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O Mestre Luiz Paulo Vellozo Lucas

27/05/2026 10:01
O Mestre Luiz Paulo Vellozo Lucas

Por Marcelo Rossoni


Quando muita gente chega aos 70 anos pensando em diminuir o ritmo, organizar fotografias antigas ou apenas aproveitar uma rotina mais tranquila, o ex-prefeito de Vitória Luiz Paulo Vellozo Lucas resolveu fazer exatamente o contrário. Em vez de desacelerar, decidiu colocar novos projetos na estrada. E projetos grandes.

Um deles é político: disputar uma vaga de deputado estadual pelo PSDB. O outro é acadêmico: seguir estudando até alcançar o doutorado, o título de PhD.

Pode parecer apenas mais uma informação de currículo. Não é.

Na prática, trata-se de uma escolha rara num país que costuma tratar envelhecimento como sinônimo de recolhimento. Luiz Paulo parece enxergar a idade de outra maneira. Para ele, o tempo não virou freio. Virou bagagem.

Na quinta-feira, 14 de maio, durante nossa conversa telefônica, falou com entusiasmo sobre os dois caminhos que pretende seguir. Mas era perceptível um brilho especial ao comentar a conquista recente do título de Mestre. Não havia ali discurso decorado. Nem aquela fala automática tão comum em figuras públicas acostumadas a entrevistas. Havia satisfação verdadeira. Orgulho legítimo de quem atravessou mais uma etapa importante da própria trajetória.

Talvez justamente por isso a conversa tenha chamado atenção.

Em tempos dominados por respostas rápidas, vídeos curtos e opiniões produzidas na velocidade das redes sociais, alguém aos 70 anos decidir enfrentar rotina acadêmica pesada, bibliografia extensa, pesquisa científica e banca examinadora acaba se tornando quase um personagem fora do padrão da época.

Engenheiro de formação, ex-prefeito de Vitória e nome historicamente ligado aos debates sobre planejamento urbano e desenvolvimento regional, Luiz Paulo voltou recentemente ao ambiente universitário disposto a estudar com a dedicação de quem ainda acredita que conhecimento continua sendo ferramenta séria — e não apenas ornamento de currículo.

O resultado concreto desse retorno é a dissertação “Governança Metropolitana na Grande Vitória: uma proposta de aperfeiçoamento institucional e gerencial”, desenvolvida no Mestrado em Engenharia e Desenvolvimento Sustentável da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

O tema pode soar excessivamente técnico à primeira vista. Mas basta olhar pela janela de qualquer motorista preso no trânsito da Grande Vitória para entender sua importância prática.

A pesquisa mergulha justamente nos problemas que atravessam diariamente as fronteiras dos municípios: mobilidade urbana, saneamento, ocupação desordenada, transporte coletivo, crescimento populacional, infraestrutura e desigualdade social.

Em linguagem simples, o trabalho parte de uma constatação que qualquer morador da Região Metropolitana conhece intuitivamente: os problemas são compartilhados, mas as soluções quase sempre continuam sendo tratadas de maneira isolada.

A Grande Vitória cresceu. E cresceu rápido.

Só que o modelo de integração entre os municípios, em muitos aspectos, continua andando num ritmo muito mais lento do que o avanço urbano das últimas décadas.

A dissertação analisa exatamente esse descompasso.

O estudo envolve Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica, Viana, Guarapari e Fundão, apontando dificuldades históricas de coordenação entre prefeituras e governo estadual. Embora existam conselhos, estruturas legais e mecanismos institucionais destinados à integração metropolitana, a cooperação prática ainda funciona de forma fragmentada.

Traduzindo para o cotidiano: cada cidade continua olhando excessivamente para o próprio território enquanto os problemas ignoram divisas administrativas.

O trabalho também aborda os gargalos do pacto federativo brasileiro e a dificuldade histórica do país em construir mecanismos eficientes de governança metropolitana. Em vários momentos, Luiz Paulo aponta uma contradição bastante brasileira: depois da Constituição de 1988, os municípios receberam mais responsabilidades, mas nem sempre ganharam recursos e estrutura compatíveis com essas novas obrigações.

A experiência administrativa acumulada ao longo da vida aparece discretamente no texto. Não como propaganda pessoal. Não como memorial político. Surge, na verdade, como repertório de alguém que conhece o funcionamento da máquina pública por dentro.

