Por Marcelo Rossoni
A política brasileira tem uma peculiaridade que raramente aparece nos livros, mas que qualquer observador mais atento percebe com o tempo: alguns personagens passam pela política; outros atravessam a história política. José Dirceu pertence claramente ao segundo grupo. Seu nome reaparece periodicamente no debate público e, quase sempre, provoca reações intensas — principalmente entre adversários.
A possível candidatura de Dirceu a deputado federal em 2026 representa mais um capítulo de uma trajetória que acompanha a política brasileira desde os anos 1960. E não é exagero dizer que sua biografia parece roteiro de filme político: movimento estudantil, prisão, exílio, clandestinidade, redemocratização, fundação de partido, chegada ao poder, queda, condenações, prisão novamente, anulações judiciais e retorno ao debate político. Poucos personagens da política nacional viveram tantas fases distintas dentro de uma mesma vida pública.
Mineiro de nascimento, projetou-se como líder estudantil durante o regime militar. Foi preso no Congresso da UNE em Ibiúna, banido do país e enviado para Cuba após o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick. Anos depois, retornou clandestinamente ao Brasil, viveu com identidade falsa e só voltou à vida pública com a anistia política. Não é exatamente o currículo tradicional de um futuro ministro da Casa Civil.
Com a redemocratização, tornou-se um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e, ao longo dos anos, consolidou-se como o principal estrategista político do partido. Nunca foi líder de massas, político de comício ou orador de multidões. Sua especialidade sempre foi a organização política, a articulação, a construção de alianças e a engenharia de maioria parlamentar. Quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou à Presidência, Dirceu assumiu a Casa Civil e passou a ser o principal coordenador político do governo. Em Brasília, dizia-se que ele conhecia o funcionamento do Congresso melhor do que muitos parlamentares.
Depois veio o mensalão, a cassação, o julgamento, a condenação, a prisão, anos depois a Lava Jato, novas condenações e, posteriormente, decisões judiciais que anularam processos e devolveram seus direitos políticos. Poucos políticos brasileiros conheceram tão de perto todas as fases possíveis do poder: ascensão, influência, queda, punição, sobrevivência e retorno. Dirceu não teve uma carreira política linear; teve uma carreira cheia de curvas, desvios e retornos improváveis.
Nos últimos anos, mesmo fora de cargos eletivos, nunca deixou de fazer política. Passou a circular em universidades, sindicatos, fundações partidárias, debates econômicos e encontros políticos. Voltou a escrever, dar entrevistas e participar de seminários discutindo temas como reindustrialização do Brasil, tecnologia, inteligência artificial, transição energética, reforma tributária e soberania nacional. Enquanto muitos políticos pensam apenas na próxima eleição, Dirceu costuma falar em projeto de país — o que, na política brasileira, já o coloca em uma categoria diferente.
Apesar de ser um personagem da política nacional, José Dirceu sempre manteve relações políticas e pessoais no Espírito Santo. Participou de debates, encontros políticos, reuniões com empresários, sindicalistas e professores universitários ao longo de vários anos, criando vínculos políticos e intelectuais no Estado.
Existe, inclusive, um capítulo importante dessa relação com o Espírito Santo e com a imprensa capixaba. Durante anos, José Dirceu assinou uma coluna de análise política e econômica no Jornal Empresários, publicação que posteriormente daria origem ao portal www.vitorianews.com.br. A coluna tratava de economia, política nacional, desenvolvimento, geopolítica e estratégia política. Ele costumava dizer que aquele espaço era para discutir o Brasil. Não era uma coluna partidária, mas de análise de conjuntura.
O fato de um dos principais articuladores políticos do país manter uma coluna fixa em um veículo capixaba demonstra o nível de interlocução política e econômica que o Jornal Empresários possuía e o ambiente de debate qualificado que depois se consolidaria no Vitória News.
Era um espaço de reflexão política e econômica em um período em que o Brasil passava por profundas transformações econômicas e institucionais. Também eram colunistas do Jornal Empresários o ex-ministro e economista Delfim Netto, os jornalistas Alberto Tamer, Engel Paschoal e o professor Luiz Marins.
Mas talvez o aspecto mais interessante da trajetória de José Dirceu não esteja apenas em sua biografia, e sim na imagem que seus adversários construíram dele ao longo dos anos. Em determinados setores da direita brasileira, especialmente a mais ideológica, Dirceu deixou de ser apenas um político para se tornar uma espécie de personagem permanente da política nacional — o estrategista que estaria sempre articulando nos bastidores, planejando movimentos e organizando estruturas de poder.
