A sabedoria popular ensina que "o cavaco não cai longe do pau". Em política, porém, o ditado costuma valer apenas até o momento em que a urna é aberta. A partir daí, o sobrenome ajuda, experiência familiar ajuda, estrutura partidária ajuda, mas o eleitor passa a julgar o candidato pelo que ele é capaz de apresentar.
É justamente esse desafio que está diante de Maguinha Malta.
Prestes a disputar uma cadeira no Senado da República, ela escolheu — ou foi escolhida — para iniciar sua trajetória eleitoral pelo caminho mais difícil. Em vez de começar pela Câmara de Vereadores, pela Assembleia Legislativa ou pela Câmara dos Deputados, pretende estrear diretamente na principal disputa majoritária do Espírito Santo.
Não se trata de um degrau comum. É praticamente um salto sobre a escada inteira.
O Senado é uma disputa estadual. Para chegar à vitória, o candidato precisa conquistar eleitores nos 78 municípios capixabas. Não basta reunir votos em uma cidade, em um segmento religioso hoje muito em moda, em uma categoria profissional ou em uma região específica. É necessário apresentar uma mensagem capaz de atravessar fronteiras municipais, diferentes realidades econômicas e diversas correntes de pensamento.
Maguinha, cujo nome completo é Magda Santos Malta, ocupa a vice-presidência estadual do Partido Liberal (PL) no Espírito Santo e participa das articulações partidárias há vários anos. Trabalhou como assessora parlamentar, acompanhou campanhas eleitorais e esteve ao lado do senador Magno Malta durante praticamente toda a sua trajetória política.
Poucos estreantes chegam a uma eleição com uma escola política tão intensa. Ela viu de perto alianças, disputas, vitórias, derrotas, crises e recomeços. Aprendeu a linguagem da política muito antes de colocar seu próprio nome à disposição do eleitor.
Mas conhecer a política por dentro é diferente de disputar uma eleição.
Até agora, Maguinha atuava principalmente nos bastidores, colaborando na organização partidária e no apoio a outros candidatos. Ao assumir uma pré-candidatura ao Senado, passa automaticamente para o centro do palco. A partir desse momento, cada discurso, cada entrevista, cada posicionamento e até cada silêncio passam a ser observados.
O sobrenome que abre portas também amplia a cobrança.
A candidatura foi apresentada pelo PL como parte de seu projeto eleitoral para 2026. Maguinha afirmou publicamente que pretende disputar o Senado e seu nome passou a integrar as articulações da direita capixaba para a formação da chapa majoritária.
É justamente aí que começa seu maior desafio.
Ela precisará demonstrar que não pretende ser apenas a continuidade política do pai.
Magno Malta construiu uma das trajetórias mais conhecidas da política capixaba. Possui eleitorado fiel, projeção nacional e décadas de experiência parlamentar. Naturalmente, esse patrimônio político representa uma vantagem importante para qualquer candidato que carregue seu sobrenome.
Entretanto, a política brasileira oferece inúmeros exemplos de famílias tradicionais que descobriram que votos não são transmitidos por herança.
Prestígio ajuda, a estrutura ajuda, o sobrenome ajuda, mas também pode atrapalhar.
Mas a confiança do eleitor continua sendo uma conquista individual.
Quem encontrar o nome Maguinha Malta na urna certamente reconhecerá a ligação familiar. Ainda assim, desejará saber quem ela é, o que pensa, quais propostas defenderá e de que maneira pretende representar o Espírito Santo durante um mandato de oito anos.
Essa construção de identidade própria poderá definir o sucesso ou o fracasso da candidatura.
O caminho também não será livre de obstáculos.
A direita capixaba possui outros nomes interessados na disputa pelo Senado, alguns deles com mandatos, bases eleitorais organizadas e forte presença nos municípios. As articulações internas prometem ser tão intensas quanto a própria campanha eleitoral.
Nada disso diminui a importância da decisão tomada por Maguinha.
Ao contrário.
Revela a dimensão do desafio que decidiu enfrentar.
Ela não escolheu uma eleição confortável. Entrará numa disputa que poderá reunir ex-governadores, senadores, deputados, prefeitos e lideranças consolidadas. O fato de o Espírito Santo eleger dois senadores amplia as possibilidades, mas não transforma a eleição em um passeio.
Será necessário percorrer o Estado, fortalecer alianças, dialogar com prefeitos, vereadores, empresários, produtores rurais, trabalhadores, lideranças comunitárias e diferentes segmentos da sociedade.
Também precisará conquistar eleitores que nunca votaram em Magno Malta.
Talvez esse seja o verdadeiro tamanho do salto.
A herança política oferece um ponto de partida privilegiado. Pouquíssimos candidatos iniciantes contam com tamanho reconhecimento público e com uma liderança tão influente ao seu lado.
Mas essa vantagem poderá transformar-se em armadilha caso a campanha seja construída apenas sobre a ideia de continuidade familiar.
O eleitor costuma admirar histórias de superação e liderança própria.
É por isso que Maguinha precisará mostrar que possui voz própria, capacidade de formular propostas e condições de exercer um mandato independente.
Um senador não representa apenas seu partido ou seu campo ideológico.
Representa mais de quatro milhões de capixabas perante a Federação.
Cabe ao Senado discutir reformas constitucionais, apreciar indicações para os tribunais superiores, analisar operações financeiras dos estados e deliberar sobre matérias que influenciam diretamente o equilíbrio institucional do país.
É uma das funções mais relevantes da República.
Por isso, a pré-candidatura de Maguinha representa muito mais do que a entrada de um novo nome na disputa eleitoral.
Representa a passagem definitiva dos bastidores para o protagonismo.
A partir de agora, deixará de ser a filha do senador que acompanha campanhas para tornar-se a candidata que será observada, comparada, cobrada e julgada pelo eleitor.
A política costuma ser generosa com quem sabe construir o próprio caminho.
Também costuma ser implacável com aqueles que acreditam que um sobrenome, por mais respeitado que seja, basta para vencer eleições.
Maguinha Malta chega à disputa trazendo uma bagagem política que poucos estreantes possuem.
Agora precisará demonstrar que essa bagagem se transformou em preparo, liderança e capacidade de representar o Espírito Santo.
O grande salto já foi dado.
Daqui para frente, será o eleitor quem decidirá se ela terminou em um pouso seguro ou apenas em um voo de expectativa.
Marcelo Rossoni é jornalista, técnico em Contabilidade e graduado em Administração de Empresas.