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O silêncio é branco, mas o pó é preto!

04/08/2025 07:29
O silêncio é branco, mas o pó é preto!
*Por Marcelo Rossoni A poluição industrial que aflige os moradores da Grande Vitória não é novidade. Trata-se de um problema tão antigo quanto os trilhos que levam o minério para os navios no complexo industrial de Tubarão. O que impressiona, no entanto, é a normalização do absurdo: dia após dia, moradores acordam com uma fina camada de pó preto sobre carros, janelas, roupas e móveis — e ninguém faz nada. Pior: quando fazem, fazem de conta. A versão oficial repete-se com um roteiro já desgastado. Órgãos ambientais apontam índices de qualidade do ar “dentro dos limites aceitáveis”, enquanto nas casas e condomínios a realidade mostra o contrário. A divergência entre os dados institucionais e o que se recolhe com um simples pano úmido na varanda de qualquer prédio na Serra ou em Vitória é escandalosa. Já não se trata apenas de uma questão ambiental — é uma afronta à inteligência do cidadão. Os responsáveis por essa poluição não são um mistério. Diversos estudos, além da CPI do Pó Preto instaurada na Assembleia Legislativa em 2015, já identificaram empresas principais emissoras do pó, resultado da atividade mineradora e siderúrgica concentrada no Complexo de Tubarão. Ainda assim, o discurso institucional das empresas tenta empurrar parte da culpa para os veículos automotores, alegando que a poeira seria oriunda do desgaste dos pneus nas vias urbanas. Francamente, uma piada de mau gosto. É claro que veículos automotores contribuem para a poluição, mas há uma diferença óbvia — visível, mensurável e respirável. Por que os moradores das cidades de Rio de Janeiro e São Paulo, onde a frota de veículos é infinitamente superior ao da Grande Vitória, as pessoas não sujam a sola dos pés quando andam descalças em suas residências? O que a população da Grande Vitória enfrenta é uma contaminação com endereço, identidade e, sobretudo, donos. A saúde pública já sente os efeitos. Há aumento dos casos de asma, rinite, bronquite e doenças cardiovasculares. Crianças e idosos são as principais vítimas de um ar que deveria ser direito, mas virou ameaça. Hospitais da região já lidam com uma demanda maior por atendimentos relacionados a problemas respiratórios. O sistema de saúde paga a conta que deveria ser dividida entre os responsáveis pela emissão desses poluentes. Entretanto, pouco se vê em termos de ações concretas. Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) são assinados como quem dá um recibo de boa vontade. Mas resultados? Poucos. A fiscalização é frágil? As estações de medição estão atualizadas? A realidade é que o debate sobre o tema muitas vezes morre sufocado pelo peso econômico e político dos envolvidos. Por que, afinal, tamanha conivência? É possível que parte da resposta esteja na histórica dependência econômica da região em relação ao setor de mineração e siderurgia. Empregos, impostos e investimentos são usados como moeda de troca para manter as coisas como estão. É hora de questionar: até quando? A defesa do meio ambiente não é um entrave ao desenvolvimento. Ao contrário, é uma exigência do século XXI. Empresas que faturam bilhões de reais todos os anos têm obrigação moral — e legal — de investir em tecnologia limpa, filtros eficientes, controle rigoroso de emissões e, acima de tudo, transparência. O povo da Grande Vitória não quer milagres. Quer respeito. Quer abrir a janela e respirar sem medo. Quer que a sujeira visível que se acumula em suas casas sirva de prova, e não de anedota. Quer que os responsáveis assumam sua parcela de culpa e que o poder público seja mais do que espectador. O ar que se respira é o mesmo que se cala. E é justamente o silêncio que alimenta a perpetuação desse descaso. Está na hora de romper esse ciclo. A saúde dos capixabas — e o futuro da região — dependem disso. O problema está aí: só não vê quem não quer!   *Marcelo Rossoni é jornalista
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