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O tempo político de Marcelo Santos

13/02/2026 00:15
O tempo político de Marcelo Santos

Por Marcelo Rossoni

A política capixaba tem o hábito de se mover em silêncio — até o momento em que decide tropeçar no próprio sigilo. Marcelo Santos, nascido Alexandre Marcelo Coutinho Santos, é hoje um personagem central desse enredo feito de espera, cálculo e paciência estratégica. Deputado estadual experiente, de fala mansa e postura institucional, Marcelo construiu ao longo do tempo a imagem de homem sério — ressalva feita, por caridade jornalística, às dancinhas desnecessárias que ilustram seus posts no Instagram. Detalhe periférico. A política real acontece fora do enquadramento vertical.

Nos últimos anos, Marcelo trabalhou de forma quase artesanal sua imagem pública. Nada de improvisos. Nada de bravatas. Houve método, constância e uma assessoria que compreendeu cedo que, na política contemporânea, imagem não é ornamento: é estrutura. Parte relevante desse processo deve-se ao experiente jornalista Guto Neto, que deu um discreto — e inteligente — passo lateral fora do jornalismo diário para tocar, ao lado da esposa, uma próspera agência de turismo. Coube a ele ajudar Marcelo a construir um personagem político estável, previsível e, sobretudo, palatável aos diferentes humores do poder.

Nesse período, Marcelo esteve de plantão. Literalmente. Colocou-se, com disciplina quase monástica, na posição ideal para ser lembrado quando surgisse a oportunidade de ocupar um dos cargos mais cobiçados da “República capixaba”: a cadeira vitalícia de Conselheiro no Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo. A engrenagem girou, os sinais foram emitidos, os apoios foram contados — mas o desfecho foi outro. Renato Casagrande preferiu um nome diferente. Política também é isso: chegar cedo, sentar à mesa e descobrir que o lugar já tem dono.

O curioso é que a frustração não parece ter deixado marcas visíveis. Nem no semblante, nem no humor. Marcelo recolheu as fichas, reorganizou o tabuleiro e voltou-se para um projeto ainda mais ambicioso — e, por algum tempo, cuidadosamente protegido pelo véu da discrição: a sucessão estadual. Marcelo queria ser candidato ao governo. Mais do que isso, queria ser o tertius.

Convém explicar. Tertius é um conceito clássico da política: o terceiro nome que surge quando dois polos se anulam ou se desgastam mutuamente. É o que o “mercado” chama de terceira via. Nem situação pura, nem oposição declarada. Um nome que aparece como solução de equilíbrio, frequentemente apresentado como consenso tardio. Marcelo trabalhou para ser esse personagem. Preparou-se para ocupar o espaço entre a continuidade e a ruptura, apostando que o governador seguraria a decisão até o último minuto.

E tudo indicava que esse roteiro seria seguido. Casagrande tinha um favorito claro: seu vice, Ricardo Ferraço. Político experiente, de linhagem conhecida, com lastro administrativo e trânsito entre diferentes campos. O plano era anunciá-lo no tempo certo, no momento exato, quando o calendário político já não permitisse grandes rearranjos.

Mas a política raramente respeita roteiros bem escritos. Eis que surge o movimento inesperado — e voraz — de Arnaldinho Borgo, herdeiro político de Arnaldão, figura popular em Vila Velha e conhecida em todo o Espírito Santo. Arnaldinho rompe a previsibilidade, muda de legenda e se filia ao PSDB de Aécio Neves. O gesto altera o eixo da sucessão.

O efeito foi imediato. O governador, percebendo o risco de perder o controle do tempo político — ativo precioso em qualquer sucessão — antecipou o jogo. Saiu do trono da indecisão calculada e anunciou Ricardo Ferraço como seu preferido. O calendário eleitoral foi puxado para frente, e o espaço para o tertius encolheu drasticamente.

Marcelo Santos, mais uma vez, ficou na antessala. Não por falta de preparo, mas porque a política, como se sabe, nem sempre recompensa quem aguarda com excesso de civilidade. Ainda assim, permanece inteiro no jogo. Sem demonstrações públicas de irritação. Sem rompantes. Aguardando, talvez, a próxima curva inesperada de um cenário que nunca se mantém estável por tempo suficiente.

No Espírito Santo, a política não costuma premiar os impacientes. Mas também não garante vitória aos que apenas esperam. Marcelo Santos sabe disso. E segue ali, aparentemente sereno — até que se prove o contrário.


Marcelo Rossoni é jornalista


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