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O Recruta Zero de Realengo

31/07/2025 00:00
O Recruta Zero de Realengo
*Por Marcelo Rossoni
Era uma vez um recruta. Nada heroico, nada estratégico, nada disciplinado. Era apenas zero. Literalmente. Um sujeito que marchava para trás quando todos marchavam para frente, que confundia mapa com cardápio e cuja principal arma era a teimosia. Estamos falando do Recruta Zero, o personagem clássico das tirinhas de Mort Walker, ícone da irresponsabilidade fardada. Mas bem que poderíamos estar falando de outro Zero: o ex-presidente da República, o capitão Jair Messias Bolsonaro.Ambos têm mais em comum do que a patente rala e o amor pelo descanso em plena hora do expediente. O Recruta Zero das HQs se esquivava da autoridade do Sargento Tainha com a mesma desenvoltura com que Bolsonaro fugia da liturgia do cargo — e das entrevistas também. Se Zero vivia deitado em sua rede, boné enterrado nos olhos, o ex-presidente preferia o jet ski, motocicletas, o churrasco com picanha gourmet e as lives onde, com a firmeza de um guia espiritual de rodoviária, alertava sobre as urnas que “só Deus sabe”.O quartel de Zero era uma usina de mal-entendidos: comandado pelo impassível General Dureza, à frente da base Swampy, com a ajuda do brutamontes Sargento Tainha, era um retrato caricato da hierarquia militar. Um caos cômico e inofensivo. Já o capitão brasileiro, mesmo sem quartel ou comando legítimo, tentou transformar a Esplanada dos Ministérios em trincheira e os quartéis reais em palanques da desordem. E quando não obteve apoio suficiente para a insurreição, tratou de embarcar para os Estados Unidos às vésperas da posse de seu sucessor — levando na mala a esperança de que o Brasil explodisse (metaforicamente ou não) na sua ausência.Mas o paralelo entre os dois Zeros deixa de ser cômico quando se lembra que o de carne e osso, ainda nos anos 1980, já havia ensaiado aventuras explosivas, ao planejar um atentado a unidades militares. A ideia: detonar estruturas como forma de protesto contra os baixos soldos militares. Parece enredo de tirinha, mas era só um ensaio para a radicalização de um ressentido com vocação para a desordem.Décadas depois, com a faixa presidencial no peito e o Congresso nas cordas, o capitão aposentado voltou a brincar de revolucionário. Em vez de explosivos, apostou num arsenal de mentiras, decretos de exceção guardados no computador e orações em voz alta por “liberdade”. Cercou-se de generais de pantufas, empresários messiânicos e seguidores com fé inflamável. Foi nesse clima de seita militarizada que surgiu outro personagem tragicômico: o caminhoneiro que, após orar solenemente diante de um pneu — sim, um pneu — resolveu dirigir um caminhão-tanque em Brasília com a intenção de explodi-lo no aeroporto como oferenda patriótica. A tentativa frustrada, na véspera do Natal de 2022, foi só um prelúdio para a invasão golpista do dia 8 de janeiro de 2023. Milhares como possuídos pelo maligno marcharam sobre a Praça dos Três Poderes como quem invade um set de filmagens distópico, na ilusão de que, com bandeiras nas costas e a Bíblia na mão, reverteriam o resultado das urnas. Um motim de WhatsApp, com estética de show rural e roteiro de série B.Enquanto isso, Bolsonaro, o capitão reformado, observava tudo à distância, direto de uma casa emprestada na Flórida — terra de parques temáticos, calor úmido e ex-presidentes em recesso. Aguardava, em silêncio calculado, que o caos se instaurasse e que ele pudesse retornar triunfalmente, carregado nos braços do povo — ou, ao menos, de um pelotão de patriotas desinformados. Era a aposta sebastianista de um líder que nunca liderou de fato: sumir na tempestade e voltar com o sol, como mito ou mártir.Mas o mito esfarelou. O golpe virou meme. O caos não veio. E o retorno glorioso deu lugar a um retorno burocrático, cercado de processos, inquéritos e auditorias de cartão de vacina. O ex-capitão hoje é réu, inelegível e citado em relatórios da Polícia Federal. Seu pelotão de apoiadores evaporou, seus ex-aliados agora fingem não tê-lo conhecido e o povo que o carregaria nos ombros prefere, com alguma sorte, bloqueá-lo nas redes sociais.No quartel de Swampy, o Sargento Tainha se irritava com Zero por muito menos: uma rede armada fora de hora, uma desculpa esfarrapada para escapar do plantão, um atalho que terminava no mato. No Brasil real, os “generais de pantufas” preferiram fingir neutralidade enquanto o país flertava com a ruptura institucional. Se tivessem a rigidez do Tainha ou o pragmatismo do General Dureza, talvez tivessem cortado pela raiz o devaneio autoritário antes que ele tomasse as ruas.O Recruta Zero, com seu boné torto e humor involuntário, permanece como símbolo inofensivo do caos militarizado. Bolsonaro, por sua vez, é o exemplo de como o bufão pode, sim, se tornar perigoso — quando subestimado, levado ao poder e cercado de aduladores prontos a trocar a Constituição por uma corrente no Telegram.Rir é necessário — mas lembrar também é. Para que, da próxima vez que um Recruta Zero tentar explodir o país, não falte um Tainha, um Dureza, ou ao menos um leitor atento, para puxar o freio de emergência da República. *Marcelo Rossoni é jornalista
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