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O PIX tirou o biscoito da boca dos cartões

12/06/2026 16:26
O PIX tirou o biscoito da boca dos cartões

Por Marcelo Rossoni

Há quem imagine que as grandes disputas econômicas do mundo sejam travadas apenas em torno do petróleo, do aço, dos semicondutores ou das chamadas terras raras. É uma visão compreensível. Esses temas produzem manchetes grandiosas, reuniões diplomáticas tensas e fotografias dignas de capa de revista. Poucos imaginam que uma das batalhas mais interessantes do século XXI esteja acontecendo silenciosamente dentro da tela de um telefone celular.

O nome dessa história é PIX.

Durante décadas, o sistema global de cartões de crédito foi uma das engrenagens mais lucrativas do capitalismo moderno. Não estamos falando apenas de um pedaço de plástico guardado na carteira. Estamos falando de um ecossistema financeiro que transformou cada compra, cada parcela e cada atraso de pagamento em fonte permanente de receita.

Os números ajudam a compreender a dimensão do negócio.

Em 2025, no Brasil, a American Express registrou faturamento aproximado de US$72,2 bilhões, algo em torno de R$397 bilhões pelo câmbio médio do período. A Visa alcançou receita próxima de US$40 bilhões, equivalentes a cerca de R$220 bilhões. Já a Mastercard encerrou o exercício com faturamento estimado em US$32,8 bilhões, aproximadamente R$180 bilhões.

Somadas, as três gigantes arrecadaram quase R$800 bilhões em apenas doze meses.

Para efeito de comparação, esse montante supera o Produto Interno Bruto de muitos países e ultrapassa, com folga, o orçamento anual da maioria dos estados brasileiros.

Naturalmente, esse dinheiro não cai do céu.

Uma parte vem das anuidades cobradas dos usuários. Outra, nasce das taxas descontadas dos comerciantes a cada venda realizada. Há ainda as receitas geradas por parcelamentos, antecipações de recebíveis, seguros, programas de fidelidade e serviços agregados. Mas a verdadeira mina de ouro sempre esteve em outro lugar: nos juros cobrados daqueles que não conseguem quitar integralmente suas faturas.

É um modelo tão rentável que atravessou décadas praticamente sem concorrência relevante.

Até que surgiu o PIX.

Quando o Banco Central lançou o sistema, concebido durante o governo  de Dilma Rousseff e implantado após o golpe, no governo  de  Michel Temer, muita gente o enxergou apenas como mais uma modernização bancária. Alguns acreditavam que os brasileiros continuariam dependentes dos velhos hábitos. Outros apostavam que os bancos imporiam resistências silenciosas. Houve até quem previsse que a novidade teria vida curta.

O mercado, porém, costuma ser um professor severo com quem subestima a conveniência.

Em poucos anos, o PIX se espalhou pelo país numa velocidade rara. O ambulante da esquina aderiu. O supermercado aderiu. O consultório médico aderiu. O taxista aderiu. A diarista aderiu. O advogado aderiu. Até aquele parente que ainda se perde procurando o botão correto do controle remoto aprendeu a apontar a câmera do celular para um QR Code.

O motivo é simples.

O PIX resolveu um problema que parecia insolúvel: transferir dinheiro instantaneamente, a qualquer hora do dia ou da noite, com custo reduzido e sem a longa procissão de intermediários que acompanham uma transação tradicional.

Numa compra feita por cartão, existe uma fila respeitável esperando sua participação na receita. O banco emissor recebe uma parcela. A bandeira recebe outra. A empresa responsável pela maquininha recebe mais uma. Dependendo da operação, surgem ainda processadoras, financiadoras e outros participantes menos visíveis para o consumidor.

Quando o pagamento ocorre via PIX, boa parte dessa estrutura deixa de ser necessária.

E quando uma estrutura deixa de ser necessária, alguém inevitavelmente deixa de faturar.

É exatamente nesse ponto que a discussão deixa o campo da tecnologia e entra no território dos interesses econômicos.

Os Estados Unidos abrigam as maiores empresas de meios de pagamento do planeta. Visa, Mastercard e American Express não são apenas marcas famosas. Elas representam um setor estratégico que movimenta trilhões de dólares e exerce enorme influência sobre o sistema financeiro internacional.

Sob essa perspectiva, o PIX não é apenas uma inovação brasileira. É uma quebra de paradigma.

Pela primeira vez, uma grande economia desenvolveu um sistema público de pagamentos instantâneos capaz de competir, em escala nacional, com estruturas privadas que dominaram o mercado durante décadas.

Mais do que isso: o modelo brasileiro passou a despertar atenção em diversos países.

E é justamente aí que o assunto ganha relevância geopolítica.

Não existe prova pública de que eventuais divergências comerciais entre Brasil e Estados Unidos tenham como causa direta o sucesso do PIX. A política internacional raramente funciona de forma tão simples. Tarifas, interesses estratégicos, disputas comerciais e considerações diplomáticas costumam formar uma mistura complexa demais para explicações únicas.

Mas também seria ingenuidade imaginar que os gigantes globais dos meios de pagamento observam o fenômeno brasileiro com absoluta tranquilidade.

A razão é elementar.

Se outros países adotarem sistemas semelhantes, parte das receitas hoje consideradas naturais poderá simplesmente evaporar. Taxas desaparecem. Intermediações tornam-se dispensáveis. Custos caem. E recursos que antes percorriam longas cadeias financeiras permanecem circulando dentro das economias locais.

Poucas coisas causam mais desconforto a um modelo de negócios do que uma inovação capaz de entregar o mesmo serviço por uma fração do custo.

Talvez por isso o PIX tenha se transformado em algo muito maior do que um simples método de pagamento.

Ele se tornou uma demonstração prática de que é possível desafiar estruturas consideradas intocáveis.

Durante décadas, o Brasil foi visto como consumidor de tecnologias financeiras desenvolvidas em outros centros econômicos. Pela primeira vez, a lógica se inverteu. Em vez de importar uma solução, o país apresentou uma alternativa que passou a ser observada pelo restante do mundo.

Uma alternativa criada por um banco central.

Sem anuidade.

Sem maquininha.

Sem bandeira.

Sem horário comercial.

Sem a necessidade de pedir autorização a ninguém.

O PIX não destruiu o império dos cartões. Nem poderia. Visa, Mastercard e American Express continuam entre as empresas mais poderosas do planeta e seguem faturando centenas de bilhões de reais todos os anos.

Mas o sistema brasileiro fez algo que poucos acreditavam possível: sentou-se à mesa onde apenas gigantes costumam ter lugar e começou a disputar espaço no prato principal.

E quando alguém mexe justamente no prato principal, não demora para surgir quem reclame que lhe tiraram o biscoito da boca.


Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas


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