Por Marcelo Rossoni
Durante alguns anos, a Apex Partners pareceu ter encontrado uma fórmula especialmente eficiente para o sucesso: pensar grande, falar grande e, sempre que possível, trabalhar com números suficientemente grandes para dispensar apresentações.
No Espírito Santo, a empresa cresceu, comprou participações, entrou em negócios imobiliários, estruturou fundos, aproximou-se de grandes empresários e passou a ocupar posição de destaque no mercado financeiro regional.
Seus executivos analisavam a economia brasileira, explicavam juros, interpretavam Brasília, antecipavam movimentos internacionais e ensinavam empresários a olhar para o futuro com a segurança de quem parecia enxergar alguns quilômetros além dos demais.
O futuro, porém, tem o inconveniente hábito de chegar. E chegou em agosto. A própria Apex reconheceu a existência de “inconsistências financeiras”, afastou seu fundador e presidente, Fernando Cinelli, e o diretor financeiro, Eduardo Siqueira, além de anunciar a contratação de uma auditoria independente.
De repente, a empresa acostumada a analisar balanços passou a precisar explicar o próprio. Uma interessante mudança de perspectiva para uma instituição que construiu parte considerável de sua reputação em torno de palavras como estratégia, governança, risco, oportunidade e crescimento.
Entre as ideias abraçadas pela Apex estava a tese das chamadas “Onças Brasileiras”, uma versão tropical dos famosos Tigres Asiáticos. Determinados estados brasileiros, entre eles o Espírito Santo, eram apresentados como economias regionais capazes de crescer acima da média nacional, combinando organização fiscal, ambiente empresarial, produção, exportações e capacidade de atrair investimentos.
A tese tinha seus méritos e encontrou terreno fértil num Estado que há anos tenta convencer o resto do País de que é pequeno apenas no mapa.
O entusiasmo foi muito além dos estudos econômicos. As onças ganharam apresentações, encontros empresariais, palestras e uma narrativa própria de desenvolvimento regional. Depois ganharam passaporte. Em maio deste ano, a Apex realizou mais uma edição internacional do Brazilian Regional Markets, o BRM, encontro dedicado aos mercados e às oportunidades das diferentes regiões brasileiras, no Harvard Club of New York City.
O tema escolhido também não sofria de baixa autoestima: “O Renascimento do Brasil”.
Não há nada de errado em levar empresários brasileiros a Nova York. A cidade continua sendo um dos principais centros financeiros do planeta e quem pretende atrair capital internacional pode legitimamente procurar investidores onde eles estão.
O episódio ganha algum sabor quando boa parte das conversas ocorre em português, entre brasileiros reunidos em Manhattan para discutir oportunidades existentes no Brasil. Talvez São Paulo estivesse longe demais.
A questão fica mais interessante quando entra a conta. Um sócio-diretor da própria Apex informou à imprensa que o investimento relacionado à estrutura daquela operação em Nova York ficou na faixa de R$2 milhões a R$3 milhões, incluindo locação, deslocamentos e o conforto proporcionado aos participantes.
Isso não significa que R$3 milhões tenham sido gastos numa palestra ou numa tarde de conversa no Harvard Club. Significa que havia uma operação milionária destinada a sustentar a presença institucional da empresa naquele circuito internacional.
Enquanto tudo funcionava, era investimento em posicionamento, relacionamento, expansão e imagem. Quando surgem inconsistências financeiras e o presidente e o diretor financeiro são afastados, despesas antigas começam naturalmente a ser observadas com outros olhos.
A contabilidade possui esse curioso senso de oportunidade: enquanto tudo vai bem, quase todo gasto estratégico é investimento; quando alguma coisa sai dos trilhos, alguém finalmente pergunta quanto custou.
A Apex também criou o prêmio Brazilian Jaguar of the Year, algo como “Onça Brasileira do Ano”, destinado a homenagear empresários, políticos e personalidades associados ao crescimento dos mercados regionais. A narrativa estava completa: tese econômica, evento internacional, palco em Manhattan, convidados importantes e prêmio.
As onças brasileiras haviam atravessado fronteiras e chegado ao coração de Nova York com a segurança de quem conhecia perfeitamente o caminho de volta.
O problema é que agosto também conhecia.
Pouco antes da crise, a Apex aparecia publicamente associada a algo em torno de R$19 bilhões sob gestão, supervisão ou advisory, termo usado no mercado financeiro para serviços de assessoria e aconselhamento relacionados a investimentos e operações.
É muito dinheiro. Mas recursos sob gestão ou supervisão não significam necessariamente dinheiro pertencente à empresa. São, em grande parte dessas estruturas, recursos de clientes, investidores ou fundos administrados ou acompanhados por instituições especializadas.
Talvez por isso exijam ainda mais cuidado. O dinheiro dos outros tem uma peculiaridade desagradável: quando dá lucro, todos comemoram; quando surgem problemas, a memória dos envolvidos melhora extraordinariamente.
