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A escolha de Ricardo

05/08/2026 11:36
A escolha de Ricardo

Por Marcelo Rossoni


Na política, quase nada acontece de repente. O anúncio pode ser inesperado para quem acompanha apenas as manchetes. Para quem observa os movimentos de bastidor, porém, a surpresa costuma chegar com atraso.

A confirmação de Camillo Neves (PP) como candidato a vice-governador na chapa de Ricardo Ferraço (MDB) não nasceu na manhã desta terça-feira, dia 4. Ela apenas foi oficializada.

Meses antes, em abril, Ricardo reuniu vereadores de Vitória no Instituto Camillo Neves, na Ilha de Santa Maria. A agenda foi tratada como institucional, sem discursos inflamados nem declarações capazes de provocar manchetes. Parecia apenas mais um compromisso do governador.

Na política, o endereço de uma reunião costuma ser tão importante quanto a pauta e, muitas vezes, mais importante do que os discursos.

O encontro aconteceu justamente no instituto comandado por aquele que agora passa a ocupar a segunda posição da chapa governista. Vista isoladamente, a escolha do local poderia ser interpretada como mera conveniência. Observada depois do anúncio, ganha outro significado.

Não foi um lançamento de candidatura. Foi algo mais inteligente.

Ricardo Ferraço pertence a uma geração que aprendeu que articulações sólidas não são construídas diante das câmeras. Primeiro consolidam-se relações. Depois vêm as fotografias oficiais.

Enquanto parte do meio político buscava sinais em pesquisas, declarações e entrevistas, talvez a pista mais importante estivesse exatamente onde poucos resolveram olhar: no cenário da reunião.

Camillo Neves não apareceu por acaso no centro daquela fotografia.

Também não foi por acaso que o grupo de cerca de 12 vereadores da Capital participou daquele encontro. Juntos, eles somaram aproximadamente 70 mil votos na última eleição municipal. Em um universo de 266.570 eleitores aptos a votar em Vitória, trata-se de um contingente eleitoral expressivo, capaz de exercer influência relevante na principal praça política do Espírito Santo. Quem constrói maioria na Capital larga alguns passos à frente em qualquer disputa estadual. É dali que irradiam decisões administrativas, articulações partidárias e movimentos capazes de influenciar o cenário político em todo o Estado.

Ao aproximar-se desse grupo, Ricardo ampliava a interlocução com lideranças locais. Ao fazê-lo dentro do Instituto Camillo Neves, transmitia uma mensagem sem precisar pronunciá-la.

Quem precisava entender, entendeu.

Quem não percebeu recebeu a resposta nesta terça-feira.

A escolha também revela outra característica do governador: Ricardo continua preferindo a construção silenciosa às demonstrações de força. Enquanto muitos políticos anunciam primeiro para negociar depois, ele costuma negociar primeiro para anunciar quando o terreno já está consolidado.

Isso não significa ausência de riscos. Toda composição majoritária envolve cálculos delicados. Mas indica um método.

Camillo agrega juventude, presença no esporte, atuação social e representa a Federação União Progressista, peça indispensável para a engenharia eleitoral construída em torno da candidatura à reeleição. Ricardo entrega experiência administrativa, densidade política e uma trajetória construída ao longo de décadas.

Não é uma chapa formada apenas para cumprir tabela partidária.

Há um desenho político por trás dela.

Talvez por isso a reunião realizada meses atrás faça ainda mais sentido agora. Ela não serviu para anunciar um vice. Serviu para apresentar, discretamente, um caminho.

A política possui uma curiosa relação com o tempo. Muitas vezes, responde hoje perguntas que poucos perceberam terem sido feitas ontem.

Foi exatamente o que aconteceu.

O anúncio desta terça-feira apenas confirmou aquilo que o encontro na Ilha de Santa Maria já insinuava para quem costuma prestar atenção aos detalhes.

Porque, no fim das contas, os grandes movimentos da política raramente começam no palanque.

Quase sempre começam na escolha da mesa, das cadeiras e, principalmente, dos convidados.

Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas.

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