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Receita infalível para insônia - e outras visões noturnas ou a fé no PIX

18/08/2025 00:26
Receita infalível para insônia - e outras visões noturnas ou a fé no PIX
*Por Marcelo RossoniHoje saí dos temas políticos e econômicos. Andei aborrecendo meu amigo, afilhado, jornalista Eustáquio Palhares — que, em 1988, me resgatou para ser chefe de reportagem de A Tribuna. Ele era o diretor de jornalismo, e Roberto Junquilho, outro amigo querido, era o diretor de redação. Ambos me ensinaram que, às vezes, é preciso trocar de pauta para não cansar nem o público nem a si mesmo.Pois foi justamente lembrando de Junquilho que me veio à cabeça sua receita infalível para insônia: sair da cama, ligar a TV e deixar o fluxo de programação trabalhar. É quase uma técnica de hipnose, um calmante eletrônico. O detalhe é que ele garante: funciona sempre.Outro dia, resolvi seguir a dica. Levantei, peguei o controle remoto, e nada. Os canais de streaming estavam “fora do ar”. Descobri depois que os nóias, que fazem ponto na Praia do Canto, haviam cortado os fios de internet para vender o cobre — uma moeda forte no comércio local de pedras de crack. E lá fui eu, sem Netflix, sem Prime, sem nada que envolvesse fibra óptica. Sobrou-me a TV aberta.Foi então que, zapeando, encontrei ele: Silas Malafaia, o aiatolá da direita evangélica — aquela que vai para as manifestações de rua e acampa na porta dos quarteis pedindo intervenção militar e a volta do AI 5. Silas é o homem que consegue transformar um versículo bíblico numa conferência de liderança motivacional. Com um microfone na mão, ele é capaz de prender a atenção de multidões e, claro, explicar como multiplicar ofertas. É o coach do púlpito, o estrategista do dízimo, o homem que, se fosse general, venceria batalhas apenas com slogans.A partir daí a madrugada virou um verdadeiro desfile de celebridades do mundo gospel-televisivo. Era como assistir a um canal de negócios, mas com linguagem celestial. O que se vendia não eram produtos — era salvação, prosperidade, cura. E tudo com métodos de marketing que fariam inveja a multinacionais.Primeiro, o apóstolo Valdemiro Santiago, o guerreiro dos sete mares. Com seu ar de herói bíblico, contou como sobreviveu a um naufrágio, nadando oito horas até encontrar uma ilha deserta. Só faltou a participação especial de Moisés na travessia. Mas, como todo bom épico, a história tinha um clímax: o lançamento do “Plano de Ofertas”. No topo, a oferta de R$1 milhão, que garantiria uma “enxurrada de bênçãos”. Para quem não tinha esse troco, havia pacotes mais “populares”. Igual plano de celular: básico, intermediário e premium.Logo depois, entrou em cena Edir Macedo, o magnata da fé. Seu método é direto: doe tudo — absolutamente tudo — para a igreja. Casas, carros, terrenos. Em troca, Deus recompensará com paz e prosperidade. É uma teologia simples: quanto maior a transferência no cartório, mais garantida a entrada no céu. Na sequência, R.R. Soares, com seu eterno loop de programação: música chorosa, testemunho com trilha sonora e, antes de qualquer bênção, o número da conta para depósito. A Bíblia aparece no enquadramento, mas como peça de cenário. O protagonista é sempre o QR code no canto da tela.E claro, Malafaia volta, porque ele nunca fica fora do ar por muito tempo. Além de pregar, dá dicas didáticas sobre como convencer fiéis a contribuir. É quase um curso de “vendas aplicadas à teologia”. Explica gatilhos emocionais, técnicas de persuasão e até a importância de criar “urgência espiritual”. Fiquei imaginando um MBA com ele na aula inaugural: “Marketing divino: do púlpito à conta bancária”.Mas, entre um “glória a Deus” e outro, algo chama atenção: Jesus, o personagem principal da fé cristã, aparece pouco. Quando surge, é coadjuvante. O foco está no dízimo, na oferta, no desafio, no sacrifício financeiro. O “amar ao próximo” fica para depois do PIX.Os templos, aliás, parecem shoppings: livrarias, cafés, lojas de produtos ungidos, estacionamento pago e até espaço kids. Os pastores viraram CEOs espirituais, com departamentos de marketing e jurídico, campanhas trimestrais e relatórios de “crescimento de almas” — que, traduzido, significa aumento da arrecadação.Enquanto isso, o fiel comum — aquele que acorda cedo, pega ônibus lotado e se vira como pode — é lembrado de que, se a vida está difícil, é porque “não tem plantado direito”. A colheita, dizem eles, só vem depois de um “sacrifício financeiro”. E se o milagre não chega, a culpa é do fiel: “faltou fé”, “você duvidou”, “não era o seu tempo”.A ironia maior é imaginar Jesus tentando entrar nesses templos. Sem terno italiano Ermenegildo Zegna, sem celular de última geração, sem comprovante de transferência, provavelmente ficaria na calçada. Talvez fosse aconselhado a “fazer um voto” primeiro.O céu, agora, parece funcionar como um clube exclusivo, com mensalidade e plano de fidelidade. Milagres? Só com assinatura ativa. Salvação? Disponível em até 12 vezes no cartão. E se o fiel quiser um lugar VIP na eternidade, melhor preparar o PIX.Pensei em desligar a TV, mas aí percebi que já estava com sono. Talvez a receita do Junquilho funcione mesmo — não porque acalme, mas porque cansa ver tanto comércio disfarçado de culto.E, antes de dormir, fiquei pensando: se Jesus voltasse hoje, provavelmente abriria uma igreja nova, com entrada franca, milagre sem custo e sermão na praça. Mas, até lá, seguimos aqui: vendo altar virar palco, pastor virar coach e culto virar live com superchat ativado.

  *Marcelo Rossoni é jornalista

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