A Apex expandiu-se para participações empresariais, negócios imobiliários, crédito, fundos e operações de mercado de capitais. E aqui convém lembrar uma regra elementar: mercado de capitais, fusões e aquisições não são atividades para amadores.
Nas fusões e aquisições — conhecidas pela sigla M&A, do inglês Mergers and Acquisitions — não basta enxergar uma oportunidade. É preciso saber o que está sendo comprado, quanto realmente vale, quais obrigações acompanham o negócio e quem ficará com a conta se as premissas não se confirmarem.
No mercado de capitais vale raciocínio semelhante. É possível combinar fundos, ações, créditos e garantias e construir verdadeiras obras de engenharia financeira. Mas existe uma regra que nenhum MBA conseguiu revogar: quanto mais sofisticada a operação, maior deve ser a capacidade de compreender e controlar o risco.
O mercado aceita ousadia.
O que costuma cobrar caro é a ousadia sem controle.
Entre as operações que agora despertam curiosidade está a construção de uma participação relevante na CVC. Fundos ligados à estrutura Apex e Carbyne compraram milhões de ações e passaram a integrar o acordo de acionistas da companhia.
Não era uma posição experimental. Era uma aposta relevante. E apostar faz parte do mercado de capitais. O problema nunca foi comprar ações acreditando que elas vão subir.
O problema começa quando elas não recebem o memorando.
As ações da CVC perderam valor e passaram a circular informações de que determinadas operações teriam sido estruturadas com uma garantia particularmente confortável para alguns investidores: receber 100% do CDI ou a valorização das ações, prevalecendo o maior resultado.
CDI é uma das principais referências de rentabilidade dos investimentos no Brasil e sua taxa costuma acompanhar de perto os juros básicos da economia.
A existência e os termos desta garantia ainda precisam ser documentalmente confirmados. Se a ação subisse, o investidor participaria da valorização. Se não subisse, existiria uma proteção vinculada ao CDI.
Excelente para quem recebeu a garantia.
Resta saber quem ficou do outro lado do balcão.
Risco financeiro não desaparece quando ganha nome em inglês. Pode ser transferido, dividido entre fundos, colocado numa holding, levado para outro veículo de investimento ou apresentado num elegante PowerPoint.
Continua sendo risco.
Se alguém recebeu a promessa de participar da valorização de um ativo sem absorver integralmente sua queda, alguém precisou assumir a diferença. Daí surgem perguntas inevitáveis: se houve garantia, quem assinou? A própria Apex? A Carbyne? Um fundo? Fernando Cinelli? Outra empresa? Havia patrimônio suficiente para suportar a obrigação? Os demais envolvidos conheciam seus termos?
E quem calculou o tamanho da conta se as ações resolvessem cometer a deselegância de cair?
Enquanto os documentos não aparecem, a responsabilidade jornalística recomenda evitar conclusões definitivas.
Mas garantia sem garantidor só funciona em propaganda.
Outro episódio aumentou a tensão. O BRM Carbyne Crédito Estruturado FIC FIDC teve os resgates suspensos depois que o volume de pedidos passou a ser incompatível com a liquidez disponível.
FIDC é um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, que aplica principalmente em créditos a receber. FIC é um Fundo de Investimento em Cotas, que investe predominantemente em cotas de outros fundos.
Ainda não há elementos suficientes para afirmar que a suspensão dos resgates decorreu diretamente dos investimentos relacionados à CVC. Misturar automaticamente as duas coisas seria imprudente.
Mas quando muitos investidores tentam retirar dinheiro simultaneamente, reaparece uma das regras mais antigas do sistema financeiro: a porta de entrada costuma ser confortável, iluminada e larga.
A de saída depende das circunstâncias.
O BTG Pactual também decidiu romper sua relação de distribuição com a Apex. No mercado financeiro, confiança não aparece no balanço entre máquinas, imóveis ou aplicações, mas talvez devesse.
Confiança possui liquidez muito pior.
Leva anos para acumular e pode desaparecer numa manhã.
E então a crise chegou ao Judiciário.
Na sexta-feira, 7 de agosto, o juiz Marcos Sanches, titular da Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória, concedeu medida cautelar em favor das empresas que compõem a estrutura da Apex, suspendendo execuções com o objetivo de preservar o patrimônio de 178 companhias envolvidas. O montante das dívidas apresentadas no processo se aproxima de R$1 bilhão.
Quase R$1 bilhão possui uma vantagem retórica: dispensa adjetivos.
A proteção tem prazo. As empresas deverão apresentar, em 30 dias, pedido de recuperação judicial. Caso isso não aconteça, a medida cautelar perde eficácia.
A liminar não significa que a recuperação judicial tenha sido concedida nem representa conclusão sobre responsabilidades pelas inconsistências investigadas. Em português menos jurídico, diante de uma fila de credores, a Justiça decidiu evitar temporariamente uma corrida até o caixa.
Não resolveu a conta. Apenas impediu que cada um tentasse resolvê-la sozinho.
O número de empresas abrangidas revela a dimensão da estrutura construída em torno da Apex. São 178 companhias distribuídas por diferentes negócios, participações e estruturas societárias.
