Poucas empresas capixabas conseguiram despertar tanto interesse, admiração, curiosidade e, mais recentemente, especulação quanto a Apex Partners.
Durante anos, a gestora construiu uma reputação que ultrapassou os limites do mercado financeiro. Seu nome passou a frequentar reuniões empresariais, operações de aquisição, fundos de investimento, projetos de expansão e ambientes aparentemente distantes do universo das finanças. Em determinado momento, parecia haver uma conexão entre a Apex e alguns dos negócios mais bem-sucedidos surgidos ou consolidados no Espírito Santo.
Foi assim que se formou a percepção de que dezenas de empresas passaram a integrar, de alguma forma, o universo de relacionamentos construído pela gestora. Convém esclarecer desde o início que relacionamento empresarial não significa controle acionário. Participação societária não significa comando. Investimento não significa propriedade integral.
Em muitos casos, a Apex atuava por meio de fundos de investimento. Em outros, participava de operações de captação de recursos, estruturava negócios, assessorava processos de fusão e aquisição ou adquiria participações minoritárias. Ainda assim, a dimensão dessa rede chama atenção.
A palavra "ecossistema" tornou-se uma das preferidas dos executivos da empresa. Para quem não está familiarizado com o termo, ecossistema empresarial nada mais é do que uma rede de empresas, investidores, gestores e parceiros que mantêm relações econômicas entre si. Em linguagem mais simples, trata-se de um ambiente onde circulam oportunidades, capital, conhecimento e negócios.
No caso da Apex, esse ecossistema espalhou-se por diversos setores da economia. Na educação aparece a Fucape Business School, instituição reconhecida nacionalmente pela formação de executivos, produção acadêmica e pesquisa nas áreas de administração, contabilidade, economia e finanças. Na engenharia surge a Timenow, especializada em gerenciamento de projetos industriais de grande porte, atuando em setores como mineração, petróleo, energia e infraestrutura. No mercado de vinhos destaca-se a Wine, empresa que revolucionou a comercialização da bebida no Brasil por meio de clubes de assinatura e vendas pela internet. Na logística figura a Univale Transportes, tradicional operadora de transporte rodoviário de cargas e soluções logísticas.
No agronegócio aparece a Natufert, voltada à produção e comercialização de fertilizantes e soluções para aumentar a produtividade agrícola. Na tecnologia está a Yooga, desenvolvedora de sistemas de gestão empresarial utilizados por restaurantes, varejistas e prestadores de serviços. Também na área tecnológica encontra-se a Futurai, empresa especializada em inteligência artificial aplicada à indústria, desenvolvendo sistemas capazes de prever falhas em equipamentos, reduzir custos de manutenção e aumentar a eficiência operacional.
Na tecnologia para restaurantes, bares e serviços de entrega destaca-se a Tastefy, criadora de plataformas digitais para cardápios eletrônicos, pedidos online e gestão de estabelecimentos do setor de alimentação. No mercado financeiro aparece a Bankme, especializada em soluções de crédito estruturado e antecipação de recebíveis para empresas.
Na área da saúde figura a Vividus, voltada para serviços, gestão e inovação no setor médico-hospitalar. Na mobilidade urbana está a Mottu, empresa que se tornou conhecida nacionalmente pelo aluguel e financiamento de motocicletas utilizadas por entregadores e pequenos empreendedores. No setor imobiliário encontra-se a Yuca, plataforma que conecta proprietários e moradores por meio de soluções digitais para locação residencial.
No sistema de franquias, conhecido internacionalmente como franchising — modelo em que uma empresa autoriza terceiros a utilizarem sua marca e seu método de negócio — aparece a ATW, grupo controlador de diversas redes de alimentação e varejo. E, talvez de forma surpreendente para muitos, no segmento de pesquisas de opinião e inteligência de mercado surge a Futura Inteligência, empresa especializada em levantamentos eleitorais, pesquisas de mercado, avaliação de governos, comportamento do consumidor e análise de tendências econômicas e sociais.
Ao observar esse conjunto, uma característica salta aos olhos. A Apex não parecia dedicar seus esforços à procura de empresas desconhecidas ou negócios em busca de salvação. Seu foco recaía justamente sobre organizações que já haviam demonstrado competência, capacidade de gestão e potencial de crescimento.
A Fucape já era respeitada antes da chegada da Apex. A Timenow já acumulava um histórico sólido. A Wine já havia conquistado milhões de consumidores. A Univale já possuía tradição no setor de transportes. A Futura Inteligência já realizava pesquisas acompanhadas por veículos de comunicação de alcance nacional. A Futurai já despontava como uma das empresas mais inovadoras do setor industrial capixaba.
Talvez esteja aí uma das características mais interessantes da trajetória da gestora. A estratégia parecia menos próxima da alquimia e mais próxima da identificação de joias empresariais. Em vez de transformar chumbo em ouro, a impressão era a de que a empresa se especializou em descobrir onde o ouro já estava.
Traduzindo para a linguagem das conversas de corredor e das mesas de café empresarial, a Apex parecia preferir embarcar em navios que já navegavam em águas seguras a apostar em embarcações ainda sendo desenhadas na prancheta.
Entre todas as empresas associadas ao grupo, uma merece atenção especial. Trata-se da Futura Inteligência. À primeira vista, uma empresa de pesquisas de opinião parece deslocada em meio a negócios ligados à educação, engenharia, tecnologia ou logística. Mas a lógica existe.
Pesquisas não servem apenas para medir intenções de voto. Elas ajudam a identificar tendências de consumo, avaliar a percepção da sociedade, compreender expectativas econômicas e antecipar movimentos de mercado. Em outras palavras, ajudam a entender para onde o vento sopra antes que as bandeiras comecem a se mover.
