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O muro baixo e escorregadio da sucessão de Casagrande

05/10/2025 08:41
O muro baixo e escorregadio da sucessão de Casagrande
*Por Marcelo RossoniPor trás do silêncio estratégico e dos gestos ainda contidos, o xadrez da sucessão de Renato Casagrande (PSB) já tem peças colocadas no tabuleiro. O prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (Sem Partido), o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), e o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB) já ensaiam os primeiros movimentos públicos para disputar o Palácio Anchieta em 2026. Com Casagrande deixando o governo em abril de 2026 para tentar uma vaga no Senado, a corrida pelo trono do Palácio Anchieta se acelera. E o muro da sucessão, ao contrário do que muitos pensam, está mais baixo do que nunca — não exige escada, nem rampa, mas sim muita articulação, alianças consistentes e, sobretudo, vitória na Grande Vitória.O cenário é inédito em décadas: três atores com musculatura própria, experiência administrativa e base eleitoral sólida em seus redutos se movimentam com desenvoltura antes mesmo de a eleição tomar forma.O vice-governador Ferraço, nome tradicional da política do Espírito Santo e com passagem pelo Senado, aparece com um diferencial notável: forte trânsito junto ao empresariado industrial e agrícola. Sua relação orgânica com a Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e com a Federação da Agricultura (Faes) o coloca em posição confortável entre os setores que têm voz ativa, dinheiro e influência. Além disso, Ferraço conta com o apoio declarado do prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio (MDB), que goza de alta aprovação popular e é conhecido por sua entrega em obras e ações visíveis. Seu apoio não é trivial: Euclério foi reeleito em 2020 com mais de 60% dos votos. E faz questão de vocalizar seu entusiasmo por Ferraço. Euclério quer disputar uma das vagas ao senado em 2026.A equação, no entanto, está longe de ser simples. Pazolini e Arnaldinho, nomes de peso nos dois importantes colégios eleitorais do Espírito Santo — Vitória e Vila Velha —, sabem que separados correm o risco de ver o bonde passar. Mas juntos, caso consigam uma aliança, podem alterar drasticamente a correlação de forças.Ambos foram eleitos com discurso de renovação, eficiência e distanciamento das velhas estruturas partidárias. Governam com alto índice de aprovação e projetam imagens de gestores operosos, próximos do cotidiano das cidades e atentos às demandas locais. Em um Estado onde o voto metropolitano é decisivo, a eventual união dos dois representaria uma força difícil de ser ignorada. O problema está justamente no “eventual”. Se as conversas entre Pazolini e Arnaldinho são verdadeiras ou não existem, ainda carecem de definição sobre quem abriria mão da cabeça de chapa. Nenhum dos dois quer sair como vice ou ceder o protagonismo em uma disputa que ambos consideram madura. Internamente, aliados de Pazolini lembram que o prefeito da capital tem exposição maior, circula com desenvoltura em Brasília e possui, hoje, interlocução direta com lideranças nacionais do Republicanos e do União Brasil.Já os defensores de Arnaldinho afirmam que ele soube dialogar com diversos campos ideológicos, montou uma administração eficiente e ampliou sua base para além da direita conservadora que o elegeu. Em resumo: dois caciques, um só cacicado.Enquanto isso, Ferraço avança. Em silêncio, costura apoios, acena para o agronegócio no interior e intensifica a presença institucional como vice-governador. Se Casagrande decidir sair de fato do governo — o que é cada vez mais provável, diante da necessidade de desincompatibilização para o Senado —, Ferraço assumirá a cadeira e poderá usar o cargo para se consolidar como o candidato natural da máquina estadual. E a máquina pesa. Se não decide eleições, ao menos ajuda a organizar palanques, viabilizar candidaturas proporcionais e garantir tempo de TV. Ferraço é um político experiente o suficiente para saber disso.Nos bastidores, circula a avaliação de que o eleitor capixaba está menos polarizado do que em outros estados. Aqui, a disputa tende a ser menos ideológica e mais pragmática. Isso favorece perfis que se apresentam como técnicos, gestores, articuladores. Nesse ponto, Arnaldinho, Pazolini e Ferraço se equiparam. Nenhum deles é conhecido por discursos extremados ou posicionamentos radicais. São políticos de centro, com variações sutis — Arnaldinho mais popular, Pazolini, liderando todas as pesquisas de opinião, mais institucional, Ferraço mais tradicional.A grande incógnita continua sendo a capacidade de mobilização e articulação fora das bolhas eleitorais já conquistadas. Ferraço precisa se projetar para além do interior e dos conselhos empresariais.Arnaldinho e Pazolini, por sua vez, precisam romper as muralhas dos próprios municípios e mostrar que são viáveis em escala estadual. E tudo isso sob a sombra de Casagrande, que, mesmo saindo do governo, continuará sendo uma força com capacidade de atrapalhar ou empurrar candidaturas. No final das contas, o muro da sucessão não é alto. Mas é escorregadio. E quem quiser ultrapassá-lo terá que saber negociar com habilidade, juntar apoios com inteligência e vencer a disputa não só no interior ou nos bastidores, mas principalmente na Grande Vitória — que concentra quase metade do eleitorado e define quem sobe a rampa do Palácio Anchieta. Em 2026, a eleição promete ser menos sobre ideologia e mais pragmática. E nesse jogo, quem souber somar antes de dividir sairá na frente.

  *Marcelo Rossoni é jornalista

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