O deputado Vicente Silveira nunca foi propriamente um exemplo de elegância. O colarinho da camisa raramente estava abotoado como deveria, e o nó da gravata era um atentado à paciência de qualquer alfaiate. Hoje, certamente, alguém lhe recomendaria um personal stylist, profissional especializado em cuidar da aparência das pessoas. Seria um desperdício de dinheiro e, possivelmente, uma agressão à sua personalidade.
Vicente era assim mesmo, meio roceiro, um tanto tosco, indiferente às exigências da moda. Para ler, usava óculos de meia-lua comprados numa banca de Iúna, município que representou politicamente durante vários mandatos. O oftalmologista não parecia fazer parte de suas preocupações.
Por trás daquela figura desajeitada, entretanto, escondia-se uma águia política.
Vicente conhecia como poucos os movimentos do poder. Sabia identificar os interesses em disputa, antecipar alianças e perceber quando uma peça do xadrez político estava prestes a mudar de posição. Era também uma fonte preciosa para os jornalistas. Suas informações, quase sempre transmitidas em off, sob compromisso de preservar sua identidade, resistiam à apuração.
Gostava de repetir uma comparação atribuída ao político mineiro Magalhães Pinto: “a política é como uma nuvem. Num instante apresenta determinada forma; pouco depois, levada pelos ventos, já é completamente diferente”.
Lembrei-me de Vicente ao observar as fotografias do senador Magno Malta, do Partido Liberal, na internet. A internet não tem memória fraca. As fotos estão lá. Nelas, o parlamentar aparece ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro.
Uma coleção interessante. Sobretudo quando acompanhada das respectivas declarações de amizade, confiança e compromisso político.
Numa fotografia, Magno está ao lado de Lula. Ambos vestem camisetas de combate à pedofilia, bandeira que o senador abraçou e transformou numa de suas principais causas parlamentares.
A aproximação, contudo, não se limitava ao combate à violência contra crianças.
Em novembro de 2010, Magno recordou, na tribuna do Senado, sua participação na campanha presidencial de 2002, quando trabalhou para diminuir a resistência do eleitorado evangélico à candidatura de Lula. Na mesma oportunidade, reconheceu avanços do governo petista e manifestou confiança na continuidade daquele projeto político.
Não eram palavras arrancadas durante uma conversa de corredor. Tratava-se de manifestação pública, espontânea, pronunciada por quem conhecia o peso político de suas declarações.
Em outra ocasião, posou para uma fotografia com a presidenta Dilma Rousseff. O ambiente é de entusiasmo. Braços erguidos, sorrisos e aquela intimidade que costuma aparecer quando todos acreditam estar do mesmo lado da história.
Magno participou ativamente da campanha de Dilma em 2010. Trabalhou para conquistar votos entre os evangélicos e apresentou sua eleição como oportunidade de dar continuidade às realizações de Lula.
Até que os ventos mudaram.
Em 5 de julho de 2016, durante o processo de impeachment, o senador já havia encontrado outra maneira de interpretar o passado. Ao recordar o apoio que dera a Lula e Dilma, declarou ter agido “abiloladamente”.
A expressão, registrada pela Agência Senado, merece atenção.
Não deixa de ser curioso que uma decisão anteriormente defendida com tanto entusiasmo tenha acabado classificada pelo próprio autor como uma espécie de desatino.
Quem acreditou em suas recomendações eleitorais deve ter ficado um tanto desconcertado. Afinal, o eleitor costuma levar a sério aquilo que seus representantes dizem. Nem sempre recebe, depois, explicações convincentes sobre o que os levou a mudar de opinião.
Magno também posou ao lado de Michel Temer, numa fotografia para seu álbum de recordações pessoais.
O antigo vice-presidente de Dilma assumiu o comando do país em meio à crise política que resultaria no afastamento definitivo da presidenta. Magno encontrou razões para defender o novo governo.
Em junho de 2016, criticou a oposição à administração interina. Dois meses depois, minimizou as vaias recebidas por Temer na abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
Houve divergências, naturalmente. O senador questionou aspectos das reformas trabalhista e previdenciária. Seria incorreto apresentar a relação como uma adesão irrestrita.
Mas a aproximação existiu, acompanhada de manifestações públicas de apoio.
Dilma, que antes merecera seu empenho eleitoral, já havia deixado o Palácio do Planalto. Temer ocupava seu lugar. E Magno, conhecedor dos corredores de Brasília, encontrava espaço no novo cenário.
O ex-presidente Jair Bolsonaro não poderia ficar de fora do álbum de fotografias do senador.
Nesse caso, a proximidade possuía raízes anteriores à campanha presidencial de 2018. Em outubro daquele ano, Magno contou no Senado que ambos haviam passado a se reunir para orar duas vezes por semana em seu gabinete. Também relatou viagens pelo país e atividades políticas em defesa de pautas relacionadas à família, à educação e à segurança.
A aliança estava sustentada por afinidades declaradas. Não era apenas uma conveniência fotográfica.
Eis, portanto, o álbum completo: Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro.
Quatro personagens com trajetórias, ideias e projetos bastante diferentes. Todos, em algum momento, encontraram no senador alguém disposto a lhes oferecer apoio político.
Não há ilegalidade nisso. Tampouco existe obrigação de fidelidade eterna a um governante ou partido. A política permite revisões, afastamentos e reconciliações. Algumas mudanças, inclusive, revelam amadurecimento.
A questão é outra.
Quando um homem público recomenda determinada escolha ao eleitorado, participa de campanhas e empresta sua credibilidade a um projeto, assume também responsabilidade pelo que disse. Se posteriormente muda de posição, é razoável esperar que explique os motivos, especialmente quando passa a condenar aquilo que antes defendia.
A memória não pode ser tratada como um inconveniente que desaparece a cada eleição.
O deputado Vicente Silveira compreenderia perfeitamente essa situação. Conhecia o tabuleiro político e não se surpreendia com a movimentação das peças. Talvez examinasse as fotografias com seus inseparáveis óculos de meia-lua, procurando identificar os interesses e as circunstâncias que aproximaram personagens tão diferentes.
Não me atrevo a imaginar o que diria. Os mortos merecem respeito, inclusive o direito de não receber frases inventadas em seu nome.
Mas uma coisa aprendi acompanhando políticos como Vicente: as mudanças de posição fazem parte da vida pública; o que merece atenção são as explicações oferecidas para justificá-las.
Magno Malta tem todo o direito de escolher seus aliados, rever convicções e mudar de companhia. O eleitor, por sua vez, conserva o direito de recordar suas escolhas anteriores.
E, nesse particular, as fotografias prestam um serviço extraordinário à memória.
As nuvens mudam de forma, como Vicente Silveira gostava de lembrar.
As fotografias, não.
Marcelo Rossoni é jornalista, escritor, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas.