*Por Marcelo Rossoni
Portugal redescobriu a velha arte de complicar a vida dos outros — especialmente daqueles que falam como ele. O país que um dia exportou caravelas e saudades agora exporta burocracia e xenofobia de luva branca. Desde que decidiu apertar o torniquete da imigração, os imigrantes — sobretudo os brasileiros — perceberam que a “irmandade lusófona” é como pastel de nata: doce no discurso, indigesta na prática.
As novas regras de residência e naturalização — mais longas, mais caras e mais confusas — revelam o desconforto de um país que, cansado de ser periferia da Europa, resolveu brincar de metrópole. Notifica dezoito mil estrangeiros para sair, reescreve leis, complica vistos e chama isso de “reorganização”. No meio do expurgo, milhares de brasileiros — pedreiros, garçons, designers, enfermeiras — descobrem que a antiga “mãe-pátria” tem menos paciência do que uma fila no SEF.
O SEF, o lendário Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, tornou-se célebre não pela eficiência, mas pela lentidão quase contemplativa com que tratava cada pedido de residência — como se a espera fosse uma forma de purificação. Após escândalos e atrasos, o governo decidiu extingui-lo e criar a AIMA, Agência para a Integração, Migrações e Asilo. A mudança foi simbólica: trocou-se o nome, manteve-se a fila.
Eis a contradição perfeita: o país que atravessou oceanos tropeça agora em protocolos digitais. O mesmo Portugal que se exibe com o selo europeu foi, por séculos, o retrato da emigração. Nos arquivos de consulados da França, da Suíça e do Brasil, o sobrenome mais comum entre os sonhadores ainda é Silva. Só que, agora, o país que fugia da fome ergue muralhas contra os que fogem da sua.
Há quem diga que os brasileiros escolhem Portugal por preguiça linguística. Pode ser. Entre aprender italiano, espanhol ou francês e arriscar-se num “bom dia” compreensível, a segunda opção sempre pareceu mais segura. O problema é que o português falado em Lisboa soa, para muitos brasileiros, como uma escultura barroca — bela, mas impossível de decifrar. Às vezes é mais fácil entender um espanhol apressado do que um lisboeta de humor variável. O idioma comum aproxima — mas só até o primeiro mal-entendido.
Falar português em Portugal é descobrir que as palavras não garantem o sentido. O “comboio” não leva ao mesmo destino do “trem”, o “fato” não veste o mesmo corpo do “terno” e o “bicha” não é insulto — é fila. Tudo se parece, nada é igual. Como nas famílias antigas, a intimidade só aumenta a confusão.
É neste idioma de espelhos, ora doce, ora cortante, que repousa a alma da língua. De Camões a Eça de Queirós, de Ramalho Ortigão a Machado de Assis, de Castro Alves a Guimarães Rosa, a palavra portuguesa aprendeu a rir da própria dor. Adélia Prado, com sua espiritualidade terrosa e linguagem de revelação, e Veríssimo, com o humor das entrelinhas, provam que o idioma ainda respira poesia e ironia. E há, acima de todos, Chico Buarque — o maior escritor e poeta vivo da língua portuguesa —, que transforma até a melancolia em música, a dor em harmonia e o desencanto em beleza.
Além disso, o português europeu é literal até a medula. Leva tudo ao pé da letra, como se cada frase viesse acompanhada de manual. Diga “volto já” e ele entende “em segundos”; diga “pode ser amanhã?” e ele anota no calendário; diga “dá para resolver isso rápido?” e ele pedirá uma definição formal de “rápido”. É um idioma que não admite metáforas — prefere instruções.
E, no trato cotidiano, há uma arrogância discreta, histórica, quase imperial. Muitos portugueses olham para os brasileiros com aquele ar de quem desembarcou em 1500 e nunca fez check-out. A gentileza vem com manual, o sorriso é ensaiado e o sotaque brasileiro, para alguns, soa como desafinação cultural. É o olhar do velho conquistador diante do súdito insolente que ousou prosperar.
E é nesse teatro da semelhança que ecoa a voz de Maria da Conceição Tavares — saudosa economista e professora que dizia ter nascido “numa periferia da Europa”. Filha de um império exausto, ela entendeu cedo que seu país nunca foi o centro de nada, apenas a moldura dourada de um mapa alheio. Ao chegar ao Brasil, reconheceu o mesmo vício em escala continental: elites colonizadas, economia dependente e a crença ingênua de que o progresso sempre vem de fora.
Conceição Tavares via o mundo em camadas: o centro que decide, a periferia que obedece. E, de certa forma, Portugal nunca saiu da segunda categoria — apenas trocou de patrão. Entrou na União Europeia como quem entra num condomínio de luxo: com o orgulho da entrada e a ansiedade de quem sabe que nunca será o síndico.
Talvez por isso trate seus imigrantes com zelo defensivo, como quem protege um status ainda frágil. A rigidez migratória é o verniz de um país que quer parecer primeiro-mundo, mesmo continuando a viver de turismo, aposentados estrangeiros e vinhos bons demais para o próprio orçamento.
Enquanto isso, os brasileiros — teimosos e exaustos — insistem em ver Portugal como refúgio, não como espelho. Chegam com o sotaque aberto e encontram portas discretamente fechadas. O Brazuca, como o nativo chama o imigrante tropical, descobre que o salário de garçom não paga o quarto em Benfica e que a saudade é cara quando cotada em euros.
Há nisso tudo um humor quase involuntário: o Brasil ainda abriga mais de cem mil portugueses, muitos envelhecidos e bem-vindos, vivendo sob o mesmo sol que um dia inspirou seus avós a zarpar. O país, que jamais pediu visto a Camões, é hoje mais generoso com Portugal do que Portugal com o Brasil. Até os editais de concursos públicos costumam lembrar disso ao dizer que podem se inscrever “brasileiros, portugueses e estrangeiros naturalizados”. Nenhum ressentimento, apenas a velha cordialidade tropical aplicada.
Talvez a própria língua portuguesa seja o melhor retrato dessa contradição. Apresenta-se como ponte, símbolo de união entre povos, mas age como espelho: reflete as diferenças, multiplica os mal-entendidos e devolve, polida, a imagem de uma fraternidade que nunca existiu por inteiro.
A diferença é que, por aqui, ninguém finge ser centro. A periferia é assumida, cantada em samba, discutida em bar. Lá, veste terno europeu e posa de fronteira civilizacional. É o velho complexo de vira-lata, agora em versão atlântica.
No fundo, Portugal e Brasil continuam ligados pelo mesmo fio de dependência que Conceição Tavares cortou com palavras afiadas: a ilusão de que a dignidade vem do outro lado do mar. Um ainda sonha em ser europeu; o outro, em ser aceito pela Europa. Ambos esquecem que falam a língua de um império falido — e ainda assim acreditam que isso lhes dá passaporte moral.
Talvez, se houvesse menos culto à “lusofonia” e mais honestidade sobre o que ela significa — uma fraternidade com alfândega —, as relações seriam mais simples. Mas isso roubaria o charme melancólico de nações que sobrevivem entre a nostalgia e a autonegação.
E assim seguimos: portugueses que se dizem europeus, brasileiros que se acham quase europeus, e uma língua que finge ser ponte enquanto é espelho. No fim, todos continuamos, como dizia Conceição, moradores da periferia — uns da Europa, outros da esperança.
*Marcelo Rossoni é jornalista