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O modelo de negócio dos Correios ficou preso no século XX

08/12/2025 00:00
O modelo de negócio dos Correios ficou preso no século XX
*Por Marcelo RossoniOs Correios nasceram em 1663, quando o Brasil ainda era um território administrado à pena de ganso e carimbado no ritmo da Coroa Portuguesa. Naquele século distante, bastava um cavalo arisco e um mensageiro corajoso para que o reino se comunicasse. O carteiro era, de certo modo, o primeiro influenciador do país: levava notícias, recados amorosos e ordens régias com a mesma solenidade. A estatal ainda não era estatal, mas já tinha o porte de quem um dia seria dona de um monopólio protegido por lei e tradição.Os séculos giraram, o país virou Império, depois República, e o serviço postal seguiu avançando em velocidade moderada, sempre confiando que o tempo — esse senhor generoso — lhe daria razão. Em 1931, Vargas oficializou o Departamento de Correios e Telégrafos (DCT), instituição que sonhava ser moderna, embora carregasse nos ombros o peso dos próprios carimbos. Coube ao regime militar, em 1969, promover a grande metamorfose: o velho departamento virou empresa pública, ganhou CNPJ e sigla moderna, ECT, como se o simples ato de reorganizar o nome fosse suficiente para reorganizar o país.Mas o futuro não costuma esperar por quem prefere andar em marcha lenta. Quando o fax surgiu, cuspindo papéis em velocidade supersônica, o monopólio postal ganhou um grande concorrente de verdade — e que este tinha eletricidade suficiente para deixar o carteiro sem fôlego. Antes do fax veio o telex, um telegrama hipertrofiado; em seguida a telefoto, que levou imagens a lugares onde as cartas não chegavam; e, finalmente, o e-mail, que não apenas aposentou o envelope, mas também uma certa ilusão de eternidade institucional. Os aplicativos de mensagem, como bons herdeiros da modernidade, só completaram o serviço.Era o início do descompasso: enquanto o mundo corria para o digital, os Correios permaneciam ancorados no modelo que os consagrou no século XX — eficaz para um país de papel, ineficaz para uma economia de pixels. O e-commerce, que poderia ter representado a salvação financeira da estatal, encontrou refúgio em empresas privadas, que ofereciam rastreamento preciso, prazos compreensíveis e preços que não precisavam de carimbo. A burocracia dos Correios — sólida, imutável, quase uma obra arquitetônica — tratou de empurrar clientes e lojistas para a concorrência. E o que era para ser uma mina de ouro virou um aceno distante pela janela. A estatal tentou reagir. A palavra “modernização” passou a frequentar seus discursos com a regularidade de um mantra. Inovação, transformação digital, reestruturação: todos os termos foram mobilizados. Mas o país percebeu que a distância entre a tecnologia e a agência mais próxima continuava grande. E o caixa da empresa só fazia confirmar o diagnóstico. Surgiu, então, a possibilidade de um empréstimo de R$20 bilhões, capaz de reerguer a estatal. Parecia o bote inflável ideal para atravessar a tormenta. Só que os bancos, mais pragmáticos que benevolentes, apresentaram a conta: juros tão altos que a ECT começou a desconfiar que valeria mais a pena enviar o pedido por carta registrada, na esperança de que ele se perdesse pelo caminho..Sem empréstimo, restou a muleta orçamentária. A Lei de Diretrizes Orçamentárias destinou R$10 bilhões para tentar salvar a empresa — um tipo de gesto paternal do Estado, como aquele tio compreensivo que sempre empresta dinheiro ao sobrinho confiando que, desta vez, a vida dele “vai engrenar”. O problema é que nenhum aporte substitui a necessidade de rever o modelo de negócio. Sem isso, todo recurso corre o risco de virar apenas um selo caro colado numa carta que ninguém pediu.Hoje, os Correios se encontram num limbo curioso. Não são suficientemente ágeis para competir com transportadoras privadas, nem antigos o bastante para manter o charme romântico dos tempos em que uma carta levava emoção ao destinatário antes de levar papel. Estão presos numa fronteira incômoda, onde a burocracia pesa mais que qualquer pacote. Uma burocracia tão zelosa que deixou o e-commerce escapar pelas mãos — e, enquanto a concorrência faz entregas em tempo real, a estatal parece ainda procurar o protocolo certo na gaveta errada.Ainda assim, há algo de brasileiro nessa resistência. A empresa continua entregando o que pode, como pode, no tempo que acredita ser adequado. E, quando uma encomenda finalmente chega, a sensação é quase de milagre doméstico — desses que o país aprende a aceitar com ternura. Talvez os Correios já não tenham o brilho do monopólio do passado, mas guardam, de alguma forma, a vocação teimosa de quem insiste em participar da história, mesmo quando a história muda de lado da rua.Enquanto o Brasil digitalizado avança na velocidade 5G, os Correios caminham como se estivessem cruzando o século XX pela segunda vez, com calma, método e uma curiosa incapacidade de pressa. O que não deixa de ser simbólico: poucas instituições revelam tanto sobre o país quanto essa estatal que nasceu na colônia, virou empresa pública no século passado e ainda luta, no século XXI, para descobrir se o futuro aceita correspondência registrada.

  *Marcelo Rossoni é jornalista

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