Enquanto muitos empresários tentam prever o futuro observando os números do passado, a Apex decidiu adquirir uma empresa especializada justamente em medir tendências. É uma estratégia que pode parecer incomum para quem está fora do mercado financeiro, mas que faz bastante sentido para quem trabalha diariamente com análise de riscos e oportunidades.
Os fios dessa rede empresarial, por vezes, produzem encontros curiosos. Um exemplo frequentemente lembrado é o do economista Arilton Teixeira, apontado como economista-chefe da Apex e irmão de Aridelmo Teixeira, um dos fundadores da Fucape. Não há nisso qualquer aspecto extraordinário. O episódio apenas ajuda a ilustrar uma característica típica do ambiente empresarial capixaba: quando se observa atentamente o mapa dos negócios, percebe-se que muitos dos protagonistas já se conhecem há décadas, frequentam os mesmos ambientes profissionais e, não raramente, compartilham histórias que se cruzam ao longo do tempo.
Por trás desse ecossistema havia uma estrutura financeira igualmente robusta. Entre os veículos de investimento ligados ao grupo figuravam o Apex Crescimento Mercados Regionais, o BRM Carbyne Crédito Estruturado, o Carbyne Travel, o Carbyne Voyage, o Carbyne Jaguar e outros fundos setoriais.
Um fundo de investimento funciona como uma espécie de condomínio financeiro. Diversos investidores aplicam recursos que passam a ser administrados por profissionais especializados. Já o termo private equity, muito utilizado pela Apex, refere-se à aquisição de participações em empresas com potencial de crescimento. Em português claro, trata-se de investidores colocando dinheiro em negócios que acreditam valer mais no futuro.
Em determinado momento, contudo, a Apex deixou de ser observada apenas como uma gestora regional. A aquisição de uma participação relevante na CVC Corp, uma das maiores empresas de turismo do Brasil, demonstrou que o grupo havia alcançado um novo patamar.
Não se tratava mais apenas de uma história empresarial capixaba.
Ao adquirir aproximadamente 15% da companhia por meio de fundos ligados ao seu ecossistema, a Apex passou a ocupar espaço em um ambiente tradicionalmente frequentado por grandes instituições financeiras nacionais. Era um movimento que chamava atenção não apenas pelo volume dos recursos envolvidos, mas também pela ousadia.
Mas é justamente nesse ponto que a narrativa muda de direção.
Até o momento, nada indica que os problemas enfrentados pela Apex tenham surgido dentro da Fucape, da Timenow, da Wine, da Univale, da Futurai ou da Futura Inteligência. As informações divulgadas apontam para operações financeiras específicas, entre elas a aquisição da participação na CVC, a emissão de debêntures da Rhino Securitizadora e a estruturação do fundo BRM Carbyne Crédito Estruturado.
Debêntures são títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos. Securitização é a transformação de recebíveis futuros em ativos financeiros negociáveis. São instrumentos comuns no mercado de capitais, embora seus nomes muitas vezes pareçam ter sido escolhidos por uma comissão formada exclusivamente por economistas, advogados e pessoas que gostam de tornar simples aquilo que poderia ser compreendido sem dicionário.
Com a crise vieram também os nomes.
Fernando Cinelli, cofundador da Apex e principal executivo durante sua fase de expansão, passou a ocupar o centro das atenções. Eduardo Siqueira, diretor financeiro, também ganhou espaço nas reportagens. São personagens diretamente ligados à gestão da companhia e às decisões tomadas durante o período de crescimento acelerado da organização.
Mas toda crise produz um fenômeno curioso. Os especialistas instantâneos.
Nas últimas semanas, multiplicaram-se os conhecedores de governança corporativa. Governança corporativa é o conjunto de regras e mecanismos destinados a orientar a administração das empresas e proteger investidores. Também surgiram especialistas em debêntures, securitização, fundos estruturados, mercado de capitais e participações societárias.
Até pouco tempo atrás, muitos deles talvez não distinguissem uma ação ordinária de um carnê de prestação. Hoje analisam estruturas financeiras complexas com a segurança de quem passou décadas frequentando reuniões de conselhos de administração.
A vida empresarial possui dessas ironias.
O sucesso costuma produzir admiradores. As dificuldades costumam produzir peritos.
Talvez o aspecto mais relevante dessa história não seja a crise. Crises passam. Investigações terminam. Processos são julgados. Manchetes envelhecem.
O que permanece é a capacidade que a Apex demonstrou de se aproximar de algumas das empresas mais respeitadas do Espírito Santo e do Brasil.
A Fucape não se tornou uma referência por causa da Apex.
A Timenow não se transformou em uma potência da engenharia por causa da Apex.
A Wine não conquistou milhões de clientes por causa da Apex.
A Futura Inteligência não passou a medir o humor do eleitorado brasileiro por causa da Apex.
O caminho foi exatamente o inverso.
A Apex aproximou-se dessas organizações porque elas já eram referências em seus respectivos segmentos.
Talvez seja justamente essa a explicação para o fascínio que a empresa exerceu durante tantos anos. Afinal, quem consegue sentar-se à mesa de tantas joias empresariais inevitavelmente chama atenção, mesmo quando prefere permanecer nos bastidores.
E talvez esteja aí a principal lição dessa história. Os verdadeiros patrimônios empresariais não são construídos por manchetes, discursos ou apresentações de resultados. São construídos por décadas de trabalho, competência, credibilidade e capacidade de gerar valor.
Por isso continuam valiosos antes, durante e depois de qualquer tempestade.
*Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas