Por Marcelo Rossoni
A ditadura militar instalada em 1964 costuma ser tratada por alguns como um desvio incômodo, um ponto fora da curva. Mas, na verdade, foi uma queda longa, um mergulho num porão sem janelas de onde o país demorou décadas para reaprender a respirar. Em 21 anos, não faltaram decretos, fardas, muitas medalhas com fitas coloridas, discursos patrióticos nem justificativas improvisadas — faltou apenas democracia.
O Brasil já tinha passado pelo Estado Novo (1937–1945), quando Vargas governou sob censura, perseguição e submissão das liberdades. Mas o golpe de 1964 mostrou que certos fantasmas, quando não enfrentados, voltam usando coturno. A reincidência disse muito sobre nós. Disse, sobretudo, que o país estava habituado demais a aceitar que a exceção se tornasse regra.
O discurso que embalou a tomada do poder era conhecido: “defesa da ordem”. E, ironicamente, bastaram poucos meses para que essa ordem se transformasse naquilo que mais agredia a sociedade. A arquitetura repressiva surgiu com precisão de engenharia: DOPS, DOI-CODI, OBAN — cada sigla uma engrenagem de aço que girava em silêncio, mas que triturava pessoas em nome da estabilidade.
O marco decisivo foi o AI-5, em 1968. Com ele veio o congelamento da vida institucional: Congresso fechado, direitos cassados, censura prévia, vigilância onipresente. Se um jornal ousasse apontar o que acontecia, a tesoura vinha primeiro, a notícia depois. Algumas redações preenchiam com receitas de bolo o espaço das reportagens proibidas — metáfora involuntária de um país que trocou liberdade de expressão por culinária emergencial.
A repressão operava em duas velocidades. A física, que saltava das salas de tortura para a superfície social: choques elétricos, pau-de-arara, espancamentos, violência sexual, execuções sumárias. E a psicológica, mais difusa, feita de medo, silêncio forçado e propaganda que repetia que tudo estava “sob controle”. O Estado respirava por dois pulmões autoritários.
Os desaparecidos foram o rosto mais cruel dessa engrenagem. Nomes como Stuart Angel, torturado na Base Aérea do Galeão e engolido pela máquina estatal, até hoje não têm corpo que conte sua última história. A busca incansável de sua mãe, Zuzu Angel, transformou-se numa denúncia permanente — até que ela própria fosse morta em um atentado disfarçado de acidente. Ana Rosa Kucinski, professora da USP, desapareceu como se fosse possível sumir com uma intelectual em plena cidade grande. Rubens Paiva, ex-deputado federal, foi arrancado de casa e nunca mais voltou. O Estado inventou versões, fugas e confrontos, mas nenhuma resistiu a meia hora de luz.
Na floresta do Araguaia, a repressão produziu seu capítulo mais brutal. Ali desapareceram Osvaldão, Maurício Grabois, Suely Kanayama e tantos outros cidadãos que lutavam contra um regime que não tolerava oposição alguma. Para camponeses, Osvaldão era um protetor; para os militares, um inimigo prioritário. Sua morte virou espetáculo macabro: o corpo exibido pendurado num helicóptero, como se intimidar fosse método pedagógico.
Décadas depois, um documento norte-americano arremataria o que testemunhos já insinuavam. Um relatório da CIA, de 1974, revelado em 2018, mostrou o presidente Ernesto Geisel submetendo ao general João Figueiredo — então chefe do SNI e conhecido por sua paixão por cavalos — a decisão de continuar ou não com a política de “eliminar” adversários do regime. Não se tratava de linguagem figurada. Era política de Estado, discutida no topo da hierarquia militar com a frieza de quem decide sobre cronogramas e protocolos. Figueiredo autorizou, e a engrenagem seguiu funcionando com eficiência mortífera.
A violência, porém, não se limitou aos desaparecidos. Muitos sobreviveram, mas carregam até hoje o que o regime tentou esconder. Dilma Rousseff, então com apenas 22 anos, enfrentou interrogatórios violentos, choques e isolamento. Décadas mais tarde, presidiu o país — um lembrete incômodo de que regimes autoritários não escolhem quem pretendem esmagar. Chico Buarque foi perseguido e censurado, vigiado como um criminoso por causa de versos e melodias.
Gilberto Gil e Caetano Veloso conheceram o frio das celas antes do exílio em Londres — a música como ameaça suficiente para justificar algemas. Fernando Gabeira sobreviveu à tortura e, mais tarde, devolveu ao país a narrativa do que se passava atrás das portas fechadas. Betinho, sociólogo, transformou o trauma em ação política. Inês Etienne Romeu foi a única sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis, denunciando o centro clandestino criado para que presos políticos desaparecessem como se nunca tivessem existido.
Esse padrão não era exclusivo do Brasil. O século XX registrou ditaduras em série: União Soviética (1917–1991), Alemanha nazista (1933–1945), Espanha franquista (1939–1975), Portugal salazarista (1926–1974), Paraguai (1954–1989), Chile de Pinochet (1973–1990), Argentina (1976–1983). Regimes que se vendiam como guardiões da ordem e se revelavam especialistas na arte de oprimir. Ainda hoje, o mapa do autoritarismo marca pontos persistentes: China (desde 1949), Coreia do Norte (1953), Cuba (1959), Eritreia (1991), Bielorrússia (1994), Venezuela (1999). A democracia continua sendo, em boa parte do mundo, uma conquista incompleta.
No Brasil, a justificativa oficial do golpe era o risco de uma “ditadura do proletariado”, expressão técnica criada por Marx para descrever um estágio teórico do socialismo e que aqui virou espantalho político. A ameaça era mais útil como retórica do que como realidade. No dia a dia, o regime perseguia estudantes, jornalistas, operários, artistas, padres, sindicalistas e até governadores. A violência era “democrática”: atingia todos.
Meio século depois, o legado mais incômodo não são apenas nomes desaparecidos, mas as sombras que permanecem. A Lei da Anistia de 1979 blindou torturadores e deixou famílias sem respostas. O país ainda tropeça nos próprios silêncios — e, às vezes, parece prestes a repeti-los.
A ditadura de 1964 não falhou por excesso de rigor, como alguns tentam reescrever. Falhou porque negou a própria ideia de civilização. Fez da violência um método, da censura um hábito e da impunidade um acordo tácito. Contar essa história não é exercício de nostalgia amarga; é higiene democrática. País que esconde o passado embaixo do tapete acaba tropeçando no volume. E o Brasil, teimoso como sempre, ainda insiste em testar a gravidade, como se não reconhecesse que já caiu uma vez — e que a queda foi longa demais.
Marcelo Rossoni é jornalista