*Por Marcelo RossoniAlfred Hitchcock filmou “Os Pássaros” em Bodega Bay, uma vila de aparência tranquila, onde os barcos permanecem imóveis na maré baixa e nada sugere ameaça. O efeito do filme nasce dessa calmaria inicial: quando acreditamos que o ambiente está sob controle, qualquer perturbação revela o quanto nossa ordem é mais frágil do que parece. A Grande Vitória não tem penhascos enevoados nem gaivotas cinematográficas, mas convive com uma sensação semelhante de normalidade estável, até que um detalhe desloca o olhar.Esse detalhe, aqui, não veio em bando. Veio sozinho. Um canário-da-terra pousou sobre o equipamento preparado para medir a poluição industrial — aquela poeira fina que donas de casa e faxineiras recolhem diariamente das varandas, móveis e áreas comuns, antes mesmo que boletins a reconheçam como problema. O aparelho estava calibrado, filtros esterilizados, metodologia definida. O canário observou a cena com a naturalidade de quem desconhece os protocolos e deixou ali um cocô. Um cocozinho, suficiente para comprometer o trabalho inteiro. O episódio, aparentemente anedótico, apenas lembrou que a vida não consulta planilhas.No filme, Melanie Daniels (Tippi Hedren) segue até a pequena Bodega Bay para encontrar Mitch Brenner (Rod Taylor) depois de um encontro carregado de pequenas vaidades numa loja de pássaros em San Francisco. Ela leva dois periquitos, conhecidos como pássaros do amor, como gesto que mistura charme e provocação. A partir daí, um bando de aves aparentemente enlouquecidas deixam de ser parte da paisagem e passam a se comportar como presença ativa, insistente e desestabilizadora. Hitchcock não oferece explicações; a natureza apenas age, e o ser humano tenta reagir depois.Aqui, o movimento também se deu de forma discreta. No conceituado hospital Santa Rita, referência no tratamento do câncer, levantou-se a suspeita de que pombos vinham utilizando áreas externas e estruturas próximas, favorecendo a presença de fungos que alcançaram os dutos de ventilação. Nada espetacular. Nenhuma revoada. Apenas a infiltração lenta de algo que se instala quando há frestas. As respostas vieram em notas e cronogramas, mas pombos não seguem decretos, e frestas não se fecham com discursos.A Grande Vitória ainda hesita em admitir que certos problemas não surgem de repente; formam-se aos poucos, no acúmulo do que se tolera porque parece pequeno. Veneza, na Itália, também demorou a perceber isso. Na Piazza San Marco, os pombos começaram como atração turística. Décadas depois, a cidade precisou lidar com monumentos corroídos, mármores comprometidos, restaurações caras e contínuas. A beleza permaneceu, mas sob convivência obrigatória, não controle.Por aqui não tem gôndolas deslizando sobre canais, mas tem um complexo industrial instalado no nordeste da Ilha, justamente onde sopram os ventos predominantes da mesma direção. O vento cumpre sua função natural: distribuir o pó sobre bairros inteiros. Quem limpa sabe disso antes de qualquer laudo. O relatório apenas confirma o que já se acumulou nos panos.Diante disso, não há solução individual. A Grande Vitória não é um conjunto de cidades isoladas, mas um território contínuo ligado pelo ar, pelo transporte e pela rotina compartilhada. Não faz sentido que cada município trate o problema das aves de forma separada, como se um pombo em Vila Velha anunciasse, ao cruzar a ponte, que passa a obedecer outra jurisdição.É um tema metropolitano e exige decisão metropolitana. Manejo adequado das aves, controle de áreas de abrigo, orientação pública e fiscalização coordenada são medidas simples quando tomadas cedo. Deixadas para depois, tornam-se reparo, e reparar é sempre mais caro do que prevenir.Quem quiser observar como o cinema retratou esse tipo de descontrole silencioso pode rever “Os Pássaros”, disponível para aluguel em plataformas como Amazon Prime Video, Apple TV e Google Play. A lição não está no ataque, mas na constatação de que a ordem humana depende de suposições que nem sempre se sustentam.Talvez estejamos no momento em que ainda se ri do canário. Mas a linha entre o riso e o desconforto é curta. A cidade gosta de acreditar que é construção humana — avenidas, projetos e planos urbanos — porém basta um pássaro pousar no lugar improvável para lembrar que não somos donos do cenário, apenas coabitamos nele.Se nada for feito com seriedade contínua, sem espetáculo e sem promessas antecipadas, não será necessário aguardar uma sequência. Ela já está em andamento.“Os Pássaros 2” — Agora Eles Só Estão Observando.*Marcelo Rossoni é jornalista.