*Por Marcelo Rossoni
O Partido dos Trabalhadores (PT) vive um momento de evidente retração no Espírito Santo. Embora atualmente conte com figuras de expressão na política estadual e nacional, o partido chega a 2026 sem um nome viável para disputar o Palácio Anchieta, e caminha para assumir papel coadjuvante na sucessão do governador Renato Casagrande (PSB). A falta de uma liderança com densidade eleitoral, aliada ao desempenho frágil nas urnas nos últimos pleitos, aponta para um cenário em que os petistas deverão priorizar alianças.
Atualmente, o PT conta com sete nomes relevantes na política institucional: o senador Fabiano Contarato, a deputada federal Jack Rocha, o deputado federal Helder Salomão, e os deputados estaduais João Coser e Iriny Lopes e a combatente vereadora Karla Coser. O militante Perly Cipriano, atualmente sem mandato, é um nome de respeito no âmbito da estrela vermelha de cinco pontas.
A presença parlamentar, embora sólida, não se converteu em protagonismo eleitoral. O resultado mais simbólico dessa limitação veio nas eleições municipais de 2024, quando João Coser, ex-prefeito de Vitória por dois mandatos e hoje deputado estadual, teve uma performance considerada decepcionante ao tentar retornar ao cargo de chefe do Executivo da capital. Com um histórico de gestão bem avaliada e trânsito político consolidado, Coser ficou com uma votação irrisória, que acendeu o sinal vermelho dentro do partido.
O fraco desempenho de Coser não foi um ponto fora da curva, mas sim parte de uma tendência mais ampla de perda de influência do PT no Espírito Santo. Em Cariacica, por exemplo, o deputado federal Helder Salomão — que já comandou a prefeitura da cidade — faz um mandato discreto na Câmara Federal. Sua base política, tradicionalmente forte em Cariacica, hoje se vê ameaçada pelo avanço da gestão municipal do prefeito Euclério Sampaio (MDB), que vem sendo elogiada tanto por aliados quanto por adversários. Apelidado de “trator” por seu estilo direto e voltado à execução, Euclério mina, aos poucos, o espaço que Helder já ocupou com protagonismo na política da região.
No Senado, Fabiano Contarato segue como o nome de maior projeção do PT no Espírito Santo. Eleito em 2018 com mais de 1 milhão de votos — ainda pela Rede Sustentabilidade —, filiou-se ao PT em 2021 e rapidamente tornou-se um dos principais porta-vozes da legenda em Brasília. Com atuação destacada na pauta dos direitos humanos, segurança pública e combate à violência de gênero, Contarato consolidou sua imagem como político técnico, combativo e articulado. No entanto, o próprio senador já dá sinais de que seu foco em 2026 será a tentativa de reeleição, e não uma aventura rumo ao governo estadual.
Jack Rocha, por sua vez, é um dos quadros em ascensão. Primeira mulher petista eleita deputada federal pelo Espírito Santo em mais de duas décadas, tem buscado espaço na Câmara com atuação voltada a políticas educacionais, defesa das mulheres e inclusão social. Apesar do perfil promissor, ainda enfrenta os desafios naturais de quem está em primeiro mandato: pouca capilaridade, baixa estrutura de mobilização e visibilidade ainda restrita a nichos ideológicos. Seu crescimento futuro dependerá da capacidade do PT de articular uma base renovada, o que até agora não se desenha no horizonte imediato.
Iriny Lopes, deputada estadual e ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, que no governo Dilma tinha status de ministério, segue como figura histórica dentro do partido, com atuação coerente nas pautas de minorias e movimentos sociais. No entanto, seu capital eleitoral parece ter atingido um teto, e a própria Iriny deverá buscar a reeleição para a Assembleia Legislativa, sem grandes ambições para além disso.
Diante da ausência de um nome competitivo para o governo, o PT deverá repetir a estratégia adotada em 2022: compor com forças aliadas. A relação com o PSB de Casagrande é central nesse movimento. Desde o segundo turno das eleições de 2018, quando Casagrande se elegeu com apoio do PT mesmo com Lula preso, os socialistas e petistas caminham juntos no estado. Em 2022, a aliança foi mantida, e o partido conseguiu emplacar quadros técnicos em espaços estratégicos do governo estadual.
Com a impossibilidade de reeleição de Casagrande, abre-se um vácuo de liderança no campo da centro-esquerda.
O PSB, que ainda tenta decidir seu candidato à sucessão, deverá puxar a cabeça de chapa com apoio de partidos da base lulista, como PT, PCdoB e PV. Há, inclusive, quem defenda que o PT pleiteie a vaga de vice na chapa encabeçada por Ricardo Ferraço ou uma vaga ao Senado em uma chapa majoritária conjunta. Seria uma maneira de manter relevância sem arriscar um voo solo fadado ao fracasso.
A aposta em alianças, porém, tem um custo: a perda de identidade e protagonismo. O PT capixaba tornou-se, nos últimos anos, um partido que ocupa espaço institucional, mas sem mobilização popular. Nas periferias da Grande Vitória e nos antigos redutos da esquerda, como Serra e Cariacica, o partido perdeu espaço para siglas de centro e até de direita que ocuparam o vácuo deixado por anos de retração e disputas internas.
A dificuldade de apresentar novos nomes é um problema que atinge o PT em todo o país, mas no Espírito Santo ele é particularmente grave. A federação Brasil da Esperança — que reúne PT, PCdoB e PV — até agora não conseguiu formar lideranças jovens com apelo eleitoral. O resultado é uma dependência de figuras tradicionais como Coser, Iriny e Hélder, todos já com décadas de vida pública.
Sem uma política clara de formação de quadros e sem investimento real em comunicação com a juventude e os novos movimentos sociais, o PT corre o risco de continuar sendo um partido de mandatos, e não de militância. Um partido que atua com competência no Legislativo, mas não empolga no voto direto.
A eleição de 2026 deve consolidar o papel do PT capixaba como força de apoio. A expectativa é manter as duas cadeiras na Câmara Federal — hoje ocupadas por Helder Salomão e Jack Rocha — e uma no Senado com Fabiano Contarato e, com esforço, ampliar a representação na Assembleia Legislativa. Tudo dependerá, no entanto, da capacidade do partido de reestruturar sua base, conectar-se novamente com o eleitorado e não perder mais espaço para legendas como PSD, Republicanos e MDB, que já se articulam para herdar o espólio de Casagrande.
No fim das contas, a ausência de um nome para disputar o governo não é só um sinal da limitação eleitoral do partido. É também reflexo de um esvaziamento político e simbólico que precisa ser enfrentado com coragem e planejamento. Caso contrário, o PT seguirá presente, mas silencioso — um coadjuvante de luxo, com prestígio institucional, mas sem ambição real de voltar ao centro do tabuleiro.
*Marcelo Rossoni é jornalista