Em alguns trechos, a dissertação parece menos um trabalho acadêmico convencional e mais o diagnóstico de quem passou décadas tentando fazer o sistema funcionar na prática.

Luiz Paulo fala sobre “vazio institucional”, sobreposição de competências, fragilidade dos mecanismos de cooperação regional e dependência excessiva de recursos federais. Mas o tom do trabalho evita o academicismo hermético que costuma afastar leitores.

Há ali uma preocupação permanente com soluções concretas.

O estudo propõe fortalecimento institucional do planejamento metropolitano, maior integração regional, modernização administrativa e criação de estruturas permanentes capazes de sobreviver às mudanças de governo.

Essa talvez seja uma das marcas mais antigas de Luiz Paulo na vida pública: a insistência no planejamento de longo prazo.

Num ambiente político frequentemente dominado pelo improviso, pela urgência eleitoral e pelas soluções de curtíssimo prazo, ele continua defendendo a ideia — hoje quase tratada como antiquada — de que a gestão pública precisa pensar décadas à frente.

Curiosamente, enquanto muitos políticos buscam títulos acadêmicos apenas para ornamentar biografias, no caso dele o movimento parece ocorrer no sentido contrário. O retorno à universidade transmite mais inquietação intelectual do que cálculo eleitoral.

E talvez seja justamente isso que torna a história interessante.

Aos 70 anos, Luiz Paulo poderia simplesmente acomodar-se ao capital político já acumulado. Poderia viver apenas da própria biografia. Preferiu voltar a estudar.

Sem espetáculo.

Sem transformar a conquista em peça publicitária.

Sem aquele comportamento de palestrante motivacional que às vezes transforma qualquer esforço pessoal em campanha de autopromoção.

Apenas estudando.

Apenas trabalhando.

Ao mesmo tempo, o projeto político segue vivo. Luiz Paulo trabalha nos bastidores para disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa pelo PSDB, partido ao qual permanece historicamente ligado.

Sua eventual candidatura surge num momento de rearrumação do cenário político capixaba, marcado por redefinições de alianças e pela procura de quadros experientes.

Nesse contexto, Luiz Paulo ocupa um espaço peculiar.

Pertence a uma geração formada antes da política se tornar completamente dependente das redes sociais. Talvez por isso ainda demonstre certa confiança em algo que parece ter perdido valor em parte do debate público brasileiro: estudo, formulação técnica e planejamento.

Sua pesquisa também dialoga diretamente com os desafios contemporâneos da Grande Vitória. O crescimento acelerado da Região Metropolitana continua pressionando a mobilidade, habitação, saneamento e infraestrutura.

A própria dissertação destaca que a região concentra aproximadamente metade da população do Espírito Santo e mais da metade do Produto Interno Bruto estadual. Ou seja: discutir governança metropolitana significa discutir o coração econômico do Estado.

Ao final do trabalho, Luiz Paulo defende reformas organizacionais, fortalecimento dos órgãos de planejamento, integração regional e novos modelos de financiamento para políticas públicas metropolitanas.

Mas talvez o aspecto mais simbólico dessa história esteja fora das páginas acadêmicas.

Num país que frequentemente transforma envelhecimento em sinônimo de resignação, Luiz Paulo resolveu responder ao tempo de forma silenciosa: continuando curioso.

E existe algo quase bonito nisso.

Enquanto parte da política brasileira envelhece cedo no discurso fácil, alguém aos 70 anos decide enfrentar pesquisa científica, escrever dissertação, voltar à universidade e planejar um doutorado.

Sem alarde.

Sem personagens.

Sem performance.

Talvez seja justamente essa capacidade de preservar entusiasmo intelectual que explique sua permanência no debate público capixaba ao longo de tantas décadas.

Durante a nossa conversa, era impossível não perceber a satisfação genuína ao falar sobre o título de mestre recém-conquistado. Havia ali algo raro: alegria verdadeira diante da possibilidade de continuar aprendendo.

No fundo, talvez a principal mensagem dessa nova etapa seja bastante simples.

A idade pode até impor limites físicos.

Mas não precisa impor limites à vontade de pensar, estudar e continuar começando de novo.

Parabéns, Luiz Paulo!


Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas


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