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Os piratas de Ormuz

22/04/2026 08:19
Os piratas de Ormuz

Por Marcelo Rossoni *

A história tem dessas ironias que não pedem licença — apenas se repetem com figurino novo.

No século XVII, enquanto as coroas ibéricas organizavam com zelo quase religioso o transporte de riquezas das Américas, havia sempre alguém à espreita no meio do caminho. Não era acidente de percurso. Era método. As naus espanholas e portuguesas saíam carregadas de ouro, prata, açúcar e madeira de lei. E, no meio do Atlântico, cruzavam com figuras menos interessadas em geografia e mais em oportunidade.

Do lado inglês, a linha entre pirata e servidor da Coroa era, digamos, flexível. Bastava uma assinatura real para transformar o saque em estratégia. O mais célebre desses personagens, Sir Francis Drake, não apenas atacava navios espanhóis — fazia isso com o respaldo da rainha. Em Londres, herói. Em Madri, bandido. Tudo depende do ponto de vista — e da bandeira hasteada no mastro.

Vieram depois outros nomes que dispensavam apresentações mais longas do que suas próprias histórias permitiam. Edward Teach, o Barba Negra, que transformava a própria aparência em arma psicológica; Bartholomew Roberts, que capturou navios em escala quase industrial; Henry Every, que protagonizou um dos maiores saques da história; e William Kidd, o sujeito que saiu para caçar piratas e acabou promovido — pelo método mais direto — a um deles.

Não se tratava de desorganização. Era, no fundo, uma política externa com sotaque marítimo.

O Atlântico funcionava como uma espécie de pedágio involuntário: quem passava carregado corria o risco de contribuir — à força — para o equilíbrio de poder europeu. A diferença entre roubo e guerra, naquele contexto, era uma questão semântica. E, como toda boa semântica, resolvida pelos vencedores.

Avance alguns séculos.

O cenário muda, a tecnologia evolui, os navios já não rangem madeira sob o vento — mas o princípio permanece surpreendentemente familiar. Nas proximidades do Golfo de Ormuz, um dos corredores energéticos mais sensíveis do planeta, navios que partem do Irã com petróleo enfrentam um novo tipo de abordagem. Desta vez, não há bandeiras negras com caveiras, nem barbas incendiadas para intimidar tripulações. Há radares, comunicações criptografadas e uniformes impecavelmente alinhados.

No comando, não estão aventureiros de reputação duvidosa, mas oficiais da Marinha dos Estados Unidos. A linguagem também evoluiu. Já não se fala em saque. Fala-se em “interceptação”, “apreensão”, “cumprimento de sanções internacionais”. O vocabulário ficou mais elegante. A prática, em certos aspectos, nem tanto.

Seria injusto — e historicamente impreciso — igualar contextos tão distintos sem ressalvas. Há, hoje, um arcabouço jurídico internacional, interesses geopolíticos explícitos e disputas que extrapolam o simples lucro imediato. Ainda assim, o paralelo se impõe, nem que seja pelo desconforto que provoca.

Antes, galeões carregados de ouro cruzavam o oceano sob risco constante de encontrar Drake e companhia. Hoje, petroleiros atravessam rotas estratégicas sabendo que podem cruzar com outra forma de poder naval — igualmente interessado em controlar o fluxo de riquezas.

Mudaram os nomes, mudaram os discursos, mudaram as justificativas.

Mas o mar, ao que tudo indica, continua sendo um excelente lugar para lembrar que, entre a legalidade e a conveniência, há sempre espaço para interpretação.

E talvez valha uma última ponderação, dessas que evitam atalhos fáceis: parte da população dos Estados Unidos tem, sim, raízes em degredados que passaram por prisões como a Newgate Prison. Isso, por si só, não transformou seus descendentes em criminosos. Transformou-os, no máximo, em herdeiros de uma história — como tantas outras — cheia de contradições.

No fim das contas, não são os antepassados que definem os métodos. São as circunstâncias. E, vez ou outra, as conveniências.


*Marcelo Rossoni é jornalista


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