Desembaraçar esse novelo talvez seja menos glamouroso que organizar um encontro no Harvard Club.
Mas provavelmente será bem mais importante.
Recuperação judicial não é sinônimo de falência. É um mecanismo destinado a permitir que empresas em dificuldades econômico-financeiras reorganizem suas dívidas enquanto tentam preservar suas atividades.
No caso da Apex, será necessário descobrir o que aparece quando ativos, passivos, garantias, contratos, participações societárias e capacidade de geração de caixa forem colocados sobre a mesa.
Também é indispensável separar dívida das empresas, patrimônio dos fundos, dinheiro dos investidores e recursos sob gestão ou custódia. Não são necessariamente a mesma coisa. Um passivo próximo de R$1 bilhão não autoriza concluir que todos os clientes perderam dinheiro ou que desapareceram os bilhões anteriormente divulgados como recursos sob gestão ou supervisão.
Quem mistura tudo num único saco pode produzir uma manchete barulhenta e uma reportagem ruim.
Uma perda, contudo, já pode ser contabilizada sem auxílio de auditor: a imagem de invulnerabilidade.
A Apex construiu uma aura de excelência, crescimento e sofisticação. Reunia profissionais qualificados, promovia encontros, discutia economia, participava de aquisições e projetava o Espírito Santo para além de suas fronteiras.
Nem sempre, porém, demonstrava o mesmo entusiasmo quando as oportunidades batiam à sua porta. Profissionais do mercado que procuravam a instituição para apresentar negócios, encaixar projetos, aproximar investidores ou propor parcerias relataram, em algumas ocasiões, uma recepção marcada pela frieza e até pelo desdém.
São percepções individuais e não permitem generalizações. Mas combinam com a imagem de uma organização que cresceu rapidamente e talvez tenha começado a enxergar determinados negócios e interlocutores como pequenos demais para o tamanho que imaginava ter alcançado.
O mercado costuma corrigir esse tipo de ilusão sem muita cerimônia. Projetos podem ser pequenos. Empresas podem começar pequenas.
Prejuízo, infelizmente, não tem obrigação de ser.
Talvez o maior risco do sucesso seja exatamente esse. Depois de acertar muitas vezes, uma organização pode começar a acreditar que adquiriu imunidade contra o erro. Quem questiona parece pessimista. Quem aponta risco parece pouco ambicioso. Quem pede cautela atrapalha a euforia.
O mercado não participa dessa cerimônia. Não conhece currículo, não frequenta coquetel, não admira PowerPoint e não reconhece sobrenome. Também não se impressiona com o Harvard Club.
Quando uma posição cai, ela cai em Nova York, em Vitória ou no bairro mais modesto da cidade com a mesma objetividade matemática.
É nesse ponto que as “Onças Brasileiras” ganham significado quase literário.
Em maio, discutia-se o renascimento do Brasil em Manhattan.
Em agosto, discute-se a preservação do patrimônio de 178 empresas numa Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória.
O mercado possui dessas mudanças de endereço.
Ainda não sabemos exatamente como se formou uma dívida próxima de R$1 bilhão, quais obrigações serão efetivamente reconhecidas, quais empresas concentram os maiores passivos, quais ativos poderão responder por eles e quem terminará absorvendo eventuais perdas.
Mas sabemos que o espetáculo mudou.
Saíram o palco, os painéis e as projeções. Entraram contratos, extratos, credores, advogados e planilhas. A pergunta deixou de ser quanto as regiões brasileiras poderiam crescer.
Ficou muito mais simples: o que aconteceu?
Fernando Cinelli e Eduardo Siqueira foram afastados, não condenados. A auditoria precisa falar. Os contratos precisam aparecer. Os números precisam fechar. E cada pessoa deve responder exatamente pelos atos que praticou.
Talvez toda essa história pudesse ter acontecido sem Manhattan, sem Harvard Club, sem prêmio para onça, sem milhões investidos em eventos e sem discursos sobre o renascimento do Brasil.
Mas seria uma história muito menos simbólica.
A Apex cresceu ensinando que era possível pensar grande a partir do Espírito Santo. E nisso talvez tenha prestado um serviço importante. O Estado precisa de empresas ambiciosas, de mercado de capitais, de empresários dispostos a sair da província e de instituições capazes de atrair investimentos.
O que nenhuma empresa precisa é confundir ambição com infalibilidade.
Porque o mercado possui memória curta para o sucesso e extraordinária capacidade de lembrar prejuízos. As onças podem viajar, atravessar fronteiras, frequentar Manhattan, entrar no Harvard Club, receber prêmios e rugir em português diante de brasileiros.
Podem até descobrir que também existe uma Vara de Recuperação Judicial e Falência em Vitória.
Só não podem esquecer uma regra que o comerciante da esquina conhece sem precisar de MBA: o dinheiro precisa ser respeitado.
E dinheiro não aceita desaforo.
Nem em Vitória.
Nem na Faria Lima.
Muito menos em Manhattan.
Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas