O Partido dos Trabalhadores avança na consolidação de sua estratégia para a eleição de 2026 no Espírito Santo com uma diretriz clara e já assimilada internamente: disputar os principais cargos com candidaturas próprias, no âmbito da federação formada com PCdoB e PV. A decisão reflete uma leitura política segundo a qual, diante de um cenário marcado por alianças instáveis e compromissos voláteis, preservar identidade partidária e controle do palanque tornou-se um ativo central.
No campo majoritário, o deputado federal Helder Salomão aparece como o principal nome do PT para a disputa ao governo do Estado. Em 2022, Helder foi o parlamentar mais votado do partido para a Câmara Federal no Espírito Santo, com 120.337 votos, resultado que consolidou sua posição como uma das principais lideranças petistas no cenário estadual. A avaliação interna é de que ele reúne densidade eleitoral, trajetória partidária e capacidade de diálogo com a base social tradicional do partido.
Para o Senado, o nome trabalhado é o do senador Fabiano Contarato, eleito em 2018 e considerado competitivo para uma nova disputa majoritária. Dirigentes avaliam que Contarato mantém alto grau de reconhecimento junto ao eleitorado e alinhamento consistente com o projeto nacional liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Na disputa proporcional para a Câmara dos Deputados, o PT pretende não apenas manter, mas qualificar sua bancada. Jack Rocha, eleita em 2022 com 51.317 votos, ocupa papel central nessa estratégia. Sua eleição teve caráter histórico ao torná-la a primeira mulher negra eleita deputada federal pelo Espírito Santo, ampliando sua projeção política e fortalecendo sua conexão com movimentos sociais e setores urbanos do eleitorado progressista.
Outro nome tratado internamente como competitivo é o de Iriny Lopes, que deverá disputar a reeleição para a Assembleia Legislativa. Na eleição de 2022 para deputada estadual, Iriny obteve 36.720 votos, desempenho considerado expressivo pelo partido. A leitura interna é de que a votação revela base eleitoral consistente, capilaridade territorial e fidelidade partidária, atributos que a colocam entre os nomes com maior potencial de êxito em 2026.
Na Assembleia Legislativa, o atual deputado estadual João Coser, que recebeu 58.279 votos em 2022, deverá disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. A movimentação é interpretada como parte da estratégia de fortalecer a bancada federal petista, aproveitando sua votação consolidada e presença regional.
No plano municipal, o partido também observa com atenção o desempenho de lideranças que despontam como reservas estratégicas para 2026. A vereadora Carla Coser, da Câmara Municipal de Vitória, é tratada como um desses nomes. Eleita em 2024 com 7.256 votos, Carla foi a vereadora mais votada da história da capital, resultado que consolidou sua posição como liderança emergente do partido. Internamente, é avaliada a possibilidade de que venha a disputar uma vaga de deputada estadual, movimento considerado viável em um cenário de fortalecimento da chapa petista.
A composição desenhada pelo PT privilegia lideranças com trajetória conhecida, votação comprovada e identidade partidária clara. A federação com PCdoB e PV funciona como instrumento jurídico e organizacional, mas a condução política do projeto permanece concentrada no PT, que busca reduzir ambiguidades no discurso e minimizar riscos de desalinhamento no pós-eleição.
A decisão de apostar em uma chapa própria está ancorada, também, na experiência recente do partido. Dirigentes avaliam que alianças amplas podem gerar ganhos táticos durante a campanha, mas frequentemente produzem instabilidade e conflitos no período posterior às eleições, sobretudo quando envolvem atores com histórico de posições contraditórias.
Nesse contexto, permanece viva, no debate interno do partido, a memória do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016. O episódio é tratado como um marco de ruptura política profunda e segue influenciando a forma como o PT avalia alianças e compromissos eleitorais, especialmente com setores que, à época, se posicionaram favoravelmente ao afastamento da então presidente.
Outro eixo central da estratégia é a intenção de assegurar palanque próprio para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Espírito Santo. A avaliação interna é de que depender de alianças heterogêneas pode comprometer a coerência do discurso e reduzir a previsibilidade do apoio político. Ao lançar candidaturas próprias ao governo, ao Senado e às disputas proporcionais, o PT busca garantir alinhamento mais consistente com o projeto nacional.
Com isso, o partido sinaliza que chega à eleição de 2026 menos disposto a ampliar o arco de alianças e mais concentrado em preservar identidade, unidade e previsibilidade política. Não se trata de isolamento, mas de uma escolha estratégica baseada na experiência recente e na leitura de que, no próximo ciclo eleitoral, o controle do palanque e do discurso tende a pesar mais do que a soma circunstancial de apoios.
Marcelo Rossoni é jornalista