Por Marcelo Rossoni
Existem músicas que pertencem ao passado. E existem aquelas raras composições que, de tempos em tempos, levantam da cadeira, sacodem a poeira do vinil e voltam a frequentar o noticiário brasileiro como se tivessem sido escritas na véspera. “Onde Está o Dinheiro?”, famosa marchinha de carnaval composta por José Maria de Abreu, Francisco Matoso e Paulo Barbosa, gravada por Gal Costa no álbum Profana (1984), pertence exatamente a essa categoria quase sobrenatural da cultura brasileira: obras que jamais envelhecem porque o país insiste em atualizá-las diariamente.
E talvez nenhuma outra cantora pudesse interpretar aquela marchinha carnavalesca com tamanha elegância debochada. Gal Costa não cantava apenas músicas. Ela parecia comentar o Brasil enquanto cantava. Figura central do tropicalismo — movimento cultural surgido no fim dos anos 1960 que misturava irreverência, crítica social, psicodelia (estética artística ligada à liberdade criativa, às experiências sensoriais e à ruptura de padrões tradicionais), modernidade e certa bagunça intelectual tipicamente brasileira — Gal possuía o raro talento de transformar ironia em arte refinada.
O tropicalismo dialogava também com o chamado movimento underground, conhecido no Brasil como “Udigrudi”, adaptação abrasileirada da palavra inglesa underground, usada para definir manifestações culturais alternativas, experimentais e avessas aos modelos convencionais da época.
Quando soltava a voz perguntando “Onde está o dinheiro?”, não parecia apenas uma cantora interpretando uma composição de carnaval. Parecia uma observadora permanente da República.
Décadas depois, o país resolveu colaborar novamente com a letra.
Foi impossível não lembrar da música diante do áudio atribuído ao senador Flávio Bolsonaro, amplamente reproduzido em redes sociais, sites, canais de YouTube, programas políticos e grupos de WhatsApp — hoje talvez o verdadeiro Diário Oficial informal da nação.
Na gravação divulgada publicamente, o assunto giraria em torno do financiamento do documentário “Black Horse”, produção ligada à trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo informações já difundidas por diversos veículos, haveria promessas milionárias, pagamentos parciais, parcelas atrasadas e produtores reclamando que os recursos anunciados não chegaram com a mesma velocidade das manchetes.
O Brasil possui uma característica fascinante: até seus impasses financeiros acabam adquirindo roteiro de novela.
Em determinado momento, segundo o teor reproduzido pela imprensa, o senador deixaria escapar um tom muito mais humano do que ideológico. Nada de discursos inflamados, patriotismo performático ou guerra cultural de rede social. O que surgiria seria algo mais próximo da velha angústia nacional de quem tenta administrar cobranças, fornecedores e compromissos vencidos enquanto mantém a aparência de normalidade.
Quase se podia visualizar a cena.
Assessores circulando em silêncio pelos corredores refrigerados de Brasília. Telefones vibrando sem parar. Produtores pressionando por pagamentos. Planilhas abertas em notebooks caríssimos. E alguém repetindo, em voz baixa, aquela frase que move metade da economia nacional:
“Precisamos resolver isso.”
Do outro lado, surgiria a figura do banqueiro Daniel Vorcaro, personagem que parece saído daqueles romances modernos sobre o capitalismo tropical brasileiro, onde cifras bilionárias convivem harmonicamente com expressões vagas como “reestruturação”, “equalização”, “fluxo financeiro” e “ajuste operacional”.
No Brasil, quanto mais sofisticado o problema, mais suave costuma ser o vocabulário utilizado para descrevê-lo.
Em vez de “não tem dinheiro”, surgem expressões como “estamos reorganizando o cronograma financeiro”.
É poesia corporativa.
E então Gal Costa reaparece na memória coletiva:
“O gato comeu, o gato comeu, que ninguém viu...”
Talvez o verso mais brasileiro já produzido pela música popular.
Porque o país desenvolveu, ao longo das décadas, uma relação quase folclórica com o desaparecimento de recursos. Dinheiro público, privado, eleitoral, empresarial ou cinematográfico frequentemente parece adquirir vida própria. Some com velocidade admirável, atravessa fronteiras invisíveis e reaparece apenas em auditorias, delações ou reportagens especiais.
E quando Gal canta “e seu paradeiro está no estrangeiro...”, o que antes parecia simples brincadeira carnavalesca ganha inesperada densidade sociológica.
A genialidade da música está justamente nisso: transformar um tema potencialmente pesado em sátira elegante. Não aponta diretamente para ninguém, mas deixa todo mundo desconfortavelmente incluído.
O episódio envolvendo o documentário “Black Horse” acabou produzindo exatamente esse efeito. Em tese, trata-se apenas de uma discussão empresarial envolvendo contratos, investimentos, cronogramas e pagamentos. Mas, no Brasil, quase nada permanece apenas técnico. Tudo ganha dimensão simbólica.
O país talvez seja um dos poucos lugares do mundo onde um impasse financeiro entre produtores, banqueiros e políticos consegue imediatamente evocar marchinhas de carnaval, sambas antigos e memórias do tropicalismo.
Porque o brasileiro possui uma habilidade emocional bastante peculiar: rir da própria perplexidade.
E há outro trecho da canção que envelheceu de maneira quase ofensivamente atual:
“Eu compro um vagão, eu compro a nação...”
Escrito décadas atrás, o verso hoje soa menos como exagero poético e mais como síntese involuntária das relações frequentemente nebulosas entre dinheiro, influência, poder político e interesses econômicos.
Em certas ocasiões, a sensação é de que a República funciona exatamente assim: alguns compram silêncio, outros compram tempo, alguns compram versões e muitos tentam apenas comprar tranquilidade.
Mas talvez nenhuma frase da música seja tão perfeita quanto:
“Tem gente que sabe e não diz...”
Poucas definições do Brasil alcançaram tamanho grau de precisão antropológica.
Porque este continua sendo o país onde vazamentos aparecem antes das investigações, onde bastidores frequentemente valem mais que discursos oficiais e onde todos parecem conhecer alguma verdade decisiva que misteriosamente jamais chega inteira ao público.
Enquanto isso, a população assiste.
Uns indignados. Outros divertidos. Muitos apenas cansados.
E Gal Costa, mesmo ausente fisicamente desde 2022, continua pairando sobre o imaginário brasileiro como uma espécie de consciência musical da ironia nacional. Sua interpretação de “Onde Está o Dinheiro?” permanece atual porque o Brasil insiste, quase com disciplina institucional, em fornecer material inédito para a canção.
No fim das contas — ou da ausência delas — sobra apenas a pergunta que atravessa governos, escândalos, crises financeiras, CPIs, auditorias, operações policiais e documentários inacabados:
“Onde está o dinheiro?”
E o gato, ao que tudo indica, segue gordo, elegante, internacionalizado e aparentemente muito bem alimentado.
Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em administração de empresas