Por Marcelo Rossoni
Há economistas que explicam o mundo como quem faz uma conta de dividir. E há os que, mesmo diante de planilhas e gráficos, ainda lembram que gente não cabe em colunas. Maria da Conceição Tavares pertencia à segunda categoria, a mais rara — e a menos valorizada — do ofício. Morreu, mas não descansou. Suas ideias seguem perambulando por aí, perturbando os vivos, lembrando que economia não é aritmética: é escolha moral.
Há anos, quando apareceu no Roda Viva, parecia uma visitante de outro século. Falava de justiça social enquanto o mundo do capitalismo selvagem se curvava diante do déficit zero. “Uma economia que não se preocupa com a justiça social é coisa do demo”, disse, entre o deboche e a fúria. Não era metáfora: era diagnóstico. E a doença continua viva, bem alimentada e em expansão.
Hoje, o país ainda repete a ladainha que ela denunciou: primeiro estabilizar, depois crescer, e só então distribuir. A fórmula é velha e falha, mas segue sendo recitada como oração. Nenhum governo resiste à tentação de prometer eficiência sacrificando a justiça. E o resultado é sempre o mesmo: estabilidade para os números, instabilidade para as pessoas.
Enquanto economistas de terno caro falam em “otimização de recursos”, o trabalhador otimiza o almoço. A miséria cresce de forma eficiente. O desemprego é tratado como variável natural. E o mercado vibra com a precisão das planilhas, indiferente às vidas que elas não computam. Tudo parece “sob controle”, mas o controle é sempre exercido sobre quem não tem poder algum.
Maria da Conceição nunca acreditou em neutralidade técnica. Dizia que economia é política, conflito e escolha de lado. Escolheu o seu: o dos que trabalham, perdem e pagam a conta. Irritou conservadores, pragmáticos e oportunistas. Falava alto, sem pedir licença, e usava a raiva como combustível — não a raiva do ódio, mas a do inconformismo.
Para ela, gastar com o povo não era irresponsabilidade: era investimento. Essa ideia simples, quase infantil, tornou-se heresia no templo do mercado. O tempo passou, e o Brasil continuou a tratar a desigualdade como efeito colateral aceitável. É mais elegante culpar a ineficiência do que a indiferença. Afinal, a estatística não chora.
A morte não a silenciou. Só a transformou em fantasma incômodo. De tempos em tempos, alguém resgata suas entrevistas e se espanta com a atualidade. Ela dizia o óbvio quando o óbvio ainda escandalizava. Falava em renda e emprego quando a moda era cortar gastos. Hoje, quando tudo gira em torno da “confiança do investidor”, suas palavras ainda soam perigosas.
Os antigos companheiros que se converteram ao pragmatismo são parte da dor que ela carregou até o fim. Chamava de traição intelectual. Talvez fosse apenas cansaço. O tempo amansa até os rebeldes, mas não conseguiu amansar Maria. Continuou defendendo que estabilizar, crescer e distribuir são tarefas simultâneas, não etapas sucessivas.
Em cada crise, o país repete o ritual: o povo aperta o cinto, o governo faz o dever de casa, o mercado se acalma. A vida real, essa que não aparece no PIB, continua em sobressalto. Os números, esses sim, dormem tranquilos. O povo, não. E assim seguimos, em nome da responsabilidade fiscal, produzindo irresponsabilidade social.
Talvez o que mais incomodasse em Maria fosse sua recusa em aceitar o cinismo como método. Acreditava que pensar economia exigia compaixão, palavra que não existe nos manuais. Se voltasse hoje, seria chamada de populista. Mas quem a ouviu sabe: ela era apenas lúcida demais para caber nos gráficos.
E é por isso que continua viva. Sua voz ecoa como maldição sobre os tecnocratas, lembrando que taxa de juros não substitui salário e que estabilidade sem justiça é só uma forma elegante de ruína. Maria da Conceição Tavares morreu, mas o incômodo que provoca continua. E, em tempos tão conformistas, talvez essa seja a maior homenagem possível.
Marcelo Rossoni é jornalista