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O Quinta Coluna

08/08/2025 00:01
O Quinta Coluna
*Por Marcelo Rossoni Ernest Hemingway, mais do que um escritor de talento raro, foi um dos grandes estilistas da literatura do século XX. Jornalista antes de tudo, escrevia com precisão cirúrgica: frases curtas, ritmo seco, conteúdo denso — e nunca desperdiçava uma palavra. Orientado pelo saudoso jornalista Cláudio Bueno da Rocha, o CBR, com pouco mais de 20 anos, li, e reli, depois dos 70 anos, quase toda a obra de Hemingway, da prosa contida de O Velho e o Mar à brutalidade melancólica de Adeus às Armas, passando pela ternura áspera de Por Quem os Sinos Dobram. Em O Jardim do Éden, encontrei um Hemingway mais introspectivo, quase experimental, lidando com identidade, gênero e desejo — temas que a crítica conservadora sempre tentou esconder debaixo da mesa. Já em O Sol Também se Levanta, com seus touros, exílios e ressacas sentimentais, está a essência da geração perdida, ferida pela guerra e entorpecida pela liberdade sem sentido. Hemingway é daqueles autores que nos ensinam que escrever bem é dizer muito com quase nada. Não por acaso, sua única peça teatral, A Quinta Coluna, escrita quando hospedado no hotel Florida, durante a Guerra Civil Espanhola, condensa o espírito daquela época turbulenta. Ambientada numa Madri em ruínas, a peça retrata uma rede de infiltrados que, sob aparência inofensiva, trabalha para minar a resistência republicana por dentro. Ali, Hemingway transforma o conceito militar de "quinta coluna" numa metáfora dramática poderosa: o inimigo interno não veste uniforme nem carrega bandeira — ele se parece com qualquer um de nós. O título da peça fazia referência direta a uma expressão criada pelo generalíssimo Francisco Franco. Enquanto quatro colunas de seu exército marchavam sobre Madri, uma quinta — silenciosa, invisível, mas operante — já se encontrava na cidade, promovendo sabotagens, delações e crimes diversos em nome da causa nacionalista. “As quatro colunas que se aproximam de Madri serão ajudadas por uma quinta, que já está lá”, disse ele, num arroubo de retórica que ganhou o mundo. E de fato, a imagem pegou. Mais do que uma frase de efeito, “quinta coluna” tornou-se um conceito político global. Em tempos de guerra, de crise ou de polarização, é sempre reconfortante acreditar que os maiores perigos vêm de dentro — não porque somos frágeis ou erramos, mas porque alguém nos traiu. A expressão ganhou vida própria. Foi usada para descrever simpatizantes do nazismo na França, agentes soviéticos nos Estados Unidos, e até militantes ambientalistas infiltrados em empresas de petróleo. Uma acusação de quinta-colunismo nunca sai de moda. Mas, embora o nome seja novo, o fenômeno é antigo. Muito antigo. Judas Iscariotes pode ser considerado um dos fundadores morais do clube. Brutus, o senador romano que apunhalou César enquanto o chamava de “pai”, merece a vice-presidência vitalícia. E, no Brasil, onde sempre houve espaço para importações criativas, não seria surpresa que essa tradição ganhasse uma versão adaptada, com sotaque carioca e visto americano. Eis que surge Eduardo Bolsonaro, vulgo Bananinha. Deputado federal, filho do ex-presidente e aspirante a chanceler informal do bolsonarismo, Eduardo tem se notabilizado por sua atuação política no exterior. Enquanto seus colegas discutem pautas no plenário, Eduardo embarca rumo a Washington, Miami ou Dallas. Ali, longe da vista do eleitorado médio e perto das fundações conservadoras que moldam parte do pensamento da extrema direita global, ele planta ideias e colhe influências. A lavoura, no entanto, não é exatamente patriótica. Nos últimos meses, Eduardo tem atuado para que parlamentares norte-americanos pressionem a Casa Branca e o Departamento de Estado a adotarem sanções contra autoridades brasileiras. Ministros do Supremo Tribunal Federal, presidentes da Câmara e do Senado — todos vistos por ele como obstáculos à restauração do legado paterno — estão no centro desse esforço internacional. Em vez de convencer o eleitor brasileiro, Eduardo aposta na força do lobby estrangeiro. O paralelo histórico se impõe com a naturalidade de uma peça reencontrando seu cenário. Se Franco tinha quatro colunas armadas e uma quinta operando discretamente dentro dos muros de Madri, o bolsonarismo conta com seus exércitos digitais, seus influenciadores de farda e uma quinta coluna que atua com passaporte diplomático e ar de legítima preocupação com a democracia — desde que seja a democracia do seu gosto. Mas há uma diferença curiosa entre o quinta-colunista clássico e o modelo atual. O primeiro agia nas sombras, furtivamente, com medo de ser descoberto. Já o segundo faz questão de aparecer. Não há nada de discreto nas movimentações de Eduardo. Ele grava vídeos, publica em redes sociais, concede entrevistas e ostenta reuniões como se estivesse prestes a ser condecorado por serviços prestados ao estrangeiro. É a quinta coluna com assessoria de imprensa, slogan e fundo musical de campanha. Do ponto de vista da estratégia, trata-se de uma inovação: ao invés de infiltrar-se no inimigo, ele se alinha abertamente com interesses externos contra as instituições nacionais — sob o pretexto, claro, de salvar o Brasil delas mesmas. É uma tática ousada: vestir a camisa da pátria enquanto age como seu crítico mais implacável fora das fronteiras. E, o mais curioso, é que muitos de seus apoiadores acham isso bonito. Naturalmente, Eduardo não se vê como traidor. Ao contrário, enxerga-se como defensor da liberdade, da moral cristã, da família tradicional e, claro, da reputação do pai, cuja biografia recente anda mais enrolada do que o discurso de um coach. Na sua narrativa, as instituições nacionais é que traíram o povo — e, como tal, merecem ser punidas. Por Washington, se possível. É possível — e até provável — que, se estivesse vivo, Hemingway reescrevesse A Quinta Coluna, ambientando-a entre Brasília e Miami. O protagonista não mais se esconderia em bares madrilenhos nem cochicharia em becos. Ele postaria no X (antigo Twitter), discursaria em inglês com tradução simultânea e exibiria sua bravura em favor do Supremo Tribunal Federal a milhares de quilômetros da Praça dos Três Poderes. Ao fim, com sua prosa direta, o autor talvez mantivesse o mesmo título. Afinal, certas histórias não envelhecem. Apenas trocam de idioma, figurino e passaporte. *Marcelo Rossoni é jornalista  
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