*Por Marcelo RossoniNos anos 1930, os Estados Unidos decretaram a Lei Seca, proibindo bebidas alcoólicas para “salvar a moral da nação”. Resultado? Nunca se bebeu tanto. Máfias floresceram, assassinatos se multiplicaram, gangues dominaram cidades inteiras, e a corrupção virou esporte nacional. Se por um lado tentavam controlar a moral interna, por outro mostravam uma incrível habilidade de olhar para o mundo e apontar dedos, como se só os vizinhos tivessem problemas. Essa capacidade de seletividade é, até hoje, a marca registrada da política externa americana.Hoje, esse padrão se repete com outras questões. Enquanto a Estátua da Liberdade segura sua tocha, a política externa americana empunha uma clava moralista, pronta para rotular qualquer desafeto como ditador, traficante ou violador de direitos humanos. Foi assim com Manuel Noriega, o ex-presidente do Panamá — aquele pequeno país que, por coincidência, abriga o canal que conecta oceanos e economias.Noriega governou de 1983 a 1989, inicialmente como aliado dos Estados Unidos, treinado pela CIA, bajulado pelo Pentágono e bem-vindo em Washington. Mas, bastou sair do script, e virou o vilão da novela das oito.Em dezembro de 1989, os Estados Unidos inventaram a “Operação Causa Justa” — um nome tão cínico que faria rir se não tivesse custado muitas vidas panamenhas. O objetivo? Retirar Noriega do poder, classificá-lo como traficante e inimigo da humanidade e, de quebra, mostrar ao mundo que a Casa Branca sempre tem a última palavra. O resultado: Noriega preso em Miami, julgado por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, e o Panamá, convenientemente, sob nova direção, alinhada com os interesses do Tio Sam.Agora, o roteiro se repete com Nicolás Maduro, presidente da Venezuela. Não que Maduro seja santo — longe disso —, mas não deixa de ser curioso como a lista de pecados atribuídos a ele parece ter sido escrita pelo mesmo estagiário que redigiu o dossiê contra Noriega. Ditador, violador de direitos humanos, incompetente, amigo de traficantes. E, claro, dono de uma das maiores reservas de petróleo do planeta. Pura coincidência, claro.Washington não se cansa de repetir o mantra: “Estamos preocupados com o povo venezuelano”. Sim, tão preocupados que aplicam sanções econômicas que deixam o país em frangalhos, bloqueiam transações financeiras e depois aparecem como salvadores, oferecendo ajuda humanitária com a bandeira estrelada estampada no pacote de arroz. É o mesmo amor fraternal que demonstraram ao Panamá em 1989: primeiro destrói, depois manda remédio.Curiosamente, essa preocupação seletiva não se estende a todos. O povo de Gaza, por exemplo, enfrenta bloqueios, bombardeios e crises humanitárias crônicas. Mas os discursos americanos raramente demonstram a mesma comoção. Enquanto os venezuelanos são alvo de sanções severas, com fotos de crianças e filas de pão estampadas nos jornais, Gaza é citada como nota de rodapé, às vezes ignorada, às vezes “condenada” de forma genérica, sem ação concreta. Moral seletiva? Sem dúvida.Mas a cereja do bolo é o discurso contra o tráfico de drogas. Segundo os Estados Unidos, Maduro é cúmplice do narcotráfico, permitindo que cocaína da Colômbia e da Bolívia passe pela Venezuela rumo aos grandes centros consumidores. A lógica é simples: se a droga chega aos Estados Unidos, a culpa é da Venezuela. Se a droga chega à Europa, a culpa é da África. Mas se a droga é consumida dentro das fronteiras americanas, a culpa é do vizinho também.Resta perguntar: para onde vai a maioria da cocaína produzida na Colômbia e na Bolívia? Vai para os Estados Unidos, evidentemente. Não porque Maduro tenha super poderes de teletransporte, mas porque há demanda lá. E a demanda é alta, altíssima. Afinal, como explicar que o país mais poderoso do planeta, com FBI, CIA, DEA, NSA e o diabo a quatro, não consegue impedir que toneladas de cocaína atravessem suas fronteiras? Talvez porque, no fundo, não seja conveniente.No discurso oficial, o americano médio aparece como vítima inocente, seduzido por cartéis malignos que o forçam a cheirar carreiras em festas privadas. Na realidade, os Estados Unidos são o maior mercado consumidor de drogas do mundo — um país de drogados, para usar o português claro. E é essa demanda que alimenta cartéis, guerrilhas, paramilitares e toda a engrenagem do narcotráfico. Mas admitir isso exigiria olhar no espelho, e os Estados Unidos preferem apontar o dedo.O que impressiona é a repetição do roteiro. Primeiro, os Estados Unidos são amigos do governante local. Abraçam, financiam, treinam. Depois, quando o aliado resolve ter ideias próprias — como controlar recursos estratégicos, cobrar royalties maiores ou se aproximar de rivais geopolíticos —, a metamorfose acontece: ele vira ditador sanguinário. Foi assim com Noriega. Está sendo assim com Maduro. E amanhã pode ser com qualquer um que ouse dizer não a Washington.A moral americana é seletiva. A Arábia Saudita, por exemplo, é campeã mundial em violações de direitos humanos: decapita e esquarteja opositores, discrimina mulheres, reprime minorias. Mas, como é amiga de longa data e dona de um mar de petróleo, não entra na lista de “ditaduras a serem combatidas”. Com Maduro, o problema não é a democracia, é o petróleo. Com Noriega, não foi a cocaína — afinal, ela continuou chegando aos Estados Unidos —, foi o canal.O mais irônico é que os Estados Unidos se apresentam como vítimas do narcotráfico latino-americano, mas raramente discutem o fato de que sua própria sociedade sustenta o consumo em escala industrial. O problema não é a oferta, é a procura. Se amanhã os americanos resolvessem parar de cheirar, fumar e injetar, os cartéis faliriam em questão de meses. Mas aí o mercado negro seria substituído por outro vício qualquer — armas, opióides farmacêuticos, redes sociais. A hipocrisia é, afinal, o único produto que nunca falta no estoque da Casa Branca.No fim das contas, a “ameaça” de Noriega era controlar o Canal do Panamá. A “ameaça” de Maduro é sentar em cima das reservas de petróleo. E a “ameaça” da cocaína é revelar que o país que se diz o xerife antidrogas do planeta é, na verdade, o maior cliente do balcão. Os Estados Unidos seguem repetindo o script: vestem a capa de heróis, declaram guerra ao mal e posam para fotos em cima dos escombros.Enquanto isso, a América Latina continua sendo o quintal onde os Estados Unidos entram sem bater, decidem quem fica e quem cai, e ainda cobram a conta. E o mundo assiste, fingindo acreditar que o problema é a ditadura venezuelana, a cocaína panamenha ou a moralidade seletiva americana. Quando, na prática, o problema é outro: um país que não suporta ver ninguém desobedecer e que, ironicamente, prefere cheirar seu próprio moralismo a encarar a realidade.