Terça-feira, 20 de Outubro de 2026 | 16h59m
Vitória News — Um jornal de verdade
Torre de Papel
Círculo do Poder

Pobre de direita

19/06/2025 08:32
Pobre de direita
Por Marcelo RossoniO falecido cantor e compositor Tim Maia já sentenciava: “este país não pode dar certo: aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita. ”Poucas frases traduzem tão bem o paradoxo da política brasileira. E quem se debruça com profundidade sobre esse fenômeno é o sociólogo e escritor Jessé de Souza, autor de O Pobre de Direita: A Vingança dos Bastardos. No livro, ele analisa o comportamento conservador de parte significativa da população pobre como um mecanismo de defesa contra o racismo estrutural e as humilhações cotidianas.O também sociólogo Roger Bley recorre a uma frase de Paulo Freire que ajuda a entender esse desvio: “raros são os camponeses que, ao serem promovidos a capatazes, não se tornam mais duros opressores de seus antigos companheiros do que o patrão mesmo. ” A identificação com o opressor, nesse caso, parece oferecer alívio simbólico — mesmo que ilusório — diante de uma estrutura social que insiste em manter os de baixo no chão.Apesar de figurar entre as maiores economias do mundo, o Brasil é, na prática, um país pobre. Comparado às nações do hemisfério Norte, chega a parecer indigente. Seu maior programa social é o Bolsa Família — demonizado por Bolsonaro e sua turma, mas revitalizado no governo Lula. O programa foi responsável por tirar o Brasil do Mapa da Fome, segundo relatório da ONU.Mesmo assim, a renda domiciliar per capita no país em 2024 foi de apenas R$2.069,00 por mês, de acordo com o IBGE — pouco mais do que o salário mínimo bruto, em 2025, R$1.518,00. É nesse contexto que floresce o fenômeno do “pobre de direita”, um dos mais surreais produtos da sociedade brasileira. Trata-se de um grupo que apoia políticos e políticas que ferem frontalmente seus próprios interesses, favorecendo as elites que os exploram. Esse comportamento contraditório é alimentado por mecanismos de manipulação ideológica que usam o racismo, o moralismo e a criminalização da pobreza para dividir os desavisados. O conceito de “pobre de direita” vai muito além do voto em partidos conservadores: ele expressa um conjunto complexo de valores sociais, religiosos e culturais que moldam a percepção política de parte das classes populares.Por isso, é simplista dizer que esse cidadão vota “contra si mesmo”. O que está em jogo é um sistema simbólico em que segurança, ordem, moralidade religiosa e ódio ao “outro” — especialmente o negro, o nordestino, o favelado e o imigrante pobre — são mais mobilizadores do que qualquer projeto de justiça social.Enquanto a atenção pública se concentra na figura do “delinquente”, as políticas neoliberais seguem destruindo direitos, precarizando o trabalho e desmontando a proteção social. A cada corte de verba ou reforma regressiva, mais brasileiros são empurrados à vulnerabilidade.Importante notar que esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Os “pobres de direita” proliferam mundo afora, encantados com figuras como Bolsonaro e Javier Milei — mestres em vender ilusões pelas redes sociais.É o mesmo tipo de fé cega do fiel que vai ao culto acreditando no pastor que promete casa, carro e bênçãos em troca do dízimo e ofertas. Um autoengano confortador.No fim das contas, ser pobre de direita é como ser o peru que toma pinga na véspera do Natal achando que vai participar da festa. Ele estará é no cardápio.
*Marcelo Rossoni é jornalista
Compartilhe este post