquele que parece sentir-se particularmente confortável quando encontra alguém disposto ao confronto.
O presidente respondeu, contestou, interrompeu, ironizou e demonstrou irritação. Quando considerou inadequada uma pergunta de Renata Vasconcellos sobre dívida pública e metas fiscais, não ficou apenas no conteúdo da resposta e resolveu discutir também a formulação da pergunta. Politicamente, sua reação pode ser compreendida; do ponto de vista da comunicação, foi discutível, porque político experiente deveria saber que, diante das câmeras, gastar segundos brigando com o entrevistador pode significar passar horas explicando posteriormente porque brigou.
Há uma característica de Lula que atravessa praticamente toda a sua trajetória política: ele dificilmente aceita passivamente a condição de acuado. Quando percebe que está sendo pressionado, costuma pressionar de volta; quando identifica uma premissa da qual discorda, contesta-a; quando entende que a provocação ultrapassou a medida, responde. Na sabatina não foi diferente. Em determinado momento, diante da sucessão de perguntas sobre investigações, ironizou dizendo que parecia estar diante do Ministério Público.
Talvez tenha sido uma das frases mais reveladoras da noite, não porque jornalistas não possam perguntar sobre corrupção — devem perguntar e insistir sempre que necessário —, mas porque uma sabatina presidencial também deveria permitir ao telespectador conhecer aquilo que um candidato pretende fazer com o país. Quando o espaço destinado às propostas começa a disputar migalhas com uma sucessão de acusações, investigações e suspeitas, a entrevista corre o risco de trocar a cadeira do jornalista pela bancada do promotor.
Isso não significa absolver Lula de seus próprios excessos. Em alguns momentos, ele permitiu que a irritação falasse mais alto do que a estratégia, interrompeu Renata Vasconcellos repetidamente e, ao questionar a maneira como a jornalista deveria formular uma pergunta, ofereceu munição gratuita aos adversários. Com mais de meio século de experiência política, Lula conhece como poucos a televisão brasileira e deveria saber que uma sobrancelha levantada pode produzir mais manchetes do que cinco minutos de explicações sobre política econômica.
Também houve declarações posteriormente submetidas à checagem e questionadas, circunstância que não pode ser varrida para debaixo do tapete apenas porque o presidente demonstrou disposição para o combate. Valentia diante de entrevistadores não transforma imprecisão em verdade, assim como agressividade na formulação de uma pergunta não significa que ela seja necessariamente injusta. O jornalismo sério exige separar as duas coisas.
Seria igualmente simplista, porém, resumir aqueles 40 minutos à narrativa de que Lula perdeu a cabeça. O que ocorreu foi mais interessante: ele percebeu que estava diante de uma entrevista de confronto e resolveu disputar a condução dela. Em vez de aceitar passivamente a condição de interrogado, tentou inverter posições, questionou premissas e reagiu aos entrevistadores, às vezes com eficiência, outras vezes ultrapassando a medida.
Há ainda um detalhe que merece atenção. Depois da entrevista, Lula não pediu a cabeça de César Tralli, não exigiu a demissão de Renata Vasconcellos e tampouco declarou a Globo inimiga da República. Reconheceu que os jornalistas estavam cumprindo sua função e que não tinham obrigação de formular perguntas destinadas a agradá-lo. Sua reclamação foi outra: gostaria de ter utilizado mais tempo para falar de propostas, embora seja perfeitamente possível argumentar que ele próprio desperdiçou parte desse precioso tempo discutindo com as perguntas.
É justamente nesse ponto que a democracia se torna interessante. Jornalista pode apertar presidente, presidente pode contestar jornalista e o público tem o direito de analisar o comportamento dos dois. Nenhum deles possui certificado de infalibilidade e nenhuma empresa jornalística deveria reivindicar para si imunidade à crítica, especialmente porque a mesma imprensa que legitimamente fiscaliza o poder também precisa conviver com o escrutínio sobre suas escolhas editoriais.
Muito menos a Globo poderia pretender tratamento diferente. É aí que aquela senhora inconveniente chamada memória retorna à sala. O Globo apoiou a ruptura institucional de 1964 e, 49 anos depois, reconheceu que havia errado. Isso evidentemente não significa que uma entrevista dura realizada em 2026 tenha qualquer equivalência com os acontecimentos de 1964, comparação que seria historicamente absurda. O episódio serve apenas para recordar que organizações jornalísticas também fazem escolhas, assumem posições, cometem erros e precisam conviver com o mesmo direito à crítica que exercem diariamente contra aqueles que ocupam o poder.
Naquela noite, César Tralli e Renata Vasconcellos tinham todo o direito de perguntar aquilo que considerassem relevante, Lula tinha todo o direito de responder e contestar, e o telespectador conservava o direito mais importante de todos: formar sua própria opinião sobre o desempenho de cada um. Não é preciso transformar jornalistas em vilões para reconhecer excessos, assim como não é necessário transformar presidente em vítima para admitir que determinadas perguntas e insistências merecem ser analisadas.
O “Lulinha Paz e Amor” que ajudou a pavimentar a chegada de Lula ao Palácio do Planalto em 2002 ficou, naquela noite, do lado de fora do estúdio. Quem se sentou diante de César Tralli e Renata Vasconcellos foi um personagem muito mais antigo, forjado em assembleias sindicais, campanhas eleitorais, derrotas, vitórias e incontáveis confrontos políticos. Era o Lula que gosta da disputa, cresce diante do adversário e responde provocação com provocação, às vezes ultrapassando a medida justamente porque nunca aprendeu a fingir que não foi atingido.
Era o Lula do Velho Testamento: valente, guerreiro, disposto ao confronto e sem nenhuma vocação para oferecer a outra face. Pode-se gostar ou detestar esse Lula, considerar que deveria ter sido mais sereno, menos intempestivo e mais presidencial, ou até concluir que César Tralli e Renata Vasconcellos venceram alguns rounds daquela noite. O que dificilmente se pode afirmar é que ele tenha aceitado passivamente o papel que lhe reservaram. Lula entrou no estúdio para uma sabatina, percebeu que havia um ringue montado e, como faz há mais de meio século, resolveu lutar.
Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de empresas