Existe uma ironia nisso. Ao tentar transformá-lo em inimigo histórico, muitos adversários acabaram ajudando a construir a imagem de grande estrategista político. Na política, às vezes o adversário ajuda mais a construir o personagem do que o próprio aliado. Quanto mais se repete que alguém é um grande articulador, mais se reforça a ideia de que ele realmente sabe articular.
Dirceu nunca foi um grande puxador de votos, nunca foi um fenômeno eleitoral, nunca foi um político de multidões. Sua força sempre esteve nos bastidores, na articulação, na organização partidária, na construção de alianças e na leitura de cenário político. Em outras palavras, sempre foi um político de poder, não apenas de voto.
Há ainda uma leitura política, feita por muitos analistas e observadores da história recente do Brasil, que ajuda a entender o lugar de José Dirceu na política nacional. Para essa linha de interpretação, Dirceu seria o sucessor natural de Lula na Presidência da República caso sua trajetória não tivesse sido interrompida pelo escândalo do mensalão e pela cassação de seu mandato em 2005.
Naquele momento, Dirceu era ministro-chefe da Casa Civil, o cargo politicamente mais poderoso do governo depois do presidente. Era o coordenador político, o articulador do Congresso, o organizador da base parlamentar e, na prática, o principal operador político do governo. Dentro do Partido dos Trabalhadores, era visto como o quadro mais preparado para dar continuidade ao projeto político iniciado em 2003.
Com sua queda política, o cenário mudou completamente. O partido precisou reorganizar a sucessão presidencial e, nesse processo, surgiu o nome de Dilma Rousseff, que até então era uma técnica do governo e acabou sendo construída politicamente como candidata e posteriormente eleita presidente. Há quem diga, com certa ironia histórica, que a trajetória política de Dilma começou exatamente onde a de Dirceu foi interrompida.
Essa interpretação leva a uma análise mais estrutural: José Dirceu sempre foi visto com desconfiança por setores do sistema financeiro, do agronegócio tradicional, do rentismo e também por setores da política internacional. Não necessariamente por suas propostas imediatas de governo, mas por sua visão de projeto nacional, política industrial forte, fortalecimento do Estado, soberania econômica e integração regional. Em política internacional, países que defendem autonomia econômica, tecnológica e geopolítica raramente são vistos com simpatia pelas grandes potências. Isso não é teoria conspiratória; é apenas geopolítica e disputa de interesses.
Por isso existe entre muitos analistas a leitura de que José Dirceu talvez tenha sido o presidente que nunca chegou a disputar a Presidência, mas que esteve politicamente muito próximo disso antes de sua queda em 2005. A história política brasileira tem dessas ironias: às vezes a queda de um personagem muda não apenas sua trajetória pessoal, mas o rumo da sucessão presidencial e, em certa medida, o rumo do país.
Hoje, vinte anos depois do mensalão, seu nome volta a circular como possível candidato a deputado federal. Não é exatamente o destino que muitos imaginavam para ele no início dos anos 2000. Mas, na política, sobreviver já é uma forma de vitória. Voltar ao jogo, então, é quase um segundo ato.
Na política brasileira existem políticos de discurso, políticos de voto e políticos de poder.
José Dirceu sempre pertenceu à terceira categoria.
Recentemente, em uma longa conversa telefônica com o jornalista Eustáquio Palhares, daqueles diálogos sem pressa que começam falando de política e terminam falando do Brasil, surgiu novamente o assunto José Dirceu. Eustáquio observou que Dirceu pertence a uma categoria rara de políticos: a dos que entendem como o poder funciona.
Em determinado momento da conversa, ele próprio comentou, com o humor de sempre: “Marcelo, minhas articulações estão enferrujadas”. Discordei imediatamente: disse que não é ferrugem, é preguiça de escrever. Segundo ele, pauta não falta. E não falta mesmo. Nossas conversas, aliás, têm rendido mais ideias do que muitas reuniões de redação. Fica aqui o registro e o agradecimento. Grato, Taco!
E talvez seja exatamente por isso que, tantos anos depois, apenas a possibilidade de sua volta já seja suficiente para inquietar tanta gente. Porque alguns políticos disputam eleições. Outros disputam poder. E há aqueles que entendem como o poder funciona.
Marcelo Rossoni é jornalista.