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Ricardo Ferraço avança em Vitória e ocupa espaço no entorno político de Pazolini

28/04/2026 09:15
Ricardo Ferraço avança em Vitória e ocupa espaço no entorno político de Pazolini

Por Marcelo Rossoni

A política raramente se explica pelo que é dito — mas, quase sempre, pelo que é feito. E foi nesse terreno silencioso, onde gestos pesam mais que discursos, que o governador Ricardo Ferraço (MDB) decidiu se movimentar ao reunir, em Vitória, com vereadores da capital.

O encontro ocorreu nas dependências do Instituto Camillo Neves (ICN), localizado na rua Pedro Carlos de Souza, na Ilha de Santa Maria. À primeira vista, uma agenda institucional como tantas outras. Na prática, porém, com densidade política suficiente para ultrapassar a formalidade do roteiro.

Não há reuniões despretensiosas quando o calendário eleitoral começa a ganhar forma. Com a perspectiva de disputar a reeleição ao governo do Estado, Ricardo Ferraço se insere em um cenário que tende a reunir, no mesmo campo de disputa, nomes como Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Helder Salomão (PT) — adversários diretos na corrida pelo trono do Palácio Anchieta.

O ponto mais sensível do episódio, no entanto, não está apenas na reunião, mas no espaço onde ela acontece. Vitória vinha sendo percebida como uma área de influência relativamente consolidada no entorno político de Pazolini. Não um território fechado, mas um ambiente onde as conexões institucionais seguiam uma lógica relativamente previsível.

É justamente essa previsibilidade que começa a ser testada.

Ao reunir um grupo de vereadores da capital, que representava cerca de 40 mil votos, Ricardo Ferraço não apenas promoveu um encontro. Ele sinaliza a abertura de um canal direto com atores que, por definição, influenciam o ritmo da política local.

E o faz sem ruído.

Sua movimentação segue um padrão conhecido: aproximações graduais, conversas reservadas, construção de pontes antes de qualquer anúncio público. É uma estratégia que dispensa o impacto imediato e aposta no acúmulo. Um tipo de atuação que, em vez de confrontar, contorna.

Nos bastidores, a leitura predominante é de que o encontro foi mais do que protocolar. Para alguns vereadores, “abriu-se uma oportunidade de ampliar interlocução”. Para outros, “um espaço de reposicionamento para bem do Espírito Santo”, revelou à coluna um deles ontem (segunda-feira) à noite. Em política, esses dois movimentos costumam andar juntos — ainda que ninguém se apresse em admitir.

Há também sinais discretos de desconforto entre parlamentares que orbitam a base política de Pazolini. Nada que configure ruptura. Mas, na política, as fissuras raramente começam com estrondo. Começam com silêncios.

E é nesses silêncios que movimentos como o de Ferraço ganham relevância.

Ao se aproximar de vereadores da capital, o governador amplia sua presença em um território sensível e, ao mesmo tempo, realiza uma leitura de cenário: identifica convergências, mede resistências e observa, com método, onde estão as brechas.

No entorno de Pazolini, o gesto não passou despercebido. Não houve reação pública mais contundente — o que, por si só, já diz alguma coisa. Na política, às vezes, a ausência de resposta é apenas uma forma mais contida de atenção.

Há, nesse tipo de movimento, um componente simbólico inevitável. A política não se constrói apenas por decisões formais ou alianças declaradas. Ela também se estrutura pela ocupação progressiva de espaços — físicos e políticos.

E, nesse aspecto, a presença de um articulador experiente em áreas consideradas sensíveis costuma provocar, no mínimo, reavaliações silenciosas.

Curiosamente, não há sinais de confronto direto neste momento. O que se desenha é um processo incremental, quase discreto, típico de períodos que antecedem disputas maiores. Um avanço que se dá por meio da escuta, da presença e da construção paciente de vínculos.

Mas que, ainda assim, reposiciona o tabuleiro.

Ricardo Ferraço parece operar com a compreensão de que, em determinados cenários, a política não exige pressa — exige precisão. E que ampliar interlocução pode ser tão estratégico quanto consolidar apoios explícitos.

No fim, o episódio reforça uma lógica recorrente: nem todo movimento político precisa ser anunciado para produzir efeito. Alguns preferem atuar nas entrelinhas — onde, não raramente, os resultados aparecem antes mesmo das declarações.

Especialmente quando o que está em jogo não é apenas a influência momentânea, mas o controle do próximo capítulo da história política do Espírito Santo.

Marcelo Rossoni é jornalista


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