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O Punhal Verde-Amarelo e o brilho das medalhas sem guerra

24/03/2026 16:31
O Punhal Verde-Amarelo e o brilho das medalhas sem guerra

Por Marcelo Rossoni

O Brasil é um país curioso: nunca foi invadido, raramente atacou alguém, e ainda assim desfila um dos exércitos mais enfeitados do planeta. Nossos generais carregam medalhas como quem carrega lembranças de guerras que nunca existiram. Em cada formatura, há um brilho de ouro, prata e latão cintilando sob o sol, como se o país tivesse atravessado cem batalhas e saído vitorioso de todas. As fardas reluzem — mas é um esplendor que não vem do campo de combate, e sim da rotina burocrática.

De fato, quando se olha a história, o currículo bélico brasileiro cabe em poucas linhas. Houve a Guerra do Paraguai, vencida com ajuda dos vizinhos Argentina e Uruguai. Houve a campanha da Força Expedicionária Brasileira na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, breve e corajosa. E só. Nenhuma invasão estrangeira, nenhuma defesa heroica de território. O resto é paz, desfiles, solenidades — e medalhas. Muitas medalhas.

A explicação está menos no heroísmo e mais na liturgia do poder. As Forças Armadas são movidas por uma hierarquia quase religiosa, em que condecorações servem de moeda simbólica. Medalhas significam prestígio, lealdade, tempo de serviço, ou simplesmente boa convivência com o superior. Em tempos de paz, o mérito militar deixou de ser a bravura e passou a ser a docilidade. Cada fita colorida presa ao peito é um atestado de disciplina. O soldado não precisa lutar; basta permanecer no quartel e cumprir a rotina.

Há ainda o sistema de gentilezas cruzadas: ministros, juízes, prefeitos e empresários são agraciados com honrarias militares em cerimônias discretas, muitas vezes por “relevantes serviços à pátria”. O critério é elástico. Condecorar virou uma forma de fazer relações públicas. O general concede uma medalha a um político influente, que mais tarde retribui com uma homenagem no palanque. Assim, a farda preserva o prestígio, mesmo quando o país já não sabe para que serve tanto brilho.

A ironia é que, sem guerras para lutar, os quartéis acabaram voltando suas armas simbólicas para dentro. O inimigo, quando não existe, é inventado. Ao longo da história, os principais embates das Forças Armadas foram travados contra o próprio povo: revoltas regionais, greves, governos civis. É uma estranha tradição — a de combater a democracia em nome de salvá-la. E sempre com a retórica do patriotismo, o mesmo verde-amarelo que, de tempos em tempos, serve de disfarce para aventuras autoritárias.

O episódio recente do chamado plano “Punhal Verde-Amarelo” é o retrato mais cruel dessa contradição. Oficiais de alta patente, revestidos de medalhas e solenidade, tramavam nos bastidores um golpe de Estado e o assassinato de autoridades da República. Falavam em nome da pátria, mas agiam contra ela. O punhal, nesse caso, não era metáfora: era a encarnação do delírio de grandeza de quem confunde farda com licença para ferir.

Os áudios revelados pela Polícia Federal mostraram generais exaltados, prontos para “salvar o país” de um inimigo inexistente. Sonhavam com quartéis marchando sobre Brasília, com prisões de ministros, com um país sob ordens de comando. Os mesmos homens que, durante décadas, se auto condecoraram por “serviços prestados à nação” se preparavam para apunhalar a Constituição. O verde-amarelo virou cortina para o golpismo, e o heroísmo deu lugar à conspiração.

A ausência de guerra externa nunca foi obstáculo para o militar brasileiro se imaginar herói. Na falta de batalhas reais, fabricou-se uma guerra moral. Lutam contra ideias, contra votos, contra fantasmas ideológicos. E cada derrota é transformada em épica: “salvamos o país”, dizem, enquanto o país tenta salvar-se deles. O uniforme serve como palco, e a medalha, como adereço de um teatro que se repete desde a proclamação da República.

Há nisso uma espécie de nostalgia do combate. As Forças Armadas parecem sentir falta de um inimigo verdadeiro, algo que justifique sua própria existência. Como ele não vem de fora, é preciso buscá-lo dentro. A democracia, por vezes, cumpre esse papel com eficiência: é o adversário ideal, porque é barulhenta, plural, indisciplinada — tudo o que o quartel não suporta.

No fim, as condecorações contam uma história silenciosa: a do país que premiou a paz como se fosse vitória. Cada medalha é uma lembrança de que, mesmo sem guerras, há sempre um jeito de parecer glorioso. O brilho das fardas serve para esconder o vazio das conquistas. O soldado brasileiro não precisa lutar; basta comparecer ao desfile, manter o queixo erguido e o peito reluzente.

Talvez um dia o país crie uma nova comenda — a Medalha do Mérito da Democracia Resistente. Seria entregue não a quem sonha com golpes, mas a quem suporta viver em paz num país que ainda confunde patriotismo com nostalgia de quartel. Até lá, seguiremos desfilando ao som de hinos e discursos, com punhais imaginários e medalhas reais, enquanto o verdadeiro heroísmo continua sendo, apenas, o de manter o Brasil fora de guerra — inclusive das internas.


Marcelo Rossoni é jornalista

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