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Paulo Freire e o terrível perigo de ensinar a pensar

15/09/2025 00:01
Paulo Freire e o terrível perigo de ensinar a pensar
*Por Marcelo Rossoni Paulo Freire afirmava: “Não sou apenas objeto da história, mas seu sujeito igualmente. No mundo da história, da cultura, da política, constato não para me adaptar, mas para mudar.” Essa convicção resume o cerne de sua obra e também explica parte da controvérsia que a cerca. Propor que a educação seja instrumento de reflexão crítica e transformação social, e não apenas de despejo de conteúdos, é exatamente o que incomoda tantos críticos — e, ao mesmo tempo, é o que torna seu legado tão estudado mundo afora.Paulo Freire é, provavelmente, um dos poucos brasileiros cuja obra é mais estudada fora do país do que dentro dele. Enquanto universidades estrangeiras o incluem em currículos e práticas de ensino, parte expressiva da direita brasileira cultiva contra ele uma aversão quase épica. A biografia é obra de Ana Maria Araújo Freire, Uma História de Vida, publicada em 1988 e traduzida para diversos idiomas, oferece uma visão completa de sua trajetória e das ideias que ainda provocam debates acalorados. Curioso, não? Em muitos países, seu nome é referência obrigatória para pensar a educação, mas por aqui ele é acusado de “atrasar” o ensino — e, segundo alguns, de causar o fracasso escolar internacional. Se fosse assim tão simples, bastaria queimar seus livros em praça pública, afinal, eles parecem ter o mesmo efeito de um vírus mortal.Essa hostilidade não é casual. Paulo Freire ousou propor algo desconcertante: que a educação não se limitasse a despejar conteúdos na cabeça do aluno, mas promovesse consciência crítica, diálogo e leitura do mundo. Ora, se o estudante aprende a ler não apenas palavras, mas também a realidade social, econômica e política em que vive, há sempre o risco de questionar hierarquias, privilégios e estruturas de poder. Para setores conservadores, acostumados à disciplina escolar como mera reprodução de autoridade, isso soa quase subversivo. Muito mais seguro é que a criança decore fórmulas sem se perguntar por que o esgoto não chega ao bairro dela ou desenhe a bandeira nacional sem investigar por que a renda se concentra em tão poucas mãos. E assim, o pensamento crítico, essa ameaça silenciosa, vira um “perigo” para quem prefere repetir receitas prontas a refletir sobre o mundo.A direita brasileira transformou Paulo Freire em um espantalho conveniente. Quando os índices de alfabetização não avançam, culpa-se o pedagogo. Quando professores denunciam salários baixos e condições precárias, a responsabilidade, novamente, recai sobre ele. Se a escola pública enfrenta prédios caindo aos pedaços, cozinhas sem merenda e bibliotecas inexistentes, o culpado, claro, é o “patrono da educação”. Trivial, não? Um expediente engenhoso: evita-se discutir políticas públicas sérias, investimentos em infraestrutura e valorização docente, jogando tudo na conta de um único homem. Paulo Freire virou bode expiatório universal sem jamais ter ocupado o Ministério da Educação por um único dia.No exterior, o retrato é outro. Seus métodos inspiraram práticas de ensino comunitário em áreas de vulnerabilidade social. Suas ideias ajudaram programas de alfabetização em países recém-independentes. Seu pensamento é referência em debates sobre educação inclusiva e formação cidadã. O contraste é revelador: enquanto a direita brasileira acusa Freire de “atrasar” o ensino, instituições internacionais o reconhecem como um dos maiores educadores do século XX. Um paradoxo tropical: o brasileiro que mais contribuiu para a reflexão pedagógica mundial é tratado aqui como inimigo da nação. O incômodo da direita se deve menos ao conteúdo da obra freireana e mais ao símbolo que ela representa. Paulo Freire esteve ligado a movimentos populares, alfabetizou trabalhadores rurais, dialogou com comunidades pobres e defendeu que a escola deveria ser instrumento de libertação, não de domesticação. Para quem entende educação como adestramento para o mercado de trabalho, essas ideias soam como afronta. Imaginem só a irritação de um professor que trata o aluno como sujeito de direitos e não apenas como futuro consumidor.A ironia maior é que, apesar do barulho, poucos dos que atacam Paulo Freire parecem tê-lo lido. O que se repete é um mantra raso: ele defendeu “doutrinação ideológica”, sua pedagogia seria responsável pelo fracasso escolar, seria autor ultrapassado. Uma leitura atenta, porém, revela o oposto: um convite constante ao diálogo, à escuta e à participação ativa do educando. Mas por que perder tempo folheando livros quando é muito mais fácil moldar caricaturas? Assim, a crítica a Freire tornou-se exercício de negação automática, quase um esporte nacional, em que a razão cede espaço ao slogan.Talvez o segredo dessa aversão seja o medo. A direita teme não Paulo Freire em si, mas que sua pedagogia seja levada a sério. Teme que a escola, em vez de reproduzir desigualdades, forme cidadãos capazes de questioná-las. Teme que a sala de aula deixe de ser espaço de obediência cega e se torne lugar de participação e construção coletiva. Em última instância, teme que a educação cumpra o papel que o próprio Freire lhe atribuía: transformar o mundo.É claro que essa transformação não é mágica nem repentina. O próprio Freire dizia que a pedagogia do oprimido não é manual de revoluções, mas processo de conscientização gradual. O perigo não está em um golpe pedagógico que derrube governos, mas no silencioso empoderamento de indivíduos que aprendem a não aceitar como “natural” o que sempre lhes disseram ser inevitável. Um trabalhador que entende por que seu salário não aumenta; uma estudante que percebe as razões estruturais da violência; uma comunidade que identifica as engrenagens da exclusão social. Contra esse tipo de percepção, discursos moralistas e bandeiras agitadas no pátio da escola parecem tão úteis quanto varrer o mar com vassoura.No fim das contas, a ojeriza da direita a Paulo Freire é uma declaração involuntária de sua importância. Se não fosse relevante, bastaria ignorá-lo. Mas o ódio insistente, a necessidade de citá-lo em cada debate sobre educação e a ânsia de culpá-lo por todos os males da escola pública revelam justamente o contrário: Paulo Freire continua atual. Sua obra incomoda porque aponta para possibilidades que ainda assustam aqueles que preferem ordem ao diálogo, obediência à crítica, repetição ao pensamento.Enquanto o Brasil discute se deve ou não reverenciar o patrono de sua educação, universidades do mundo inteiro estudam sua obra, aplicam suas ideias e reconhecem sua genialidade. Talvez um dia descubramos a ironia: ter produzido um dos maiores educadores da história e, em vez de celebrá-lo, tratá-lo como inimigo público. Até lá, seguiremos nessa contradição: exportando Paulo Freire como referência mundial e importando, para consumo interno, caricaturas tão malfeitas que mais parecem artesanato de quinta categoria.

*Marcelo Rossoni é jornalista

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