Domingo, 9 de Agosto de 2026 | 16h51m
Vitória News — Um jornal de verdade
Círculo do Poder

Os bastidores da aliança Partido Liberal e Republicanos

12/07/2026 09:22
Os bastidores da aliança Partido Liberal e Republicanos

Por Marcelo Rossoni

A política tem um curioso hábito de esconder as decisões mais importantes justamente onde o eleitor menos olha. Enquanto os holofotes iluminam a sucessão do governador Renato Casagrande, as conversas realmente decisivas parecem ocorrer alguns passos adiante, longe dos microfones, em torno das duas vagas que o Espírito Santo terá para o Senado da República.

É ali que repousa a peça mais valiosa deste tabuleiro.

A aproximação entre o Partido Liberal (PL) e o Republicanos já ultrapassou a fase dos cumprimentos protocolares. Ainda não existe um anúncio oficial de casamento — e, em política, alianças costumam ser confirmadas apenas depois de assinadas. Antes disso, todos negam com a mesma convicção com que negociam. Mas os movimentos das duas legendas indicam que a conversa deixou de ser mera especulação para assumir contornos bastante concretos.

A conta, entretanto, é simples apenas na aparência.

O Republicanos chega à mesa fortalecido pelo desempenho administrativo do prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, hoje o principal ativo eleitoral do partido e nome naturalmente colocado para disputar o Palácio Anchieta. O objetivo da legenda é claro: transformar a boa avaliação na Capital em um passaporte para governar o Estado.

O PL, por sua vez, leva outro patrimônio para a negociação. Não governa Vitória, mas reúne um eleitorado conservador expressivo, disciplinado e fortemente identificado com suas principais lideranças, especialmente no segmento evangélico. É um capital político que dificilmente seria colocado à disposição de um aliado sem uma contrapartida proporcional.

É exatamente nesse ponto que o Senado deixa de ser um detalhe para se transformar na moeda mais valiosa da negociação.

Como os capixabas escolherão dois senadores em 2026, a matemática parece convidativa: uma vaga para cada partido, e todos sairiam da mesa convencidos de que fizeram um excelente negócio. Afinal, a política também possui suas leis de mercado. Quando todos dizem que ganharam, normalmente alguém fez uma concessão maior do que admite em público.

Foi nesse cenário que a filiação de Carlos Manato ao Republicanos alterou significativamente o desenho do tabuleiro. Ao ingressar na legenda, Manato não escondeu seu objetivo de disputar o Senado. Seu nome fortalece o partido, mas também amplia o desafio de acomodar interesses sem provocar rachaduras entre aliados que ainda nem oficializaram a fotografia da chapa.

Ao mesmo tempo, uma informação ajuda a dissipar outra dúvida. O deputado federal Da Vitória, segundo informou diretamente a este articulista, pretende disputar a reeleição para a Câmara dos Deputados. Se essa decisão permanecer até as convenções, praticamente retira seu nome das especulações para o Senado e permite ao Republicanos concentrar sua estratégia majoritária em torno de Pazolini e Manato.

A partir daí, o quebra-cabeça começa a ganhar forma.

O Republicanos ficaria com a candidatura ao Governo do Estado e com uma vaga ao Senado.

O PL, naturalmente, reivindicaria a outra cadeira. Não se trata de vaidade. Trata-se de lógica política. Partidos do tamanho do PL não costumam abrir mão da cabeça de chapa apenas para assistir ao desfile dos aliados. Apoio também tem preço, ainda que ninguém goste de chamá-lo por esse nome.

Nesse contexto, o nome de Maguinha Malta, filha do senador Magno Malta, surge como alternativa recorrente nos bastidores. Oficialmente, ninguém confirma. Extraoficialmente, poucos demonstram surpresa quando o assunto aparece. Nos meios políticos, prevalece a avaliação de que Magno Malta trabalha para viabilizar a candidatura da filha ao Senado e faz dessa pretensão uma das principais moedas de troca nas negociações com o Republicanos. Sem Maguinha na chapa, avaliam interlocutores, dificilmente haverá acordo.

Caso esse desenho prevaleça, a direita capixaba reduzirá um velho problema: a pulverização de candidaturas que frequentemente transforma adversários menores em beneficiários ocasionais. Unificada, a aliança amplia sua competitividade tanto para o Governo quanto para o Senado.

Os reflexos chegam, naturalmente, às eleições proporcionais.

Com Da Vitória buscando a reeleição, o Republicanos fortalece sua nominata para a Câmara dos Deputados. O PL faz o mesmo com sua própria chapa. Ambos aumentam as chances de ampliar suas bancadas em Brasília, objetivo que, muitas vezes, vale tanto quanto conquistar um cargo majoritário.

Mas toda aliança produz vencedores e também deixa alguns convidados sem lugar à mesa.

Quanto mais sólida se mostrar a união entre PL e Republicanos, menor será o espaço para candidaturas de centro-direita que apostavam justamente na divisão desse eleitorado. Na política, assim como na natureza, espaços vazios raramente permanecem desocupados por muito tempo.

Naturalmente, nada disso está escrito em pedra.

Convenções ainda serão realizadas. Pesquisas podem alterar estratégias. Brasília costuma emitir opiniões bastante convincentes quando o assunto envolve alianças estaduais. E, como ensina a experiência, a política brasileira possui uma notável capacidade de transformar o improvável em rotina e o definitivo em provisório.

Ainda assim, olhando apenas as peças hoje disponíveis sobre o tabuleiro, o roteiro parece ganhar contornos cada vez mais nítidos.

O Republicanos trabalha para conquistar o Governo do Estado.

Carlos Manato desponta como seu principal nome para o Senado.

Da Vitória concentra esforços na reeleição para a Câmara dos Deputados.

O PL busca preservar protagonismo na disputa ao senado, levando para a mesa um ativo eleitoral que pode valer muito mais do que costuma revelar.

No centro de toda essa engenharia permanece Lorenzo Pazolini, figura em torno da qual gravitam interesses, expectativas e negociações que ainda não chegaram ao conhecimento do eleitor.

Talvez essa seja a maior ironia da política.

Enquanto milhares de capixabas discutem quem será o próximo governador, os profissionais da articulação parecem dedicar mais tempo a decidir quem ocupará as cadeiras do Senado. Porque eles conhecem uma velha verdade que o eleitor costuma descobrir apenas depois da apuração: muitas eleições não são vencidas no palanque. São resolvidas, silenciosamente, na mesa onde se distribuem os lugares muito antes de a campanha começar.


Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas


Compartilhe este post