*Por Marcelo RossoniCachoeiro de Itapemirim — famosa como a “capital secreta do mundo” — sempre soube manter um certo senso de grandeza. Não é por acaso que, nos bailes de gala do clube tradicional da cidade — Caçadores Carnavalesco Clube (CCC), os sócios ainda usam smoking, postura e brilho alinhados, como se a elegância fosse patrimônio tombado. Talvez por isso mesmo, quando um detalhe escorrega da linha do protocolo, o fato não se perde: ele vira crônica, música, memória. E assim foi com a calcinha preta, usada, encontrada no chão da sala em que repousam processos sob segredo de Justiça no fórum do município.O ocorrido se deu no último dia 29. As servidoras chegaram cedo, abriram o Fórum e, entre carimbos, papel pardo e aquele silêncio burocrático climatizado, encontraram a peça estendida no chão com a tranquilidade de quem retornou de um baile, mas esqueceu o fim da história. A calcinha parecia, inclusive, confortável no ambiente — o que tornou tudo ainda mais intrigante.A ordem, claro, foi investigar. E assim se iniciou uma apuração digna de true crime municipal: análise das câmeras, verificação de acessos, reconstrução de horários, tudo com o rigor que o local — e o símbolo — exigem. Afinal, estamos falando da sala dos processos sob sigilo, onde a vida de muita gente está empilhada em volumes grossos e discretos.O juiz, diga-se, manteve a postura. Não riu, não arqueou sobrancelha, não permitiu que o episódio arrancasse dele mais do que um silêncio calculado. Mas a cidade, que é boa de observar miudezas, garante ele não tremeu nem por dentro — nunca por fora. A magistratura local tem seus protocolos.Foi então que surgiu a orientação que já entrou para os anais folclóricos: “meritíssimo, se as imagens das câmeras não revelarem nada, determine teste de DNA, que um dia a dona desatenta da calcinha será identificada. ”Não há ironia nessa frase: há responsabilidade. Ciência. Procedimento. E uma pitada involuntária de épico.Enquanto isso, o povo — essa instituição paralela que funciona 24 horas — fez seu trabalho tradicional: comentou. Cachoeiro é a cidade onde o cafezinho jamais vem desacompanhado de teoria interpretativa. Surgiram hipóteses: romance clandestino; distração; protesto; prova anexada por engano em processo sigiloso; a sempre favorita — “coisas da vida que acontecem”.E como tudo que merece ficar, virou música sertaneja. Uma moda sertaneja própria, com viola e sorriso escondido. Na letra, estão todos os elementos dramáticos fundamentais: “o Fórum, as servidoras, a surpresa matinal, o juiz mantendo dignidade, o povão fazendo leitura social e a calcinha, agora ungida em personagem que atravessa corredores e imaginários. ”Cachoeiro tem esse talento raro de dar biografia ao detalhe. A cidade arquiva narrativas como quem coleciona pedras do Rio Itapemirim: pequenas, mas indispensáveis para o mosaico da identidade local. Aqui, nada passa despercebido. Nem o vento.No fundo, o episódio não ridiculariza ninguém. Pelo contrário: revela a vida. A vida, essa entidade que nunca consulta manual de conduta, entrou, circulou e deixou um recado no chão da sala mais séria e bem guardada do prédio.O verdadeiro segredo de Justiça talvez seja justamente este:por trás das togas, pilhas de autos e liturgias, há sempre humanidade.E às vezes, a humanidade usa smoking.Outras vezes, deixa uma calcinha no caminho.