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Apex chega à fase em que o dinheiro precisa aparecer

13/08/2026 11:42
Apex chega à fase em que o dinheiro precisa aparecer

Por Marcelo Rossoni

A situação envolvendo a Apex Partners entrou numa etapa em que o vocabulário sofisticado do mercado financeiro começa a perder espaço para uma pergunta bastante popular: tem dinheiro para pagar? Investidores solicitaram o resgate de aproximadamente R$78,2 milhões aplicados em fundos ligados à estrutura do grupo, com vencimentos previstos entre agosto e o final de setembro.

Convém colocar cada coisa na sua gaveta antes que alguém transforme preocupação financeira em sentença definitiva. Os R$78,2 milhões não são simplesmente uma dívida da Apex Partners. São pedidos de investidores que querem retirar recursos aplicados em fundos com patrimônio próprio, separados das empresas do grupo. Parece detalhe de economista, mas não é. Faz bastante diferença.

A Apex conseguiu proteção judicial temporária para determinadas obrigações de empresas do grupo. O problema é que decisão judicial não tem o poder mágico de colocar todos os fundos de investimento debaixo do mesmo guarda-chuva. O patrimônio desses fundos é separado e segue regras próprias. Em outras palavras, enquanto algumas cobranças podem esperar na fila determinada pela Justiça, o investidor que pediu resgate continua olhando para o calendário.

E o calendário, ao contrário de algumas planilhas, não costuma aceitar maquiagem.

É nesse ponto que entra a famosa liquidez, palavra muito apreciada pelo mercado financeiro e capaz de assustar quem prefere português. A tradução é bem menos elegante: é saber se aquilo que existe como investimento consegue virar dinheiro quando chega a hora de pagar.

Uma pessoa pode ter uma casa de R$2 milhões, dois terrenos e um automóvel na garagem e, mesmo assim, descobrir que não possui R$100 mil na conta para uma obrigação que vence amanhã. Não está necessariamente pobre. Apenas tem um pequeno inconveniente: o credor dificilmente aceitará receber a escritura da sala de estar.

Essa é a questão que começa a rondar os fundos ligados à Apex. Parte dos recursos está investida em ativos que não podem ser transformados imediatamente em dinheiro. Existem aplicações em outros fundos, inclusive estruturas de prazo mais longo. Tudo pode estar devidamente registrado, contabilizado e apresentado em belas planilhas. O detalhe inconveniente é que investidor que pede resgate normalmente prefere receber dinheiro.

Já apareceu um sinal de que a engrenagem merece atenção. O BTG Pactual suspendeu os resgates do BRM Carbyne Crédito Estruturado, administrado pela Carbyne, gestora ligada à Apex. A razão está justamente no desencontro entre o volume de pedidos de retirada e a capacidade de transformar os investimentos da carteira em dinheiro naquele momento.

Traduzindo novamente: havia gente querendo sair pela porta enquanto o dinheiro ainda procurava o caminho até o caixa.

Isso não permite afirmar que os recursos desapareceram. Muito menos que alguém tenha embolsado o dinheiro. Uma coisa é falta de liquidez; outra, completamente diferente, é inexistência de patrimônio. Misturar as duas situações pode render manchetes barulhentas, mas não ajuda muito quem pretende compreender o problema.

Outro fundo da estrutura, o Carbyne Mercados Privados, ajuda a explicar a situação. Praticamente todo o patrimônio estava aplicado em cotas de outros fundos, alguns deles fechados e voltados para investimentos de longo prazo. Seu regulamento estabelece antecedência de 180 dias para determinados resgates. Convenhamos: seis meses de espera deixam bastante claro que não estamos falando de um cofrinho que pode ser quebrado na cozinha.

Por isso, dizer simplesmente que a Apex "deve R$78,2 milhões" seria incorreto. Afirmar que "não existem R$78,2 milhões" seria ainda mais irresponsável. O que sabemos é que investidores solicitaram a devolução desse montante e que os fundos precisam cumprir os respectivos prazos.

A verdadeira pergunta, portanto, é bem menos cinematográfica e muito mais importante: quando cada vencimento chegar, haverá dinheiro disponível?

Se os resgates forem pagos normalmente, boa parte da fumaça desaparecerá. O mercado seguirá seu curso, os investidores receberão e algumas previsões de catástrofe poderão ser discretamente guardadas na gaveta.

Se, porém, novos fundos suspenderem resgates, pagamentos forem adiados ou surgir dificuldade crescente para transformar investimentos em dinheiro, o assunto ganhará outra dimensão. Nesse caso, já não estaremos discutindo apenas hipóteses, projeções ou interpretações. Estaremos diante de fatos.

Também é preciso considerar que os R$78,2 milhões não vencem todos no mesmo dia. O valor representa pedidos de resgate previstos para um determinado período. Sem saber quanto corresponde a cada fundo e quanto vence em cada data, ninguém sério consegue calcular a pressão exata sobre o caixa. Quem apresentar uma conclusão definitiva antes disso provavelmente encontrou uma calculadora que também prevê o futuro.

A história da Apex, portanto, chegou a uma fase particularmente interessante. Até aqui tivemos decisões judiciais, estruturas societárias, fundos, gestores, administradores fiduciários, ativos de longo prazo e uma quantidade respeitável de palavras capazes de deixar qualquer leitor comum procurando o botão de tradução.

Agora tudo começa a ficar mais simples.

Os investidores pediram o dinheiro de volta.

Nas próximas semanas saberemos se os fundos conseguem entregá-lo dentro das regras e dos prazos estabelecidos. E essa talvez seja a parte mais democrática do mercado financeiro: depois de tantos termos técnicos, documentos e explicações sofisticadas, chega um momento em que banqueiro, economista, advogado e cidadão comum acabam fazendo exatamente a mesma pergunta: vai pagar quando vencer?

A resposta não estará num discurso. Estará no extrato bancário.


Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas

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