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Quando The Economist fala, os banqueiros brasileiros sentem-se compreendidos

03/07/2025 00:03
Quando The Economist fala, os banqueiros brasileiros sentem-se compreendidos
*Por Marcelo Rossoni A capa da The Economist poderia muito bem ter saído do boletim semanal de uma gestora de ativos de Alphaville: “Lula perdeu importância global”. Seria cômico, se não fosse trágico — ou melhor, é trágico e cômico ao mesmo tempo. A revista inglesa, outrora respeitada como voz ponderada do liberalismo mundial, hoje se assemelha cada vez mais a uma assessoria de imprensa não oficial do mercado financeiro tupiniquim. É como se os editores britânicos escrevessem olhando para os gráficos do Ibovespa, ouvindo sussurros nervosos de executivos em brunches da Faria Lima, e confundindo os desejos de banqueiros brasileiros com diagnósticos geopolíticos sérios. Segundo a publicação, Lula já não é mais aquele “queridinho” dos fóruns multilaterais. A matéria diz que ele ficou isolado, fala sozinho nos encontros de cúpula e que sua política externa perdeu relevância. Tudo isso enquanto, ironicamente, o presidente brasileiro era homenageado em Paris, com direito a tapete vermelho, honrarias acadêmicas e louros diplomáticos. Mas vá tentar explicar uma nuance histórica à The Economist. A revista parece mais interessada em repetir o mantra preferido do andar de cima: “Lula é um problema para os negócios”. Sim, porque o verdadeiro pecado de Lula — aos olhos de parte da elite financeira que essa revista parece venerar — não é seu suposto “isolamento internacional”. O pecado mortal é outro: ele ganhou três eleições presidenciais sem pedir bênção aos banqueiros do Brasil. Ele fala em taxar os super-ricos. Questiona os juros estratosféricos com a audácia de quem conhece o preço do feijão. E, horror dos horrores, acha que o Banco Central deve servir ao país e não ao humor da B3 e da Faria Lima. A matéria da Economist finge neutralidade britânica, mas transpira ansiedade de consultor de investimento no fim de trimestre. Traz um retrato enviesado do Brasil, como se o peso diplomático de um país pudesse ser medido apenas pela quantidade de selfies com artistas famosas. Ignora completamente os movimentos que Lula vem fazendo para fortalecer os BRICS, aproximar o Sul Global e discutir novas formas de governança mundial. Afinal, para a redação em Londres, o mundo ainda gira ao redor de Davos — e quem não se curva às ordens do FMI está, automaticamente, “fora do jogo”. Mas o jogo é outro. E, ao que tudo indica, The Economist está jogando para a torcida do mercado — aquela mesma que suspira por reformas administrativas, flexibilizações trabalhistas e presidentes que falem inglês com fluência. Lula, com sua dicção popular e seu vocabulário direto, incomoda porque lembra que há vida política além dos ciclos de reunião do Copom. Incomoda porque se recusa a pedir licença para existir. Enquanto a revista destila desprezo editorial, a França estende a mão com elegância republicana. Em junho, Lula foi homenageado pela Academia Francesa — aquela mesma que já celebrou luminares como Nelson Mandela e que havia condecorado apenas um outro brasileiro antes: Dom Pedro II. Um gesto simbólico, que reconhece não apenas o papel de Lula como líder político, mas também como figura cultural, com influência global no debate sobre desigualdade, clima e desenvolvimento. Sim, Lula: o nordestino sem diploma, que venceu a fome antes de combater a inflação. Mas para The Economist, nada disso importa. O que conta são os “fundamentos macroeconômicos”. Para a revista, relevância global é não criticar Israel, apoiar sanções econômicas contra países do Sul e repetir as mesmas ladainhas sobre “reformas estruturais” que garantem bônus para diretores de bancos. Um presidente que ousa questionar o Banco Central ou que defende o fim do dólar como moeda hegemônica não é um estadista: é um problema de governança. E por isso, talvez, a matéria da revista inglesa seja mais reveladora do que pretende. Ela não fala apenas sobre Lula — ela escancara o desespero das elites financeiras diante de um mundo em transição. Um mundo em que países do Sul Global pedem mais voz. Um mundo em que presidentes eleitos por pobres desafiam os ditames do mercado. Um mundo em que a ordem liberal, que The Economist tanto se esforça por defender, já não é mais aceita como dogma. O editorial britânico é, no fundo, uma carta de saudade. Uma carta melancólica de quem se lembra com afeto dos tempos em que o Brasil era governado por tecnocratas discretos, adoradores de metas de inflação e frequentadores de think tanks em Washington. Para essa turma, Lula é um anacronismo intolerável. Um erro de cálculo do povo brasileiro. Um populista com ideias próprias. Um tropeço na narrativa do “Brasil liberal e reformista”. Mas o Brasil é mais complexo que isso. E Lula, gostem ou não os editores de Londres, continua sendo ouvido, reverenciado e respeitado em muitos lugares onde The Economist jamais pisará. Seja nos corredores da ONU, nos fóruns do G7 ou nas universidades africanas que leem seu nome com reverência. Ele representa algo que não cabe nas planilhas da City londrina: a teimosia de um país que insiste em não ser colônia. No fim das contas, a The Economist pode continuar escrevendo para os banqueiros — talvez sejam eles os únicos ainda dispostos a pagar assinatura. Enquanto isso, Lula seguirá fazendo política para quem realmente precisa dela: os que não entendem de câmbio, mas sabem muito bem o preço da carne e não pagam IOF.
*Marcelo Rossoni é jornalista
 
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